sábado, 4 de fevereiro de 2012

Amândio de Oliveira (1910-1981) – Empresário


Amândio de Oliveira foi um dos pioneiros dos transportes colectivos na nossa região. Garfense dos quatro costados, cresceu pelos campos e caminhos desta povoense freguesia do vale do Ave que, poucos anos antes (em 13 de Janeiro de 1898), tinha regressado definitivamente ao concelho da Póvoa de Lanhoso, após ter integrado por duas vezes o de Guimarães.
Ainda em Garfe aprendeu as primeiras letras, embora, pelos nove anos de idade, acompanhasse já seu pai, o negociante de fazendas Eduardo de Oliveira, pelas feiras da região. O pai transportava as mercadorias que vendia num veículo tirado por cavalos, o que terá dado ao jovem Amândio não apenas a experiência do “viajante”, mas talvez a visão de um dia poder engenhar uma transportadora que levasse as pessoas dos locais onde habitavam até às feiras ou até às cidades e vilas.
Anos mais tarde, seu pai sofre um acidente e, com 16 anos, vai dar novo rumo à sua vida. É nessa altura que começa a dar forma ao sonho de transportar, não mercadorias, mas pessoas. Talvez o velho carro, puxado por cavalos, tenha sido o seu primeiro veículo de transportes. Certo é que pouco tempo depois, a 28 de Março de 1926, compra o primeiro veículo automóvel, lançando-se na aventura de uma actividade comercial que haveria de o acompanhar pela vida fora.
Não foi fácil o início da sua vida empresarial, mas a sua capacidade e amor ao trabalho, bem como o notável empreendedorismo, levaram-no a singrar e a desenvolver uma das mais consagradas transportadoras de passageiros de toda a região, intitulada Auto Rodoviária do Minho. Servindo um povo que tinha na pobreza a sua principal preocupação, gente que vivia na sua esmagadora maioria de uma agricultura sem futuro, o empresário não fraquejou. Em 1978, e depois de muitos sacrifícios, constituiu com a esposa, D. Beatriz Domingues Basto de Oliveira, e dois dos seus filhos, outra empresa: Transportes Amândio de Oliveira e Filhos, Lda.
Com relações próximas do Poder político de então e com preciosos conhecimentos na área dos transportes, lançou-se à conquista de um mercado mais vasto. Aliás, os mais velhos lembram-se ainda bem dos autocarros da empresa que, com sede em Garfe, passavam pelas estradas do nosso concelho, vindos de Braga, Fafe ou Guimarães. O mesmo acontece com muitos estudantes povoenses que se deslocavam para Braga, em autocarros que passavam na vila povoense de manhã cedo e regressavam ao anoitecer. Pode até dizer-se que muitos desses alunos talvez não tivessem desfrutado a oportunidade de estudar caso não existissem as “caminetas do Amândio”, como popularmente eram conhecidos os autocarros da empresa.
Amândio de Oliveira viria a falecer com 71 anos na freguesia de Garfe. A Póvoa de Lanhoso mostrou preito de gratidão ao atribuir o nome deste empresário de excepção a uma rua da vila, identificando-o como “pioneiro nos transportes”.

Rui Rebelo

Fontes principais: Jornal Terras de Lanhoso, Nº 234, de 04 de Julho de 2007; depoimentos de várias pessoas que conviveram com o biografado.

Padre José de Castro Torres (1899-1987) – Pároco de Taíde

Nasceu em Santa Maria de Ribeiros, concelho de Fafe, em 13 de Junho de 1899, filho de Francisco de Castro e de Camila Antunes[1].
Frequentou a escola primária da sua terra, fazendo exame de segundo grau em 1910. Em Outubro do mesmo ano, passou a frequentar o Seminário de Braga, tendo interrompido os seus estudos logo no primeiro ano devido ao encerramento desta escola. Em 1911 passou a frequentar o Liceu de Guimarães, onde, em 1916, concluiu o 5º ano liceal. Seguiu de novo para o seminário de Braga, onde estudou teologia, sendo ordenado sacerdote em Abril de 1923. Nesse mesmo mês celebrou a sua “missa nova” na paróquia natal.
Entre 1924 e 1929, foi pároco em Pedraire, Fafe, e de 1929 a 1931, paroquiou na freguesia de Armil, do mesmo concelho. Foi o principal impulsionador da construção da estrada Fafe-Armil-Jugueiros, a qual permitiu tirar a sua paróquia do isolamento ancestral em que se encontrava.
Em Agosto de 1931, foi nomeado pároco de Taíde e capelão do santuário de Nossa Senhora de Porto d’Ave, concelho da Póvoa de Lanhoso, onde permaneceu por quase meio século — desde Agosto de 1931 a Junho de 1980 — tendo resignado à paróquia e saído discretamente (despediu-se dos seus paroquianos por escrito), por se sentir cansado, passando então a viver na rua da Figueirinha, em Oeiras, junto do seu irmão Augusto.
Morreu em 21 de Novembro de 1987, tendo, por vontade expressa, vindo a enterrar no cemitério de Taíde, em campa rasa “e no meio do seu povo, que ele tanto amou”. Pelo seu próprio punho, e com o estuário do Tejo ao fundo, o padre José de Castro Torres escreveu, pouco antes de faleceu, o seu epitáfio, gravado na pedra da sua sepultura: Aqui Jaz o Rev. Padre José de Castro Torres pároco desta freguesia de Taíde e Capelão do Santuário de Nossa Senhora do Porto d’Ave durante 49 anos (1931-1980). (…). Rezai por ele”.
Entre as obras nas quais teve intervenção que o próprio mais destacava, contam-se a abertura do posto dos CTT, da estrada entre os lugares de Porto d’Ave e Quintela (década de 1950), bem como a que, atravessando terrenos legados pelo Dr. Francisco da Cruz Vieira e Brito, ligam o Santuário à estrada nacional. Destaque ainda para os esforços feitos, para a instalação naquela sua paróquia, das redes telefónica e elétrica. Lutou, ainda, pela instalação de uma escola do ensino básico em Quintela (que conseguiu), pelo abastecimento de água, pela criação de um posto da GNR e no projeto de construção de uma escola do ensino secundário — sendo esta última conseguida já após o seu auto-afastamento da freguesia. No seu plano, a escola do ensino secundário passava pela ocupação dos antigos “quarteis”, tendo, para o expor, chegado a encontrar-se com o presidente da República Américo Tomás.
Foi um assíduo colaborador do semanário “Póvoa de Lanhoso”, com a rúbrica intitulada “Ecos de Nossa Senhora do Porto”. De sua autoria, deixou um opúsculo sobre a inauguração do edifício dos correios de Porto d’Ave.

José Abílio Coelho
               


[1] Parte da informação contida neste resumo biográfico, foi-me fornecida pelo Dr. Augusto de Castro Torres, irmão do Padre José de Castro Torres, recentemente falecido.

D. António Manuel Pereira Ribeiro (1879-1957) — Bispo do Funchal


D. António, Bispo do Funchal


Nasceu na freguesia de Friande, concelho da Póvoa de Lanhoso, no dia 16 de Fevereiro de 1879, filho de Duarte Dias Pereira Ribeiro e de D. Deolinda Rosa da Silva Pereira Ribeiro, abastados proprietários. Ainda criança, mudou-se para Viana do Castelo, de onde seu pai era natural e onde a familia passou a residir na rua de S. Sebastião (atual Manuel Espregueira). O progenitor era proprietário da farmácia Aurea no rés-do-chão da residência. António Manuel era o mais velho de cinco irmãos: o segundo, Luiz Gonzaga, morreu em 9 de Abril na batalha de La Lys[1]; Joaquim, o terceiro filho do casal, era farmacêutico como o pai, e Conceição e Dores faleceram solteiras, depois de viveram toda a sua existência na casa dos pais.
Após as primeiras letras, António Manuel frequentou o antigo colégio de São Fiel e terminou o curso de Teologia, na Universidade de Coimbra, no ano de 1901. Ordenou-se presbítero no mês de Outubro desse mesmo ano.
Em 1 de fevereiro de 1904 foi nomeado professor e vice-reitor do seminário de Bragança. Foi, posteriormente, professor do Liceu de Viana do Castelo e vice-reitor do seminário de Braga. Apresentado num canonicato da Sé do Funchal, tomou posse do cargo em Junho de 1905. Nesta cidade exerceu como professor, no seminário diocesano, e foi redactor no antigo periódico madeirendo O Jornal.
Tendo falecido o bispo da Diocese, D. Manuel Agostinho Barreto, a 16 de Junho de 1914, foi o cónego António Manuel Pereira Ribeiro eleito pelo cabido vigário capitular, cargo que exerceu até à sua elevação ao episcopado.
Foi nomeado pela Santa Sé prelado desta diocese no dia 2 de Outubro de 1914, recebendo a sagração na cidade de Viana do Castelo, em 7 de Fevereiro de 1915, na Igreja de S. Domingos[2].
Regressou ao Funchal, onde chegou a 7 de Março do mesmo ano, tomando posse do lugar e entrando solenemente na Sé da cidade a 14 do referido mês e ano[3]. Foi o 28º bispo da diocese.
Privou e presidiu às cerimónias fúnebres do último imperador do império a Austro-húngaro, exilado no Funchal, em 1 de Abril de 1921[4].
O seu episcopado, de quarenta e dois anos, foi o mais logo dos quatro séculos de vida da diocese funchalense.
Foi agraciado com a Grã Cruz da Ordem de Cristo em 1940.
Viria a falecer a 22 de Março de 1957.

José Abílio Coelho
 


[1] O pai Duarte Pereira Ribeiro era natural de Viana e a mãe de Friande. D. António, filho mais velho, nasceu em Friande. O 2.º filho Luiz Gonzaga do Carmo Pereira Ribeiro (1.º adjunto do Comandante da "Brigada do Minho" morto el la Lys) nasceu em 1885 na freguesia de Monserrate em Viana: nessa altura D. António teria 6 anos e a família já estaria fixada em Viana.
[2] Cf. jornal A Aurora do Lima, outubro de 1915.
[3] Diário da Manha, nº 438, de 22 de Junho de 1932, p. 3.
[4] Rouillé, Michel Dugast, Habsbourg, Charles de, Le dernier emperer, Éditions Racine, 2003.

Francisco da Cruz Vieira e Brito (1893-1968) - Benemérito

Dr. Francisco Vieira e Brito
Francisco da Cruz Vieira e Brito nasceu às duas horas da tarde do dia sete de Setembro de 1893, no lugar de Sobradelo, da freguesia de Redufinho, concelho da Póvoa de Lanhoso. Era filho do Dr. Bernardino Ribeiro de Vieira e Brito, facultativo do Partido da câmara municipal de Amares, oriundo da mesma freguesia de Santa Maria de Rendufinho, e de sua esposa, D. Quitéria de Jesus da Cruz de Vieira e Brito, esta natural da de São Paio de Brunhais, ambas as freguesias do concelho da Póvoa de Lanhoso.
Seus pais haviam casado na igreja de Fontarcada, residindo, à época do nascimento deste primeiro filho, na freguesia de Ferreiros do concelho de Amares. O recém-nascido — neto paterno do doutor Francisco Hilário Ribeiro de Sousa e Brito e de D. Felizarda Rosa Vieira de Campos, e materno de Francisco José da Cruz e D. Emília Rosa da Silva e Sá — foi baptizado pelo reverendo José Joaquim Álvares na igreja da sua paróquia natal, aos quatro dia de Outubro do mesmo ano do nascimento. Para padrinho do pequeno Francisco foi escolhido o Senhor D. Francisco José Ribeiro de Vieira e Brito, bispo de Angra e Ilhas dos Açores o qual, não podendo estar presente, foi legalmente representado por seu bastante procurador e irmão, reverendo João Maria Ribeiro de Vieira e Brito; e para madrinha a senhora D. Conceição Cruz, no estado de solteira, proprietária, da freguesia de São Paio de Brunhais. Eram ambos tios da criança baptizada[1].
Pouco mais de um ano passado, isto é, ao sétimo dia do mês de Dezembro de mil oitocentos e noventa e quatro, nascia na mesma casa de Sobradelo de Rendufinho seu irmão único, a quem foi dado o nome de António[2], o qual foi baptizado na igreja da mesma paróquia aos oito dias do mês de Janeiro de mil oitocentos e noventa e cinco, sendo celebrante da cerimónia o Senhor D. Francisco José Ribeiro de Vieira e Brito, ainda bispo de Angra e mais tarde titular da diocese de Lamego, e padrinhos o reverendo João Mara Ribeiro de Vieira e Brito e D. Antónia Bernardina Ribeiro de Vieira e Brito, solteira, proprietaria, ambos tios paternos da criança, naturais e residentes na freguesia de Santa Maria de Rendufinho[3].
Não conseguimos descortinar, pelo menos por agora, os passos da juventude destes dois irmãos, que parecem ter sido sempre bastante unidos. Sabemos, porém, que, em 1905, era seu tutor o tio padre João Maria Ribeiro de Vieira e Brito, que por eles “e perante o notário desta comarca de Póvoa de Lanhoso, Lino António Rebelo”, assinou uma escritura, em que as crianças mutuaram a José Antonio Vieira e sua mulher, da freguesia de Friande, Póvoa de Lanhoso, “capital de quatrocentos escudos sujeito ao juro correspondente à tabela anual de cinco e meio por cento e hipoteca, que foi devidamente registada no livro treze a folhas vinte e uma verso sob o número 5.797”. No ano seguinte, em cinco de Julho, é ainda o tio padre quem por eles volta a assinar uma escritura de empréstimo de cento e sessenta escudos, dados ao juro de cinco e meio por cento a António Joaquim Fernandes, pela qual este “lhes havia feito hipoteca de vários prédios”[4].
Seriam, nessa altura, os pequenos órfãos? A pesquisa poderá levar-nos a alguma resposta, que pelo menos por agora não existe. Mas duas coisas nos levam a pensar que assim pudesse ter sido: em primeiro lugar, por terem um tutor. E em segundo, por, meninos ainda, terem já de seu dinheiro para emprestar a juros. Seria esse dinheiro herdado de seus pais?
Também ainda não conseguimos apurar, pelo menos por agora, a razão pela qual ambos os irmãos habitaram durante vários anos em Castelões, freguesia do concelho de Guimarães bastante distante da de Rendufinho. Mas sabemos que criaram ali profundas raízes, que tiveram ali propriedades, e que de tal forma a freguesia os prendeu que, pelo menos o Dr. Francisco da Cruz Vieira e Brito, veio ali a enterrar quando faleceu, em 1968.
O primeiro dos irmãos[5], Francisco da Cruz Vieira e Brito, fez os preparatórios no liceu nacional de Braga, seguindo depois para a cidade de Coimbra, onde em 1911 se matriculou e onde se formou em medicina. Deve ter concluído a licenciatura em 1919, ano em que fez a sua matrícula para doutoramento. Entre 1921 e 1926, leccionou na UC as cadeiras de Clínica e Policlínica Médica, tendo, durante os mesmos anos, desempenhado o cargo de analista do Laboratório de Análises Clínicas da Universidade. Em Outubro de 1926 despediu-se do corpo docente da Universidade, passando a leccionar como professor agregado no Liceu José Falcão, ainda em Coimbra, a partir de 1927. Ali ficou a residir alguns anos e a exercer a sua profissão de médico durante algum tempo, pois é residente nessa cidade e na qualidade de clínico que o dá uma procuração passada ao amanuense na Póvoa de Lanhoso Guilherme José Carneiro[6], para que este representasse ambos os irmãos numa escritura, procuração passada em Julho de 1925[7]
Mais tarde e por largos anos, o Dr. Francisco veio residir na Avenida Central, número 131, em Braga, tendo-se tornado professor do ensino liceal na cidade, profissão com a qual se reformou[8]. É natural que em parelelo exercesse também na cidade a medicina.
Mas voltemos um pouco atrás, a 1922, ano em que outorgaram a favor da sua rendeira Maria Joana Gomes, viuva e residente na mesma freguesia, a quem aqueles, sendo senhores de um foro anual de uma galinha, um frango, uma dúzia de ovos e um alqueire de milho alvo, que era obrigada a pagar-lhes esta, lhe vendem uma casa e horta junta, sitos no lugar da Devesa, através da entrega do domínio directo pelo pagamento de vinte vezes o foro acrescido do respectivo laudémio de quarentena, liquidado à face da tarifa camarária deste concelho, importância total de duzentos e trinta escudos e quarenta e sete centavos, que já receberam[9].
Em 1924, quando, residindo “acidentalmente” em Castelões[10], como é referido no documento notarial, os irmãos outorgaram uma permuta de imóveis, na mesma freguesia de Garfe, com José Baptista da Silva e mulher Esmeralda de Oliveira Peixoto, proprietários e moradores, tendo trocado entre eles leiras e matas[11].
Os irmãos, possuiram as vastíssimas propriedades herdadas, em comum até ao ano de 1959. A oito de Agosto desse ano, fizeram perante o notário João Machado da Silva, na Póvoa de Lanhoso a partilha desses bens, nos seguintes termos. “Divisão de bens comuns: os doutores Francisco da Cruz Vieira e Brito e António da Cruz Vieira e Brito são proprietários em comum de um conjunto de prédios descritos em letra de máquina em onze meias folhas de papel selado de cinco escudos (…); o valor global dos bens comuns é de cento e sessenta e sete mil, seiscentos e trinta e quatro escudos (…), tendo o quinhão do primeiro outorgante o valor de oitenta e três mil oitocentos e dezassete escudos sendo de igual valor e o do segundo”. Que não lhes sendo conveniente continuar na “indecisão”, decidiram dividi-los entre si, criando para a partilha dois lotes, sendo o lote A e o lote B. Ao primeiro são entregues todos os prédios constantes do lote A, com suas águas e outros pertences (…), tornando aos segundos outorgantes o valor em dinheiro de mil cento e treze escudos[12].
Refira-se, para se entender do que falamos, que os dois irmãos, Francisco e António, foram únicos e universais herdeiros do seu tio, reverendo João Mara Ribeiro de Vieira e Brito, falecido em Rendufinho, Póvoa de Lanhoso, em nove de Julho de 1954. A relação de bens herdados deste comporta 216 prédios, pelo valor matricial de 571.674$00[13]. Não podemos deixar de dizer, contudo, que o valor matricial destas propriedades é infinitamente inferior ao valor real das propriedades, pois, como veremos já de seguida, por apenas dois campos e uma sorte de mato, pagaria o Dr. Francisco, dois anos depois, quase meia centena de contos.
Certo é que Francisco da Cruz Vieira e Brito possuía, em meados da década de 1950, cerca de 200 prédios, entre urbanos ou rústicos, situados nas freguesias de Rendufinho, Garfe, Serzedelo, S. João de Rei, Oliveira e Friande[14], aos quais se juntavam outros ainda não inventariados, nomeadamente uma quinta em Porto d’Ave, freguesia de Taíde, que viria a legar à Irmandade da Senhora do Porto. Apesar do seu vastíssimo património imobiliário, o Dr. Francisco, em 1956, continuava a comprar propriedades, como aconteceu com os campos da Senra e da Leira, com água de lima e rega da poça do Verdeal, e com a sorte do mato da Volta ou do Penedo da Boca Aberta ou ainda das Trinta Carvalhas, na freguesia de Taíde, adquiridas por quarenta e cinco mil escudos a Parcídio Joaquim Fernandes Vaz, solteiro, maior, empregado comercial residente na rua do Monte Cativo, número 440, na cidade do Porto[15].
Falta-nos apurar todas as benemerências feitas em Porto d’Ave, mas é certo que para além de doações, pagou do seu bolso várias obras feitas no santuário.
O Dr. Francisco da Cruz Vieira e Brito faleceu, solteiro, na sua residência, sita à freguesia de São Victor, em Braga, em oito de Junho de 1968[16], depois de uma “melindrosa operação. Tinha 74 anos de idade e foi sepultado no cemitério de Castelões, concelho da Guimarães[17].

José Abílio Coelho


[1] Arquivo Distrital de Braga (doravante ADB), Fundos Paroquiais, Póvoa de Lanhoso, paróquia de Santa Maria de Rendufinho, livro 559, fls. 71-71v.
[2] O Dr. António da Cruz Vieira e Brito viria a casar com D. Maria Regina de Freitas Ribeiro, doméstica, natural da vila de Fafe, em Março de 1930, falecendo na freguesia das Mercês, em Lisboa, em cuja avenida Cinco de Outubro, número 12 habitou muitos anos, no dia 30 de Março de 1962. Cf. ADB, Fundos Paroquiais, Póvoa de Lanhoso, paróquia de Santa Maria de Rendufinho, livro 559, fls. 78 v.-79, nota à margem do assento de baptismo.
[3] ADB, Fundos Paroquiais, Póvoa de Lanhoso, paróquia de Santa Maria de Rendufinho, livro 559, fls. 78 v.-79.
[4] ADB, Fundos Notariais da Póvoa de Lanhoso, notário: José Luís da Silva Júnior, livro 75, fls. 44-48. As hipotecas destes empréstimos foram levantadas, ambas, no dia 9 de Julho de 1925.
[5] Seu irmão mais novo, António da Cruz Vieira e Brito, seguiria direito, tendo-se tornado advogado e notário, primeiro em Fafe, e mais tarde em Lisboa. Cf. ADB, Fundos Notariais, Póvoa de Lanhoso, notário José Luís da Silva Júnior, livro 75, fls. 44-46.
[6] Guilherme José Carneiro, solteiro, maior, amanuense de cartório, residente no lugar de calvos, freguesia de são genes, Póvoa de Lanhoso. Cf. ADB, Fundos Notariais, Póvoa de Lanhoso, notário José Luís da Silva Júnior, livro 75, fls
[7] ADB, Fundos Notariais, Póvoa de Lanhoso, notário José Luís da Silva Júnior, livro 75, fls. 44-46. Na mesma escritura seu irmão António era identificado como notário e advogado residente em Fafe.
[8] Jornal Maria da Fonte, de 15 de Junho de 1968.
[9] ADB, Fundos Notariais da Póvoa de Lanhoso, notário; José Luís da Silva Júnior, livro 973, fl. 44-45v.
[10] ADB, Fundos Notariais da Póvoa de Lanhoso, notário; José Luís da Silva Júnior, livro 973, fl. 44-45v. Escritura feita e assinada no lugar de Porto d’Ave da freguesia de Taíde, aos sete de Setembro de 1922. Realizando-se a romaria da Senhora do Porto no dia 8 de Setembro, é quase certo que ali estariam para assistir à festividade, ali se tendo deslocado a compradora e o notário.
[11] ADB, Fundos Notariais da Póvoa de Lanhoso, notário; José Luís da Silva Júnior, livro 75, fls. 44-48.
[12] ADB, Fundos Notariais da Póvoa de Lanhoso, notário: João Machado da Silva, livro 478, fls. 90-93.
[13] ADB, Fundos Notariais da Póvoa de Lanhoso, notário: João Machado da Silva, livro 478, fls. 90-93. Maço de notas a margem – ano de 1960 – s/ paginação.
[14] ADB, Fundos Notariais da Póvoa de Lanhoso, notário: João Machado da Silva, livro 478, fls. 90-93. Maço de notas a margem – ano de 1960 – s/ paginação.
[15] ADB, Fundos Notariais da Póvoa de Lanhoso, notário: João Machado da Silva, livro 443, fl. 4-8v.
[16] ADB, Fundos Paroquiais, Póvoa de Lanhoso, paróquia de Santa Maria de Rendufinho, livro 559, fls. 71-71v. Cf. nota à margem do seu registo de baptismo.
[17] Jornal Maria da Fonte, de 15 de Junho de 1968.

Manuel Dílio da Silva (1924-2011) — Benemérito

Manuel Dílio da Silva foi grande benemérito da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Póvoa de Lanhoso e da Santa Casa da Misericórdia.
Nascido no Brasil a 9 de Fevereiro de 1924, regressaria a Portugal com os pais, ainda jovem. Foi depois um grande industrial na terra onde, após do regresso do outro lado do Atlântico, viria a instalar-se: Santo Tirso.
Casou com D. Anita Guimarães Lopes, filha de Arlindo Lopes de sua esposa D. Maria Guimarães[1]. Com a esposa e os três filhos do casal, Manuel Dílio da Silva chegou a habitar temporariamente o palacete das Casas Novas, que ao casal coube por herança[2]. Pertenceu-lhes, também, o Theatro Clube. António Ferreira Lopes, fundador dos Bombeiros, instalou-os gratuitamente nos fundos daquela casa de espectáculos; legou-o a Arlindo António Lopes, com medo de que a Corporação desaparecesse, vistas as muitas crises que viveu no primeiro quartel da década de 1900. Em testamento, António Lopes deixou, como se disse, o Theatro ao sobrinho Arlindo, com a ressalva de, enquanto existissem, poderem os Bombeiros Voluntários usufruir do piso inferior, onde se encontravam instalados.
Na década de 1950, D. Anita Guimarães Lopes e Manuel Dílio da Silva, já donos do Theatro, que herdaram de Arlindo Lopes, cederam a sua ocupação integral, incluindo a sala de espectáculos, aos Bombeiros, por intervenção directa do seu grande amigo, o comerciante local Gualdino da Silva Lopes. Na década de oitenta, agora por intervenção de outro amigo, o engenheiro Albino Pinto da Silva, o casal fez aos Bombeiros a doação plena do edifício, o que permitiu àquela associação humanitária vendê-lo à Câmara quando deciciu construir o novo quartel na avenida da República. Também a Misericórdia beneficiou de várias e significativas doações do casal Dílio Silva e D. Anita Guimarães Lopes Silva.
Manuel Dílio da Silva faleceu na Póvoa de Varzim no dia 19 de Fevereiro de 2011.


José Abílio Coelho


[1] Arlindo Lopes era sobrinho do grande benemérito António Ferreira Lopes. D. Maria Guimarães Lopes, filha de Francisco Antunes de Oliveira Guimarães, que foi dono de uma casa bancária no Brasil e que, depois de regressar a Portugal, construiu em Santo Emilião a conhecida “Villa Beatriz”.
[2] Após a morte de António Lopes, o palacete por si construído pertenceu, por ter sido seu herdeiro, ao sobrinho Américo Lopes que, mais tarde, o vendeu ao irmão Arlindo. Pertenceu, depois, a Anita Guimarães Lopes e a seu marido Manuel Dílio da Silva. Na década de 1960, o palacete foi adquirido pela Santa Casa da Misericórdia que lá instalou o Lar de S. José.

sábado, 6 de agosto de 2011

Padre José António Dias (1895-1962) - Sacerdote, Presidente da Câmara, Provedor da Misericórdia, Presidente dos Bombeiros

Filho do casal de agricultores Manuel José Dias e Ana de Araújo Miranda, José António Dias nasceu na freguesia de Gavião, concelho de Vila Nova de Famalicão, no dia 12 de Setembro de 1895. Depois de concluir na sua terra a instrução primária, estudou nos Seminários de Braga, vindo a ser ordenado presbítero em 1918. Foi, depois, prefeito do Seminário Menor.
Em 1925, e depois de por cá ter passado como orador sacro, seria nomeado primeiro pároco de Nossa Senhora do Amparo (Póvoa de Lanhoso), paróquia fundada nesse mesmo ano. Enquanto responsável pela nova comunidade católica da Vila, deu início à festa da Imaculada Conceição e implementou a devoção a Nossa Senhora de Fátima, tendo tido papel primordial na transformação da até então feira de S. José numa grande festa religiosa, e até política, pois escolheu sempre o dia 19 de Março para as inaugurações das obras que, na qualidade de presidente da Câmara, conduziu na nossa terra.
Em 1929 tornou-se um dos fundadores do semanário “A Póvoa de Lanhoso”, órgão que viria a ser, nos anos seguintes, um acérrimo defensou do “Estado Novo”. Em 1930 integrou o grupo de principais promotores para a fundação da nova freguesia civil da Senhora do Amparo (Póvoa de Lanhoso).
Enquanto pároco e homem público, um dos seus papéis mais relevantes, embora pouco divulgado, foi a criação, no edifício da Casa da Botica, do Asilo de S. José que, debaixo da alçada da Conferência de S. Vicente de Paula mas, sobretudo, sob a sua própria protecção, funcionou, na assistência a idosos muito pobres, até ser integrado, nos finais da década de 1960, na Santa Casa da Misericórdia local.
Mantendo-se sempre como pároco, foi provedor da Misericórdia ao longo de quase três décadas, presidente da direcção dos Bombeiros Voluntários da Póvoa de Lanhoso e presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso (1934-1944; 1951-1962), tendo-se afirmado como a mais relevante e influente figura do Estado Novo na Póvoa de Lanhoso, pelo que é incontornável a sua acção e intervenção nos diversos domínios da vida concelhia.
A acção política do Padre José António Dias ficou marcada por duas características distintas: por um lado, foi o prócere autoritário, tantas vezes cruel para com os seus desafectos e opositores, mesmo para com alguns simpatizantes do Estado Novo; por outro, foi um homem de grande influência e acção, tendo, durante os seus mandatos como presidente da Câmara, feito obras grandiosas, de entre as quais de destacam a construção da Escola e Cantina António Lopes, e, sobretudo, o edifício dos Paços do Concelho, que ficou a constituir-se, ele próprio, como um símbolo das obras do Estado Novo. Para ambas estas obras contou com o dinheiro do legado de António Lopes mas, dada a enorme desvalorização da moeda, teve de se empenhar junto dos seus amigos correligionários de Braga e de Lisboa na captação de outras verbas indispensáveis à magnificência dos edifícios. A estrada de acesso ao monte do Pilar e a abertura de um conjunto de vias para servirem algumas freguesia do concelho, ficaram também como marcas da sua passagem pela Câmara.
Faleceu na Póvoa de Lanhoso a 27 de Junho de 1962, investido dos cargos de presidente da Câmara, provedor da Misericórdia e presidente dos Bombeiros.

José Abílio Coelho

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Alberto Lopes de Amorim (1888-1964) – Professor do ensino básico; político

Alberto Lopes de Amorim nasceu na freguesia de São Cosme do Vale, concelho de Vila Nova de Famalicão, a 22 de Abril de 1888. Era filho de Joaquim Lopes de Amorim e de dona Ana Leite, proprietários de terras.
Terminada a instrução primária na sua terra natal, fez os preparatórios em Braga, em cuja Escola do Magistério Primário ingressou e onde concluiu o curso de professor do ensino primário. Ali conheceu aquela que viria a ser sua esposa, D. Camila Rosa Moreira do Vale Rego, natural de Monsul e também professora do ensino primário oficial, com quem viria a casar em 1914[1]. O casal teve dois filhos: Maria Emília do Vale Rego Amorim e Alberto José do Vale Rego Amorim.
Foi professor oficial entre 1911 e 1947, tendo ensinado durante muitos anos na freguesia de Monsul depois de ter começado a sua carreira pela da freguesia de Geraz.
Chegou a desempenhar o cargo de delegado escolar do concelho da Póvoa de Lanhoso.
Figura ligada à União Nacional, foi presidente da Câmara Municipal da Póvoa no início da década de 1950 e dirigente da Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Lanhoso a partir do mesmo período e praticamente até à sua morte, bem como presidente da Comissão Municipal de Assistência.
Alberto Amorim faleceu em Águas Santas a 19 de Dezembro de 1964. Tinha 76 anos de idade, era viúvo, e foi sepultado na mesma freguesia freguesia. O seu funeral foi dos maiores a que o baixo concelho já assistiu, tendo incorporado mais de duzentos automóveis. A chave da urna foi conduzida pelo então presidente da Câmara de Braga comendador António Maria Santos da Cunha[2].

José Abílio Coelho



[1] CRCPL, óbitos, 1964, fl. 140
[2] “Maria da Fonte” de 27 de Dezembro de 1964.