terça-feira, 14 de novembro de 2017

Padre Manuel Magalhães dos Santos (1927-2017) - Sacerdote e historiador


Pe. Manuel Magalhães dos Santos
Manuel Magalhães dos Santos nasceu no lugar da Póvoa da freguesia de Palmeira, concelho de Braga, no dia 2 de maio de 1927, filho de António Ferreira dos Santos e de sua mulher D. Teresa de Magalhães, uma família de operários. Fez a instrução básica em Palmeira, onde foi ensinado por um amigo da família e, em 1939, depois de ter realizado com sucesso todos os exames, ingressou nos seminários de Braga, sendo ordenado presbítero em 8 de julho de 1951.
A sua primeira paróquia foi a aldeia do Lindoso, arciprestado de Ponte da Barca, onde se manteve até julho de 1956, altura em que foi transferido para Celeirós, tendo anexa Santa Ana de Vimieiro. Ali se manteve até 11 de agosto de 1965, embora fosse pároco já nomeado (e em funções) de Nossa Senhora do Amparo desde 7 de julho do mesmo ano.
Tendo sido transferido para a Póvoa de Lanhoso contra sua vontade, mas com a promessa do prelado bracarense de que aqui se manteria apenas por um ano, acabou por ficar durante mais de meio século. Enquanto pároco, construiu uma nova residência sacerdotal, fez obras na igreja matriz, no santuário de Nossa Senhora do Pilar e em praticamente todos os outros templos da paróquia, construiu um conjunto de pequenas capelas, espalhadas pelos lugares, destinadas a vários cultos mas, sobretudo, ao de Nossa Senhora.
Pregador admirado e um orador brilhante, foi um Homem que viajou por quase todos os “cantos do mundo”.
Foi um dos primeiros professores do ciclo preparatório Prof. Gonçalo Sampaio da vila da Póvoa de Lanhoso, no ano letivo de 1970 1971, tendo se mantido como tal até se aposentar.
Em 1963 publicou um brilhante estudo intitulado “Precioso Achado Arqueológico”, referindo-se à descoberta por parte de trabalhadores agrícolas de um conjunto de moedas romanas, em Prado, Braga. Em 1974, publicou outro estudo, a que deu nome de “A Telha de Prado”, no qual apresenta a origem a o desenvolvimento da indústria da olaria no campo da telha. Foram seus amigos especiais, nesta fase, os saudosos Doutor Avelino de Jesus da Costa e cónego Arlindo Ribeiro da Cunha, tendo este último, a seu pedido, conduzido alguns trabalhos arqueológicos no concelho da Póvoa de Lanhoso.
O seu amor pela história levou o a recolher, ao longo de décadas, pormenorizada informação sobre estas Terras, o que lhe permitiu, em 1990, redigir uma monografia sobre a sua paróquia, com muito perto de mil páginas. Nela deixou uma enorme quantidade de informação, capaz de fornecer a quem o deseje fontes e pistas para os mais diversos trabalhos historiográficos. Em 1995, escreveu um outro livro, intitulado Bombeiros Voluntários da Póvoa de Lanhoso – Sua Vida e Sua Lida, onde retrata a história daquela instituição desde a sua fundação até à data da edição. Em 2005, para celebrar as bodas de diamante da junta de freguesia da Póvoa de Lanhoso (Nossa Senhora do Amparo), deu ainda à estampa um breve estudo que teve grande divulgação.
Refira se ainda a honradez e o saber com que dirigiu, durante cerca de duas décadas, a Casa de Trabalho de Fontarcada, tendo a modernizado e ampliado, tornando a, assim, uma instituição de referência ao serviço dos doentes do foro mental em toda a região norte de Portugal.
Em 2010, teve um acidente que o reteve no leito durante algumas semanas, tendo nessa altura sido destituído da paróquia pelo prelado bracarense, mais uma vez contra a sua vontade.
Continuou a habitar na Póvoa de Lanhoso, tendo completado em 2 de maio passado 90 anos de vida. Morreu nesta mesma vila na noite de 1 de novembro de 2017.

José Abílio Coelho

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Francisco Manuel Martins de Oliveira (1824-1903) – Historiador, jornalista, agricultor, vereador da câmara municipal da Póvoa de Lanhoso

Francisco Manuel Martins de Oliveira


Martins de Oliveira, nascido na vila da Póvoa, da freguesia de Lanhoso, em 1824, residia, à data dos motins da Maria da Fonte, em Fontarcada, paróquia curada por um tio seu. A sua apetência para a escrita lavá-lo-ia a ser o primeiro natural da terra a publicar relatos precisos sobre a “revolução” da Maria da Fonte, a que assistira de perto (morava em Fontarcada e tinha 21 anos de idade) e sobre a qual inquiriu algumas das participantes nos desmandos contra as autoridades. A publicação dessas crónicas ocorreu quer em periódicos e revistas nacionais, quem em almanaques brasileiros. Em 1886 seria mesmo o principal conselheiro do jornalista Azevedo Coutinho quando este deu à estampa, no semanário que ainda hoje se publica com o nome da guerrilheira povoense, a “História da Revolução da Maria da Fonte”[1], o escrito local que melhor retrata os episódios vividos no concelho em 1846. Escreveu ainda sobre outras matérias locais e foi vereador da câmara municipal.


Francisco Manuel Martins de Oliveira nasceu na vila da Póvoa, na parte então pertencente à freguesia de Lanhoso, concelho da Póvoa de Lanhoso, em 2 de janeiro de 1824, sendo filho legítimo de António José de Oliveira, lavrador, natural de Pedralva (Braga), e de sua mulher Maria Josefa Martins, natural da freguesia de Taíde (Póvoa de Lanhoso)[2]. Seus avós paternos foram Bento José de Oliveira e Ângela Maria da Conceição, à data do seu nascimento residentes na mesma vila de Lanhoso, e maternos Francisco Martins e Maria da Afonseca, da freguesia de São Miguel de Taíde. Foi seu padrinho de batismo um tio paterno, reverendo Francisco José Martins, e madrinha a tia materna Custódia Martins, de Taíde[3]. Na pia batismal o pequeno recebeu o nome de Francisco Custódio – nomes próprios que, oficialmente, ainda usava em 1850. Mas, talvez porque já antes fosse assim chamado pelos familiares ou porque Francisco Manuel lhe parecesse nome mais literário para assinar os seus escritos, em 1867 procedeu à alteração notarialmente.
Terá sido no seio da família, e talvez sob orientação do próprio padrinho, que aprendeu as primeiras letras, as quais posteriormente desenvolveu à força de muita leitura. O estudo deve ter prosseguido quando, ainda jovem, talvez por morte dos pais, foi viver para Fontarcada, fazendo companhia a seu tio, o padre-cura João Martins Lopes que a história dos motins da Maria da Fonte virá a registar como o clérigo que se encontrava na capela de São Francisco de Simães preparado para presidir às exéquias quando as revoltosas de 1846 decidiram afrontar as autoridades administrativas, transportando elas próprias em ombros e sepultando, contra as ordens expressas do administrador, o cadáver de Custódia Teresa dentro da igreja fontarcadense[4].
Não obstante uma acentuada propensão para as letras, a vida de trabalho de Martins de Oliveira desenvolveu-se, desde muito jovem, na agricultura, como o próprio viria a escrever em 1856, quando já cronista regular de um conjunto de jornais e revistas, em artigo publicado na “Gazeta das Aldeias”: “Trabalho com a pena a favor da lavoura; nasci de pequenos agricultores, mestres na sua arte, profissão também exercida pelos meus antepassados, e agricultor me conservo desde a minha mocidade. Daí, da minha experiencia, e dos resultados do meu labor, vem a minha paixão pela vida dos campos”.
Na verdade Martins de Oliveira dedicou parte importante da sua vida a estas duas grandes paixões: a escrita e a agricultura. Como cultivador tornou-se “experimentador” de novos processos, assumindo e desenvolvendo tudo quanto de novo se tentava na agricultura da época. Recorde-se que, com as revolucionárias alterações das leis liberais que retiraram terras às ordens religiosas e às nobrezas ociosas, que acabaram com os morgadios e que venderam parte dos baldios às classes menos favorecidas, processo a que pax regeneradora e o seu momentâneo desafogo económico deu novas condições de exequibilidade, a agricultura, em Portugal, sofreu profundas transformações ao longo de toda a segunda metade da centúria de oitocentos[5]. Martins de Oliveira usou, em paralelo, os seus dons literários para colaborar, fazendo publicar muitas dezenas de artigos em que misturava o empirismo à nova ciência da hortofloricultura, em diferentes publicações periódicas, como Jornal da Sociedade Agrícola do Porto, Jornal de Agricultura e Horticultura Prática, Jornal Hortícola-agrícola, Revista Agrícola de Guimarães ou Gazela das Aldeias.
Casou, em 9 de janeiro de 1850, com Ana Francisca Vieira Martins Lopes, natural da freguesia de Lanhoso[6], filha legítima de António José Vieira e Rosa Joaquina Martins Lopes, oriundos de Santo André de Frades, mas moradores na vila da Póvoa da Póvoa. Poucos anos após o nascimento, Ana Francisca foi levada para Fontarcada, onde passou a residir com uns tios, o major de artilharia João Baptista Lopes Veloso e D. Maria Joana Martins Lopes, da casa da Arrifana de Baixo. O casal viria a ter pelo menos duas filhas: Maria Angelina e Maria Augusta Martins Lopes de Oliveira[7].
Com a esposa, veio a herdar, à morte dos tios, a casa da Arrifana de Baixo de Fontarcada, onde fora habitar após o casamento.
Faleceu, aos 80 anos de idade em 29 de maio de 1903, tendo o jornal local Maria da Fonte, do qual havia sido em 1886 um dos fundadores e seu dirigente nos primeiros anos de publicação, anotado: “O extinto era um dos agricultores práticos que, durante muitos anos, escreveu sucessivos artigos em diferentes jornais, com grande aproveitamento para toda a classe agrícola. Ao longo da vida, apresentou estudos e trabalho prático em vários certames nacionais, tendo sido variadíssimas vezes por eles premiado”[8].
Foi também cronista de periódicos nacionais e internacionais com artigos e crónicas sobre história, nomeadamente história local, tornando-se o primeiro povoense a relatar para fora de portas os acontecimentos da Revolução da Maria da Fonte de 1846. Recorde-se que, residindo em Fontarcada e sendo sobrinho do cura da paróquia, com quem habitava e com quem, certamente, muito conversou sobre este assunto, era senhor de informação precisa sobre os acontecimentos. Mais tarde, já entrado em anos, adjuvou o escritor Azevedo Coutinho com importantes apontamentos e informação para a redação do folhetim que este publicou no hebdomadário cujo nome homenageava a virago povoense, intitulado História da Revolução da Maria da Fonte (1886).
Tornou-se um homem culto e respeitado por toda a comunidade. Foi membro de várias irmandades religiosas e, nas décadas de 1870-1880 vereador da câmara municipal.
Foi avô de duas importantes figuras da primeira metade do século XX: o padre Francisco Dias de Oliveira, um dos fundadores do Sport Clube Maria da Fonte; e o médico Adriano Martins[9], primeiro administrador do concelho a seguir à implantação da República, várias vezes presidente da câmara e do senado municipal durante o mesmo período, e líder local incontestado do Partido Democrático durante todo o período de 1910 a 1926.
Especialmente pela sua dedicação à história da Revolução da Maria da Fonte, mas também pelo que, em muitos outros campos, de si deu à comunidade povoense, Francisco Manuel Martins de Oliveira deve ser relembrado como um dos grandes povoenses do século XIX.

José Abílio Coelho


[1] Publicado por mais de uma vez, como folhetim, no hebdomadário local que tem por patrona a heroína povoense, esta História da Revolução da Maria da Fonte foi, em 1997, dada a público em livro chancelado pela editora Ave Rara, com prefácio de Paulo A. Ribeiro Freitas.
[2] ADB, Paroquiais de Fontarcada, óbitos, 1903, fl. 4v.
[3] ADB, Paroquiais de Fontarcada, batismos, 1824, fls. 109v.-110.
[4] Sobre este assunto ler Coutinho, Azevedo, História da Revolução da Maria da Fonte, Póvoa de Lanhoso, Editorial Ave Rara, 1997.
[5] Sobre este assunto pode ler-se, entre outros, Graça, Laura Larcher, “Revolução Liberal e Organização da ‘Profissão’ Agrícola”, in Propriedade e Agricultura: evolução do modelo dominante de sindicalismo agrário em Portugal, Lisboa, Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa, dis. de doutoramento, 1999, pp. 12-77.
[6] Foram testemunhas do casamento o dito major João Batista Lopes Veloso, tio da noite e o reverendo Francisco José Martins, reitor de São Cristóvão de Parada de Cunhos, freguesia do concelho de Vila Real, e ainda o reverendo João Martins Lopes, da mesma casa da Arrifana de Baixo. ADB, Paroquiais de Fontarcada, casamentos, 1809-1862, fl. 40v.
[7] ADB, Paroquiais de Fontarcada, óbitos, 1903, fl. 4v.
[8] Cf. Jornal Maria da Fonte, nº 411, de 31 de Maio de 1903, p. 2.
[9] Cf. Jornal Maria da Fonte, nº 411, de 31 de Maio de 1903, p. 2.