sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Olinda Ida Serzedelo Ribeiro (1901-1926)

Olinda Ida Serzedelo Ribeiro nasceu no Rio de Janeiro a 12 de Dezembro de 1901, filha do capitalista povoense, natural da freguesia de Serzedelo, Manuel António Vieira Serzedelo, e de sua mulher D. Bebiana Ida de Castro Serzedelo, natural de Fontarcada.
Meses depois de nascer, seus pais trouxeram-na para Portugal, fixando residência, nesses primeiros meses de regresso ao país natal e de vida da pequena filha na rua do Alcaide, em Braga. Aí, na igreja de São Tiago da Cividade, foi a pequena Olinda Ida baptizada.
Em 1904, encontrando-se pronta a vivenda que Manuel Serzedelo mandou construir no lugar da Arrifana, da freguesia de Fontarcada, veio a menina com os pais habitar a nova casa. Por ali cresceu. A sua juventude foi problemática, por causa de vários problemas de saúde que a apoquentaram. Ali frequentou a escola do ensino básico, recebendo formação suplementar na própria casa paterna. Sendo filha de um “capitalista opulento”, ficou dela a memória de se dedicar a ajudar os pobres das redondezas.
Casou a 12 de Julho de 1924 com António Belarmino Teixeira Ribeiro, filho do advogado Alfredo Ribeiro. O tempo de felicidade do casal foi, porém, muito reduzido, já que a jovem Olinda Ida viria a morrer em 16 de Maio de 1926 (com apenas 24 anos de idade), ao dar à luz, em casa, o seu primeiro filho, uma menina que sobreviveu[1]. Assistida pelo Dr. Adelino Pinto Bastos, médico de grande prestígio na região, não conseguiu mesmo assim resistir a problemas de saúde que tinha, e que na hora do parto se complicaram.
O seu corpo foi inumado na sepultura número 13 do jazigo que seu pai, em 1914, mandara construir no cemitério municipal da Póvoa de Lanhoso.
José Joaquim Teixeira Ribeiro, irmão de seu marido e futuro reitor da Universidade de Coimbra, dedicou-lhe, nas páginas do semanário “Maria da Fonte”, um candente soneto (num estilo muito próprio da época) intitulado “Pétalas de Saudade”.

“O céu naquele dia estava engalanado
Com lindo arrebois, com purpuras a arder,
Que os anjos divinais queriam recolher
O pranto sem ter fim dum peito enamorado.

Chegou ao pé de Deus, já farta de sofrer,
Uma pomba gentil de olhar iluminado.
… E o diamantino sol ficou-se envergonhado
Ai ver o brilho astral da alma da mulher…

— Quem és? Tu d’onde vens?
— Eu sou a pobre mãe que deu a vida em troca do seu bem,
Do lírio estremecido, a filha imaculada…

Bailava o pranto já nos olhos de Maria…
E Deus disse por fim nos páramos do dia:
Mulher, se foste mãe, és sempre perdoada!

O sua morte, na flor da idade e durante o parto de uma menina, que sobreviveu à desgraça da mãe, causou viva consternação não só no concelho, mas na região, tendo ao seu funeral assistido centenas de pessoas e estado nele presentes individualidades de todo o norte do país.

José Abílio Coelho


[1] MF de 30 de Maio de 1926, p. 1

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Américo Simões (n. 1930) — “Farmacêutico”


Américo Lindauro Simões Lopes, figura popularmente conhecida em todo concelho como “Mequinho da Farmácia”, juntando o diminutivo do seu primeiro nome com a da actividade profissional de toda a sua vida, nasceu na Póvoa de Lanhoso, na Avenida da República, no dia 29 de dezembro de 1930.
Seu pai, José Simões Lopes, começou por ser aprendiz de tipógrafo no jornal “A Maria da Fonte”, profissão que mais tarde abandonou por ter sido admitido como funcionário do Registo Civil, era natural da freguesia de São Martinho do Campo. Sua mãe, Évila do Sacramento, era natural do concelho de Fafe, tendo casado com José Simões Lopes numa ocasião em que este estava empregado naquela cidade, como tipógrafo de um jornal da terra.
Casados e já com dois filhos nascidos, veio o casal viver na Póvoa de Lanhoso, numa casa sita na Avenida da República, primeiro, e numa casa da então Rua dos Lisboas (hoje avenida dos Bombeiros Voluntários), depois.
D. Évila era tintureira de profissão, ofício que trouxe consigo para esta terra, o qual por cá praticou por muitos anos, e no qual iniciou as suas filhas: daí que um dos apelidos dos membros femininos da família fosse exactamente o de “tintureiras”.
O casal teve vários filhos. Américo Lindauro Simões Lopes — porque é deste que pretendemos falar agora — cresceu na Póvoa de Lanhoso. Aqui deu os primeiros passos e frequentou a escola primária, aqui brincou como todas as crianças da sua idade, aqui aprendeu as primeiras lições da vida.
Aos 13 anos, porém, teve de partir para a cidade de Guimarães, onde se empregou como balconista na Farmácia Pereira, sita na (actual) Alameda, no coração daquela cidade. Naquele tempo começava-se a trabalhar muito cedo. Ali se manteve ao longo de onze anos e meio, praticando e aprendendo a profissão de "farmacêutico". Até que se despediu e, por alguns meses, passou a ganhar a vida como “viajante” de produtos farmacêuticos. O seu futuro estava, porém, na sua terra natal e, pouco mais de doze anos depois de daqui ter saído como "menino balconista", regressou como funcionário da Farmácia Matos Vieira, pertencente, então à farmacêutica Dra. Júlia Gonçalves — esposa do Dr. Severo, médico e cirurgião natural de Braga que teve consultório na vila e prestou serviço no Hospital António Lopes durante décadas. A Dr.ª Júlia era natural do lugar do Pinheiro, da freguesia de Lanhoso, filha do Sr. Constantino.
Américo Simões, que quando voltou à Póvoa tinha vinte e quatro anos de idade, chegou para assumir o cargo de ajudante técnico desta farmácia — vão lá bem mais de 50 anos! Desde então, conquistou a confiança dos clientes da casa e foi, ao longo de mais de cinco décadas, um profissional do mais elevado gabarito; um conselheiro em quem muitos doentes tinham tanta confiança como num médico. Aliás, a sua presença na farmácia tornou-se tão forte que, para além de, como atrás se diz, ter agregado ao diminutivo do seu nome a designação de “da Farmácia”, juntou a esta uma ideia com ainda maior força ainda: é que, durante décadas, grande parte dos clientes da casa conheciam a Farmácia Matos Vieira como “farmácia do Simões”. Com um feitio muito próprio, mas senhor de um coração de ouro, o Méquinho tornou-se um eficiente “farmacêutico” que toda a comunidade respeitava e procurava.
É o sócio número 1 de duas das mais importantes agremiações povoenses: os Bombeiros Voluntários e o Sport Clube Maria da Fonte. Contudo, poderá dizer-se que a instituição que serviu mais abnegadamente ao longo de décadas foi o selecto e durante muitas décadas influente “Clube Povoense”, por muitos ainda hoje conhecido por “clube dos Velhos”.
Vive hoje a sua aposentação na paz do seu apartamento sito ao Largo de Barbosa e Castro.

José Abílio Coelho

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Arminda Laura Rebelo (1916-1997) — Cozinheira

Célebre cozinheira povoense a quem todos conheciam por Minda Laura — nasceu na vila da Póvoa de Lanhoso, na parte que então pertencia à freguesia de Lanhoso, em 16 de Setembro de 1916, filha de José António Rebelo e de Laura Cândida Ribeiro de Vasconcelos. Seu pai era merceeiro, com estabelecimento próprio no Largo da Alegria, onde mais tarde foi a casa de fazendas S. José. A mãe era doméstica.
Minda Laura cresceu e brincou no coração da nossa Vila tendo, na idade própria, frequentado a Escola do Conde de Ferreira, que existia no topo da avenida da República. Foi com a sua mãe, contudo, que, ainda mocinha, veio a aprender a arte da culinária, na qual se tornaria, anos mais tarde, verdadeira mestra, admirada por todos, apreciada por centenas e centenas de bons garfos de toda a região.
Casou com Carlos Augusto da Silva — o Carlos do Silvino, que foi barbeiro na vila da Póvoa — e, logo depois, abriu uma tasquinha no mesmo largo onde o pai tinha a mercearia.
Porém, as suas mãos para a cozinha eram de tal gabarito que, em pouco tempo, a sua pequena tasquinha, ganhou fama dentro e fora das portas do concelho transformando-se numa frequentadíssima e excelente “pensão” — designação que na altura era genericamente às casas que “davam” comida e dormida.
As dezenas de pratos regionais por ela apresentados aos fregueses, eram famosos em todo o Minho, especialmente o feijão com tripas e com mão-de-vaca, a vitela assada e estufada, as papas de sarrabulho com rojões, a língua de boi estufada e o grão-de-bico com bacalhau, que traziam à Póvoa de Lanhoso bons garfos de todos os concelhos vizinhos. A sua fama como cozinheira era tal que, ainda hoje, tantos anos após o seu desaparecimento, há quem recorde com saudade os pratos que preparava.
Para além da boa cozinha, Mindinha Laura costumava apresentar excelentes vinhos verdes, de pipa — em cuja escolha contava com a colaboração do marido, o "Se" Carlos que, aos fins de se- mana, corria as adegas vários produtores do concelho, escolhendo os melhores que encontrava. A procura era tanta que em determinadas ocasiões chegava a vender uma pipa de vinho num único fim de semana.
Nas festas de São José — na verdade uma grande feira franca onde marcavam fortíssima presença os lavradores de todo o concelho e ainda dos de Fafe, Vieira do Minho, Amares ou Guimarães, que eram os homens que melhor comiam e bebiam — a pensão era uma espécie de “catedral” da gastronomia local, atendendo centenas e centenas de pessoas.
Arminda Laura Rebelo envelheceu e, cansada, passou a Casa a José Alcindo Ribeiro de Melo e esposa — que a mantiveram durante muitos anos.
Arminda Laura Rebelo viria a falecer na Póvoa de Lanhoso, no dia 24 de Junho de 1997.

José Abílio Coelho

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Padre Carlos Alberto Ribeiro () – Pároco de Monsul e primeiro director do semanário “Póvoa de Lanhoso"

Hugo Rocha faz, na página 120 e seguintes do seu “Gentio Branco”, a descrição de uma prédica do Padre Anselmo, inspirada seguramente no Padre Carlos Alberto Ribeiro. E se muito do que consta daquele romance é pura ficção, o mesmo não pode dizer-se desta prédica. Eu diria mesmo que ela está aquém da realidade. De facto, o Padre Carlos era uma pessoa muito severa, não se ensaiando para afastar violentamente do caminho quem não estivesse no devido alinhamento quando levava com ele o cálice ou servia a comunhão, ou para recusar publicamente esta a quem ele pensasse estar em pecado. E disse uma vez, do altar a baixo, que alguns paroquianos recebiam a hóstia consagrada como a sua Coimbra (égua) comia uma copa de palha…
Mesmo com as crianças, a sua severidade era por vezes excessiva ralhando ou, até, batendo, nem sempre com razão, ou, pelo menos, de forma desproporcionada à falta cometida, e, por isso, os rapazes sentiam verdadeiro pavor quando tinham de se lhe confessar. De facto, sentados em bancos corridos, aguardando a nossa vez, pedíamos a todos os santos que nos saísse na rifa o outro confessor, o abade de Geraz, porque os ralhos e as pesadas penitências do Padre Carlos nos aterrorizavam.
Em contrapartida, dava gosto ser confessado pelo abade de Geraz, o bom do Padre Alves Pinheiro, de voz roufenha, para quem nada era pecado. Contava-se que, um dia, estava a confessar um rapaz que, com cara de aflito, apertava muito a mão no peito.
Estranhando a situação, o Padre lá continuou a confissão, mas, às tantas, soltou-se um passarinho do peito do rapaz e este largou a correr, igreja abaixo, deixando espantado o pobre do Padre. É que, o malandro, tinha andado aos ninhos e levara com ele um passarinho para a igreja! Contava-se, também, que o Padre Alves Pinheiro se queixara um dia, numa prédica, em Geraz, da falta de meios com que se debatia, pelo que se via obrigado a andar só com a Grila de fora… A Grila era a jornaleira que trabalhava no passal e ele queria referir-se à carência de mão de obra…
Mas voltemos à personalidade do Padre Carlos Alberto Ribeiro. Ainda no tocante às crianças, as longuíssimas acções de graças que, de joelhos, se tinham de dar após a comunhão, no chão frio e agreste da igreja, quase que anulavam o mérito de se ter comungado… Com efeito, depois de se ter percorrido caminhos cheios de lama, à luz de bruxuleantes lampiões, para chegar à igreja, ouvir a missa e comungar, era quase desumano obrigar as crianças, em jejum, àquele sacrifico sobre-humano. Atenuava esse tremendo esforço o cheiro perfumado das açucenas e outras flores que sempre ornamentavam os altares da igreja.
Mas o caso mais gritante foi o da Birinha do Silva (Belmira Júlia) que, numa festa de Santiago e Santa Luzia, foi escolhida para rainha das virgens. O carro respectivo, ao passar em frente à sua casa, parou a fim de que ela cantasse (tinha uma voz belíssima). Ora, como no rés-do-chão da casa funcionava a loja do Silva, onde também se vendia vinho, o Padre Carlos entendeu que seria um sacrilégio que a menina cantasse ali. E, bruscamente, talvez violentamente, retirou-a do carro, impedindo-a de cantar. Alguns elementos do povo, indignados, entenderam que não era mais possível tolerar procedimentos destes e, aos gritos contra o padre, avançaram para ele. Como a igreja ficava ao lado, foi-lhe possível fugir para o templo e, com a ajuda de algumas pessoas, entre as quais o meu pai, trancou-se por dentro, esperando que a fúria popular passasse. E, depois dos insultos, que duraram até à noite, quando o povo debandou, levaram o padre para Ajude, onde ficou na sua Casa de Cima de Vila. Entretanto, o tempo correu, houve contactos de parte a parte com o arcebispo, e, um dia, o padre Carlos regressou a Monsul reconciliado com os seus paroquianos. E nunca mais, até à sua morte, abandonou a freguesia.
Referidos os defeitos há, agora, que sublinhar as virtudes deste homem controverso, cujas reacções não serão facilmente explicáveis. Em primeiro lugar, o Padre Carlos organizava as melhores festas religiosas de toda aquela região, trazendo excelentes pregadores e dirigindo um grupo coral muito reputado; era zelosíssimo nos seus deveres paroquiais; e, sobretudo, fazia um incomparável mês de Maria – o mês de Maio – que ficaria para sempre gravado na minha mente e no meu coração.
Nesse mês, dedicado a Nossa Senhora de Fátima, entoavam-se bonitos cânticos, enquanto o padre tocava órgão ou lia trechos alusivos às Aparições, aos fenómenos de 13 de Outubro de 1917 e à vida maravilhosa dos pastorinhos. A apologia de Fátima era feita por ele com enorme devoção, embora tivesse vivido todo o interminável período de treze anos (1917/1930) que a Igreja levou para aceitar o carácter sobrenatural dos acontecimentos da Cova da Iria.
Mas há mais uma grande qualidade a apontar-lhe: a sua preocupação com os pobres. Com efeito, sendo minha mãe responsável pela Conferência de S. Vicente de Paulo, nunca lhe faltou o seu apoio; e o mesmo aconteceu, quando, tendo esta ficado incapacitada, lhe sucedeu, nessa missão, minha irmã Laura, então com vinte anos de idade. E no período da guerra (Segunda Grande Guerra) moveu as suas influências pessoais junto do Poder (Padre José Dias, então Presidente da Câmara) para assegurar o indispensável aos pobres, em bens alimentares. Numa época em que não havia Segurança Social e os pobres estavam totalmente dependentes da Caridade alheia, esta foi uma acção que deverá ser enaltecida.
Guardo ainda do Padre Carlos a alegria que imprimia à festa da Páscoa, percorrendo toda a freguesia casa a casa, montado na sua égua, a famosa “Coimbra”, com a campainha a tilintar continuamente e o numeroso cortejo de acompanhantes, com as suas opas coloridas. Que saudades eu tenho desse tempo!
O Padre Carlos morreria, na residência paroquial, na sequência de uma pneumonia fulminante que contraiu numa deslocação a cavalo da Ponte do Porto para Monsul, numa noite de temporal, vindo de Braga. Terá sido, por vezes, um homem contraditório, mas foi, seguramente, um grande e sofrido servidor de Deus. Tive o gosto de encontrar recentemente a Izilda (filha da Se Maria Ferradeira), sua fiel empregada, que ainda hoje se ocupa, graciosamente, da limpeza e arranjo da igreja.
Uma palavra ainda sobre o outro pároco de Monsul do meu tempo: o Padre Acácio António da Silva. Natural de Oliveira, vinha amiúde a Monsul, ainda como seminarista, fazendo amizade com meu pai e comigo próprio. Fomos mesmo grandes amigos e acompanhei a primeira fase da sua vida sacerdotal, quer como padre de Monsul, quer como brilhante pregador. Depois, eu fui para longe e quase perdemos o contacto. Mas a amizade perdurou. E, quando, abalado da sua saúde, deixou de pastorear Monsul, recolhendo-se ao Asilo de S. José, imediatamente telefonei para lá, tendo tido a sorte de haver sido ele próprio a atender o telefone. Pouco tempo antes da sua morte repentina, pressentindo-a talvez, escreveu-me a perguntar a quem deixar o seu exemplar do “Gentio Branco”… O Padre Acácio viria a ser sepultado no cemitério de Monsul.

Jorge Eduardo da Costa Oliveira
In: Monsul de Outros Tempos, no prelo

Amândio de Oliveira (1910-1981) – Empresário


Amândio de Oliveira foi um dos pioneiros dos transportes colectivos na nossa região. Garfense dos quatro costados, cresceu pelos campos e caminhos desta povoense freguesia do vale do Ave que, poucos anos antes (em 13 de Janeiro de 1898), tinha regressado definitivamente ao concelho da Póvoa de Lanhoso, após ter integrado por duas vezes o de Guimarães.
Ainda em Garfe aprendeu as primeiras letras, embora, pelos nove anos de idade, acompanhasse já seu pai, o negociante de fazendas Eduardo de Oliveira, pelas feiras da região. O pai transportava as mercadorias que vendia num veículo tirado por cavalos, o que terá dado ao jovem Amândio não apenas a experiência do “viajante”, mas talvez a visão de um dia poder engenhar uma transportadora que levasse as pessoas dos locais onde habitavam até às feiras ou até às cidades e vilas.
Anos mais tarde, seu pai sofre um acidente e, com 16 anos, vai dar novo rumo à sua vida. É nessa altura que começa a dar forma ao sonho de transportar, não mercadorias, mas pessoas. Talvez o velho carro, puxado por cavalos, tenha sido o seu primeiro veículo de transportes. Certo é que pouco tempo depois, a 28 de Março de 1926, compra o primeiro veículo automóvel, lançando-se na aventura de uma actividade comercial que haveria de o acompanhar pela vida fora.
Não foi fácil o início da sua vida empresarial, mas a sua capacidade e amor ao trabalho, bem como o notável empreendedorismo, levaram-no a singrar e a desenvolver uma das mais consagradas transportadoras de passageiros de toda a região, intitulada Auto Rodoviária do Minho. Servindo um povo que tinha na pobreza a sua principal preocupação, gente que vivia na sua esmagadora maioria de uma agricultura sem futuro, o empresário não fraquejou. Em 1978, e depois de muitos sacrifícios, constituiu com a esposa, D. Beatriz Domingues Basto de Oliveira, e dois dos seus filhos, outra empresa: Transportes Amândio de Oliveira e Filhos, Lda.
Com relações próximas do Poder político de então e com preciosos conhecimentos na área dos transportes, lançou-se à conquista de um mercado mais vasto. Aliás, os mais velhos lembram-se ainda bem dos autocarros da empresa que, com sede em Garfe, passavam pelas estradas do nosso concelho, vindos de Braga, Fafe ou Guimarães. O mesmo acontece com muitos estudantes povoenses que se deslocavam para Braga, em autocarros que passavam na vila povoense de manhã cedo e regressavam ao anoitecer. Pode até dizer-se que muitos desses alunos talvez não tivessem desfrutado a oportunidade de estudar caso não existissem as “caminetas do Amândio”, como popularmente eram conhecidos os autocarros da empresa.
Amândio de Oliveira viria a falecer com 71 anos na freguesia de Garfe. A Póvoa de Lanhoso mostrou preito de gratidão ao atribuir o nome deste empresário de excepção a uma rua da vila, identificando-o como “pioneiro nos transportes”.

Rui Rebelo

Fontes principais: Jornal Terras de Lanhoso, Nº 234, de 04 de Julho de 2007; depoimentos de várias pessoas que conviveram com o biografado.

Padre José de Castro Torres (1899-1987) – Pároco de Taíde

Nasceu em Santa Maria de Ribeiros, concelho de Fafe, em 13 de Junho de 1899, filho de Francisco de Castro e de Camila Antunes[1].
Frequentou a escola primária da sua terra, fazendo exame de segundo grau em 1910. Em Outubro do mesmo ano, passou a frequentar o Seminário de Braga, tendo interrompido os seus estudos logo no primeiro ano devido ao encerramento desta escola. Em 1911 passou a frequentar o Liceu de Guimarães, onde, em 1916, concluiu o 5º ano liceal. Seguiu de novo para o seminário de Braga, onde estudou teologia, sendo ordenado sacerdote em Abril de 1923. Nesse mesmo mês celebrou a sua “missa nova” na paróquia natal.
Entre 1924 e 1929, foi pároco em Pedraire, Fafe, e de 1929 a 1931, paroquiou na freguesia de Armil, do mesmo concelho. Foi o principal impulsionador da construção da estrada Fafe-Armil-Jugueiros, a qual permitiu tirar a sua paróquia do isolamento ancestral em que se encontrava.
Em Agosto de 1931, foi nomeado pároco de Taíde e capelão do santuário de Nossa Senhora de Porto d’Ave, concelho da Póvoa de Lanhoso, onde permaneceu por quase meio século — desde Agosto de 1931 a Junho de 1980 — tendo resignado à paróquia e saído discretamente (despediu-se dos seus paroquianos por escrito), por se sentir cansado, passando então a viver na rua da Figueirinha, em Oeiras, junto do seu irmão Augusto.
Morreu em 21 de Novembro de 1987, tendo, por vontade expressa, vindo a enterrar no cemitério de Taíde, em campa rasa “e no meio do seu povo, que ele tanto amou”. Pelo seu próprio punho, e com o estuário do Tejo ao fundo, o padre José de Castro Torres escreveu, pouco antes de faleceu, o seu epitáfio, gravado na pedra da sua sepultura: Aqui Jaz o Rev. Padre José de Castro Torres pároco desta freguesia de Taíde e Capelão do Santuário de Nossa Senhora do Porto d’Ave durante 49 anos (1931-1980). (…). Rezai por ele”.
Entre as obras nas quais teve intervenção que o próprio mais destacava, contam-se a abertura do posto dos CTT, da estrada entre os lugares de Porto d’Ave e Quintela (década de 1950), bem como a que, atravessando terrenos legados pelo Dr. Francisco da Cruz Vieira e Brito, ligam o Santuário à estrada nacional. Destaque ainda para os esforços feitos, para a instalação naquela sua paróquia, das redes telefónica e elétrica. Lutou, ainda, pela instalação de uma escola do ensino básico em Quintela (que conseguiu), pelo abastecimento de água, pela criação de um posto da GNR e no projeto de construção de uma escola do ensino secundário — sendo esta última conseguida já após o seu auto-afastamento da freguesia. No seu plano, a escola do ensino secundário passava pela ocupação dos antigos “quarteis”, tendo, para o expor, chegado a encontrar-se com o presidente da República Américo Tomás.
Foi um assíduo colaborador do semanário “Póvoa de Lanhoso”, com a rúbrica intitulada “Ecos de Nossa Senhora do Porto”. De sua autoria, deixou um opúsculo sobre a inauguração do edifício dos correios de Porto d’Ave.

José Abílio Coelho
               


[1] Parte da informação contida neste resumo biográfico, foi-me fornecida pelo Dr. Augusto de Castro Torres, irmão do Padre José de Castro Torres, recentemente falecido.

D. António Manuel Pereira Ribeiro (1879-1957) — Bispo do Funchal


D. António, Bispo do Funchal


Nasceu na freguesia de Friande, concelho da Póvoa de Lanhoso, no dia 16 de Fevereiro de 1879, filho de Duarte Dias Pereira Ribeiro e de D. Deolinda Rosa da Silva Pereira Ribeiro, abastados proprietários. Ainda criança, mudou-se para Viana do Castelo, de onde seu pai era natural e onde a familia passou a residir na rua de S. Sebastião (atual Manuel Espregueira). O progenitor era proprietário da farmácia Aurea no rés-do-chão da residência. António Manuel era o mais velho de cinco irmãos: o segundo, Luiz Gonzaga, morreu em 9 de Abril na batalha de La Lys[1]; Joaquim, o terceiro filho do casal, era farmacêutico como o pai, e Conceição e Dores faleceram solteiras, depois de viveram toda a sua existência na casa dos pais.
Após as primeiras letras, António Manuel frequentou o antigo colégio de São Fiel e terminou o curso de Teologia, na Universidade de Coimbra, no ano de 1901. Ordenou-se presbítero no mês de Outubro desse mesmo ano.
Em 1 de fevereiro de 1904 foi nomeado professor e vice-reitor do seminário de Bragança. Foi, posteriormente, professor do Liceu de Viana do Castelo e vice-reitor do seminário de Braga. Apresentado num canonicato da Sé do Funchal, tomou posse do cargo em Junho de 1905. Nesta cidade exerceu como professor, no seminário diocesano, e foi redactor no antigo periódico madeirendo O Jornal.
Tendo falecido o bispo da Diocese, D. Manuel Agostinho Barreto, a 16 de Junho de 1914, foi o cónego António Manuel Pereira Ribeiro eleito pelo cabido vigário capitular, cargo que exerceu até à sua elevação ao episcopado.
Foi nomeado pela Santa Sé prelado desta diocese no dia 2 de Outubro de 1914, recebendo a sagração na cidade de Viana do Castelo, em 7 de Fevereiro de 1915, na Igreja de S. Domingos[2].
Regressou ao Funchal, onde chegou a 7 de Março do mesmo ano, tomando posse do lugar e entrando solenemente na Sé da cidade a 14 do referido mês e ano[3]. Foi o 28º bispo da diocese.
Privou e presidiu às cerimónias fúnebres do último imperador do império a Austro-húngaro, exilado no Funchal, em 1 de Abril de 1921[4].
O seu episcopado, de quarenta e dois anos, foi o mais logo dos quatro séculos de vida da diocese funchalense.
Foi agraciado com a Grã Cruz da Ordem de Cristo em 1940.
Viria a falecer a 22 de Março de 1957.

José Abílio Coelho
 


[1] O pai Duarte Pereira Ribeiro era natural de Viana e a mãe de Friande. D. António, filho mais velho, nasceu em Friande. O 2.º filho Luiz Gonzaga do Carmo Pereira Ribeiro (1.º adjunto do Comandante da "Brigada do Minho" morto el la Lys) nasceu em 1885 na freguesia de Monserrate em Viana: nessa altura D. António teria 6 anos e a família já estaria fixada em Viana.
[2] Cf. jornal A Aurora do Lima, outubro de 1915.
[3] Diário da Manha, nº 438, de 22 de Junho de 1932, p. 3.
[4] Rouillé, Michel Dugast, Habsbourg, Charles de, Le dernier emperer, Éditions Racine, 2003.