domingo, 12 de fevereiro de 2012

Artur de Jesus Pereira (1903-1936) — Comerciante

Nasceu em Caniçada, concelho de Vieira do Minho, a 29 de Março de 1903, filho de Carolina Pereira, daquela freguesia, e do comerciante povoense Leandro Augusto da Silva Pereira, conhecido no meio como “Augusto Tendeiro”. Este homem andava pelas feiras com uma tenda — daí a alcunha de “Tendeiro”. Nos finais do século XIX deixou o comércio itinerante e abriu um estabelecimento na vila da Póvoa, sendo considerado um dos principais impulsionadores da feira franca de São José, nascida nos finais do século XIX.
Artur de Jesus, que até aos sete anos viveu com a mãe, na sua freguesia natal, veio em 1910 residir com seu pai na Póvoa de Lanhoso. Aqui cresceu e frequentou a escola primária do Conde de Ferreira, existente na avenida da República, onde completou a instrução primária, ao mesmo tempo que fazia o seu tirocínio no comércio ao balcão da loja de seu pai.
Aqui casaria com dona Iara de Jesus Queirós em 22 de Novembro de 1924, união da qual nasceram vários filhos. Fundou então ele próprio a sua loja comercial, no edifício conhecido por "Casa da Foz", a que chamou “O Batareiro da Póvoa”, e que rapidamente transformou numa das melhor sortidas em produtos de vestuário e afins. Fotógrafo de mérito, sendo um dos primeiro da vila da Póvoa com estúdio na sua própria casa.
Foi o fundador da segunda série do semanário “A Póvoa de Lanhoso”, aparecida em 1929 (a primeira série fora fundada em 1919 por José da Paixão Bastos), do qual foi administrador e proprietário durante vários anos, entre 1932 e a sua morte ocorrida em 1936.
Foi presidente da Junta de Freguesia da Póvoa de Lanhoso (Nossa Senhora do Amparo), cargo que ocupava quando a morte o levou, em 14 de Novembro de 1936, num acidente de moto, quando, da Vila, se dirigia para Ralde (Taíde). Tinha apenas 33 anos de idade.

José Abílio Coelho

Manuel António Veloso Rebelo (1910-1963) - Ornamentador

Manuel António Veloso Rebelo nasceu em 23 de Setembro de 1910, na vila da Póvoa de Lanhoso (numa casa situada em frente ao Jardim António Lopes). Descendente de João Olímpio Sampaio Rebelo e de Carolina de Jesus Veloso Rebelo, neto de Maria Vitória Sampaio Lobo Rebelo e de Lino António Rebelo; era irmão de Maria Vitória Veloso Rebelo que faleceu apenas com 20 anos, e de Lino António Veloso Rebelo que morreu precocemente aos 15 anos de idade.
Quando completou 27 anos, casou com Isaura da Silva Freitas que viria a falecer de parto em Março de 1937. Deste casamento nasceram dois filhos: Lino António e Maria da Alegria Freitas Rebelo.
Em 1942 casou em segundas núpcias com a jovem Almerinda de Jesus Lopes de Macedo e com quem viveu até ao resto da sua vida. No seio deste casamento nasceram 5 filhos: Maria Vitória, Olímpio da Vitória (que viria a morrer ainda criança), Maria Liseta, Maria Olímpia e Rui Manuel (que tinha apenas quatro meses quando ficou órfão de pai).
Mas quem foi este Povoense que deixou um nome ainda sonoro nos dias de hoje?
Ora na sua curta mas multifacetada vida foi bombeiro, motorista e mecânico que com a ajuda de Carlos Freitas arranjava os carros e ambulâncias dos Bombeiros Voluntários. A esta Instituição dedicou muitos anos e horas diárias. Na sua vertente de desportista, ao serviço do Sport Clube do Maria da Fonte, foi guarda – redes de futebol além de meritório ciclista e corredor de atletismo, obtendo medalhas em várias provas realizadas na primeira metade da década de 30. No teatro despenhou o papel de luminotécnico, no entanto não conseguiu resistir ao mundo da arte e integrou o elenco de uma peça de teatro como actor.
Mais tarde a sua rotina dedicada às instituições da sua amada terra alterou-se com a doença do pai, pois teve que assumir as Ornamentações e Funerária Olímpio Rebelo e Herdeiros, que funcionam há 107 anos sem nunca terem encerrado as portas. Transferiu a loja de artigos eléctricos (situada no centro da vila, no edifício ocupado hoje pela entidade bancária Millennium bcp) para o andar inferior do prédio da família (onde na actualidade se instala o restaurante Velho Minho), contíguo à sua residência.  
Dos seus amigos íntimos destaca-se o então comandante dos Bombeiros, Luís Pinto da Silva, que também foi padrinho do seu segundo casamento juntamente com a sua mulher Laura da Silva Barros, assim como tutor dos filhos menores quando Manuel Rebelo faleceu. Contudo, o seu grupo de amigos era vasto, salientando-se Manuel Matos Cruz (de Travassos, casado com a D. Almerinda do Pinheiro), Carlos Freitas, André Saraiva, António Fernandes (O Nicha) João Abreu, José do Egipto, Aristides do Nascimento Rebelo, António Fernandes Pinto Miranda, António Maria Alves de Oliveira, Arlindo de Macedo, Alberto Ramos e muitos outros não citados que pertenceram aos seus laços de amizade.
Da sua faceta de bom samaritano para com o próximo, sempre solícito para ajudar os necessitados, conta-se que estendeu a mão um homem apelidado de Chicolateira, detentor de um defeito físico nas pernas, muito pobre e que vivia com parcas condições, a quem dava comida e lenha para se aquecer. Um dia o infortúnio bateu-lhe à porta, vítima de bárbara agressão, e foi Manuel Rebelo quem amparou a sua defesa em tribunal.
Também como empresário da Casa Rebelo deu trabalho a muitas mulheres de Galegos e a algumas oriundas da Portela, a que Manuel Rebelo também alimentava, num tempo de enormes dificuldades e poucas condições sociais.
Morreu ainda jovem, com 52 anos de idade, quando não conseguiu lutar mais pela vida que tanto gostava. A sua passagem pelo mundo terreno deixou uma imagem que jamais se extinguirá, de pessoa com mérito, afectiva, compreensiva e tolerante. A bondade do seu coração era infindável, como sempre disse a sua filha Liseta que cumpriu os seus desejos de se tornar uma grande mulher.
No dia 1 de Setembro de 1963, domingo, ao meio dia o sino da Igreja Matriz tocou as badaladas de despedida a um homem a quem o futuro pouco sorriu mas que deixou um passado digno de história.

Rui Rebelo
In Terras de Lanhoso de 27.02.2008

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Olinda Ida Serzedelo Ribeiro (1901-1926)

Olinda Ida Serzedelo Ribeiro nasceu no Rio de Janeiro a 12 de Dezembro de 1901, filha do capitalista povoense, natural da freguesia de Serzedelo, Manuel António Vieira Serzedelo, e de sua mulher D. Bebiana Ida de Castro Serzedelo, natural de Fontarcada.
Meses depois de nascer, seus pais trouxeram-na para Portugal, fixando residência, nesses primeiros meses de regresso ao país natal e de vida da pequena filha na rua do Alcaide, em Braga. Aí, na igreja de São Tiago da Cividade, foi a pequena Olinda Ida baptizada.
Em 1904, encontrando-se pronta a vivenda que Manuel Serzedelo mandou construir no lugar da Arrifana, da freguesia de Fontarcada, veio a menina com os pais habitar a nova casa. Por ali cresceu. A sua juventude foi problemática, por causa de vários problemas de saúde que a apoquentaram. Ali frequentou a escola do ensino básico, recebendo formação suplementar na própria casa paterna. Sendo filha de um “capitalista opulento”, ficou dela a memória de se dedicar a ajudar os pobres das redondezas.
Casou a 12 de Julho de 1924 com António Belarmino Teixeira Ribeiro, filho do advogado Alfredo Ribeiro. O tempo de felicidade do casal foi, porém, muito reduzido, já que a jovem Olinda Ida viria a morrer em 16 de Maio de 1926 (com apenas 24 anos de idade), ao dar à luz, em casa, o seu primeiro filho, uma menina que sobreviveu[1]. Assistida pelo Dr. Adelino Pinto Bastos, médico de grande prestígio na região, não conseguiu mesmo assim resistir a problemas de saúde que tinha, e que na hora do parto se complicaram.
O seu corpo foi inumado na sepultura número 13 do jazigo que seu pai, em 1914, mandara construir no cemitério municipal da Póvoa de Lanhoso.
José Joaquim Teixeira Ribeiro, irmão de seu marido e futuro reitor da Universidade de Coimbra, dedicou-lhe, nas páginas do semanário “Maria da Fonte”, um candente soneto (num estilo muito próprio da época) intitulado “Pétalas de Saudade”.

“O céu naquele dia estava engalanado
Com lindo arrebois, com purpuras a arder,
Que os anjos divinais queriam recolher
O pranto sem ter fim dum peito enamorado.

Chegou ao pé de Deus, já farta de sofrer,
Uma pomba gentil de olhar iluminado.
… E o diamantino sol ficou-se envergonhado
Ai ver o brilho astral da alma da mulher…

— Quem és? Tu d’onde vens?
— Eu sou a pobre mãe que deu a vida em troca do seu bem,
Do lírio estremecido, a filha imaculada…

Bailava o pranto já nos olhos de Maria…
E Deus disse por fim nos páramos do dia:
Mulher, se foste mãe, és sempre perdoada!

O sua morte, na flor da idade e durante o parto de uma menina, que sobreviveu à desgraça da mãe, causou viva consternação não só no concelho, mas na região, tendo ao seu funeral assistido centenas de pessoas e estado nele presentes individualidades de todo o norte do país.

José Abílio Coelho


[1] MF de 30 de Maio de 1926, p. 1

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Américo Simões (n. 1930) — “Farmacêutico”


Américo Lindauro Simões Lopes, figura popularmente conhecida em todo concelho como “Mequinho da Farmácia”, juntando o diminutivo do seu primeiro nome com a da actividade profissional de toda a sua vida, nasceu na Póvoa de Lanhoso, na Avenida da República, no dia 29 de dezembro de 1930.
Seu pai, José Simões Lopes, começou por ser aprendiz de tipógrafo no jornal “A Maria da Fonte”, profissão que mais tarde abandonou por ter sido admitido como funcionário do Registo Civil, era natural da freguesia de São Martinho do Campo. Sua mãe, Évila do Sacramento, era natural do concelho de Fafe, tendo casado com José Simões Lopes numa ocasião em que este estava empregado naquela cidade, como tipógrafo de um jornal da terra.
Casados e já com dois filhos nascidos, veio o casal viver na Póvoa de Lanhoso, numa casa sita na Avenida da República, primeiro, e numa casa da então Rua dos Lisboas (hoje avenida dos Bombeiros Voluntários), depois.
D. Évila era tintureira de profissão, ofício que trouxe consigo para esta terra, o qual por cá praticou por muitos anos, e no qual iniciou as suas filhas: daí que um dos apelidos dos membros femininos da família fosse exactamente o de “tintureiras”.
O casal teve vários filhos. Américo Lindauro Simões Lopes — porque é deste que pretendemos falar agora — cresceu na Póvoa de Lanhoso. Aqui deu os primeiros passos e frequentou a escola primária, aqui brincou como todas as crianças da sua idade, aqui aprendeu as primeiras lições da vida.
Aos 13 anos, porém, teve de partir para a cidade de Guimarães, onde se empregou como balconista na Farmácia Pereira, sita na (actual) Alameda, no coração daquela cidade. Naquele tempo começava-se a trabalhar muito cedo. Ali se manteve ao longo de onze anos e meio, praticando e aprendendo a profissão de "farmacêutico". Até que se despediu e, por alguns meses, passou a ganhar a vida como “viajante” de produtos farmacêuticos. O seu futuro estava, porém, na sua terra natal e, pouco mais de doze anos depois de daqui ter saído como "menino balconista", regressou como funcionário da Farmácia Matos Vieira, pertencente, então à farmacêutica Dra. Júlia Gonçalves — esposa do Dr. Severo, médico e cirurgião natural de Braga que teve consultório na vila e prestou serviço no Hospital António Lopes durante décadas. A Dr.ª Júlia era natural do lugar do Pinheiro, da freguesia de Lanhoso, filha do Sr. Constantino.
Américo Simões, que quando voltou à Póvoa tinha vinte e quatro anos de idade, chegou para assumir o cargo de ajudante técnico desta farmácia — vão lá bem mais de 50 anos! Desde então, conquistou a confiança dos clientes da casa e foi, ao longo de mais de cinco décadas, um profissional do mais elevado gabarito; um conselheiro em quem muitos doentes tinham tanta confiança como num médico. Aliás, a sua presença na farmácia tornou-se tão forte que, para além de, como atrás se diz, ter agregado ao diminutivo do seu nome a designação de “da Farmácia”, juntou a esta uma ideia com ainda maior força ainda: é que, durante décadas, grande parte dos clientes da casa conheciam a Farmácia Matos Vieira como “farmácia do Simões”. Com um feitio muito próprio, mas senhor de um coração de ouro, o Méquinho tornou-se um eficiente “farmacêutico” que toda a comunidade respeitava e procurava.
É o sócio número 1 de duas das mais importantes agremiações povoenses: os Bombeiros Voluntários e o Sport Clube Maria da Fonte. Contudo, poderá dizer-se que a instituição que serviu mais abnegadamente ao longo de décadas foi o selecto e durante muitas décadas influente “Clube Povoense”, por muitos ainda hoje conhecido por “clube dos Velhos”.
Vive hoje a sua aposentação na paz do seu apartamento sito ao Largo de Barbosa e Castro.

José Abílio Coelho

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Arminda Laura Rebelo (1916-1997) — Cozinheira

Célebre cozinheira povoense a quem todos conheciam por Minda Laura — nasceu na vila da Póvoa de Lanhoso, na parte que então pertencia à freguesia de Lanhoso, em 16 de Setembro de 1916, filha de José António Rebelo e de Laura Cândida Ribeiro de Vasconcelos. Seu pai era merceeiro, com estabelecimento próprio no Largo da Alegria, onde mais tarde foi a casa de fazendas S. José. A mãe era doméstica.
Minda Laura cresceu e brincou no coração da nossa Vila tendo, na idade própria, frequentado a Escola do Conde de Ferreira, que existia no topo da avenida da República. Foi com a sua mãe, contudo, que, ainda mocinha, veio a aprender a arte da culinária, na qual se tornaria, anos mais tarde, verdadeira mestra, admirada por todos, apreciada por centenas e centenas de bons garfos de toda a região.
Casou com Carlos Augusto da Silva — o Carlos do Silvino, que foi barbeiro na vila da Póvoa — e, logo depois, abriu uma tasquinha no mesmo largo onde o pai tinha a mercearia.
Porém, as suas mãos para a cozinha eram de tal gabarito que, em pouco tempo, a sua pequena tasquinha, ganhou fama dentro e fora das portas do concelho transformando-se numa frequentadíssima e excelente “pensão” — designação que na altura era genericamente às casas que “davam” comida e dormida.
As dezenas de pratos regionais por ela apresentados aos fregueses, eram famosos em todo o Minho, especialmente o feijão com tripas e com mão-de-vaca, a vitela assada e estufada, as papas de sarrabulho com rojões, a língua de boi estufada e o grão-de-bico com bacalhau, que traziam à Póvoa de Lanhoso bons garfos de todos os concelhos vizinhos. A sua fama como cozinheira era tal que, ainda hoje, tantos anos após o seu desaparecimento, há quem recorde com saudade os pratos que preparava.
Para além da boa cozinha, Mindinha Laura costumava apresentar excelentes vinhos verdes, de pipa — em cuja escolha contava com a colaboração do marido, o "Se" Carlos que, aos fins de se- mana, corria as adegas vários produtores do concelho, escolhendo os melhores que encontrava. A procura era tanta que em determinadas ocasiões chegava a vender uma pipa de vinho num único fim de semana.
Nas festas de São José — na verdade uma grande feira franca onde marcavam fortíssima presença os lavradores de todo o concelho e ainda dos de Fafe, Vieira do Minho, Amares ou Guimarães, que eram os homens que melhor comiam e bebiam — a pensão era uma espécie de “catedral” da gastronomia local, atendendo centenas e centenas de pessoas.
Arminda Laura Rebelo envelheceu e, cansada, passou a Casa a José Alcindo Ribeiro de Melo e esposa — que a mantiveram durante muitos anos.
Arminda Laura Rebelo viria a falecer na Póvoa de Lanhoso, no dia 24 de Junho de 1997.

José Abílio Coelho

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Padre Carlos Alberto Ribeiro () – Pároco de Monsul e primeiro director do semanário “Póvoa de Lanhoso"

Hugo Rocha faz, na página 120 e seguintes do seu “Gentio Branco”, a descrição de uma prédica do Padre Anselmo, inspirada seguramente no Padre Carlos Alberto Ribeiro. E se muito do que consta daquele romance é pura ficção, o mesmo não pode dizer-se desta prédica. Eu diria mesmo que ela está aquém da realidade. De facto, o Padre Carlos era uma pessoa muito severa, não se ensaiando para afastar violentamente do caminho quem não estivesse no devido alinhamento quando levava com ele o cálice ou servia a comunhão, ou para recusar publicamente esta a quem ele pensasse estar em pecado. E disse uma vez, do altar a baixo, que alguns paroquianos recebiam a hóstia consagrada como a sua Coimbra (égua) comia uma copa de palha…
Mesmo com as crianças, a sua severidade era por vezes excessiva ralhando ou, até, batendo, nem sempre com razão, ou, pelo menos, de forma desproporcionada à falta cometida, e, por isso, os rapazes sentiam verdadeiro pavor quando tinham de se lhe confessar. De facto, sentados em bancos corridos, aguardando a nossa vez, pedíamos a todos os santos que nos saísse na rifa o outro confessor, o abade de Geraz, porque os ralhos e as pesadas penitências do Padre Carlos nos aterrorizavam.
Em contrapartida, dava gosto ser confessado pelo abade de Geraz, o bom do Padre Alves Pinheiro, de voz roufenha, para quem nada era pecado. Contava-se que, um dia, estava a confessar um rapaz que, com cara de aflito, apertava muito a mão no peito.
Estranhando a situação, o Padre lá continuou a confissão, mas, às tantas, soltou-se um passarinho do peito do rapaz e este largou a correr, igreja abaixo, deixando espantado o pobre do Padre. É que, o malandro, tinha andado aos ninhos e levara com ele um passarinho para a igreja! Contava-se, também, que o Padre Alves Pinheiro se queixara um dia, numa prédica, em Geraz, da falta de meios com que se debatia, pelo que se via obrigado a andar só com a Grila de fora… A Grila era a jornaleira que trabalhava no passal e ele queria referir-se à carência de mão de obra…
Mas voltemos à personalidade do Padre Carlos Alberto Ribeiro. Ainda no tocante às crianças, as longuíssimas acções de graças que, de joelhos, se tinham de dar após a comunhão, no chão frio e agreste da igreja, quase que anulavam o mérito de se ter comungado… Com efeito, depois de se ter percorrido caminhos cheios de lama, à luz de bruxuleantes lampiões, para chegar à igreja, ouvir a missa e comungar, era quase desumano obrigar as crianças, em jejum, àquele sacrifico sobre-humano. Atenuava esse tremendo esforço o cheiro perfumado das açucenas e outras flores que sempre ornamentavam os altares da igreja.
Mas o caso mais gritante foi o da Birinha do Silva (Belmira Júlia) que, numa festa de Santiago e Santa Luzia, foi escolhida para rainha das virgens. O carro respectivo, ao passar em frente à sua casa, parou a fim de que ela cantasse (tinha uma voz belíssima). Ora, como no rés-do-chão da casa funcionava a loja do Silva, onde também se vendia vinho, o Padre Carlos entendeu que seria um sacrilégio que a menina cantasse ali. E, bruscamente, talvez violentamente, retirou-a do carro, impedindo-a de cantar. Alguns elementos do povo, indignados, entenderam que não era mais possível tolerar procedimentos destes e, aos gritos contra o padre, avançaram para ele. Como a igreja ficava ao lado, foi-lhe possível fugir para o templo e, com a ajuda de algumas pessoas, entre as quais o meu pai, trancou-se por dentro, esperando que a fúria popular passasse. E, depois dos insultos, que duraram até à noite, quando o povo debandou, levaram o padre para Ajude, onde ficou na sua Casa de Cima de Vila. Entretanto, o tempo correu, houve contactos de parte a parte com o arcebispo, e, um dia, o padre Carlos regressou a Monsul reconciliado com os seus paroquianos. E nunca mais, até à sua morte, abandonou a freguesia.
Referidos os defeitos há, agora, que sublinhar as virtudes deste homem controverso, cujas reacções não serão facilmente explicáveis. Em primeiro lugar, o Padre Carlos organizava as melhores festas religiosas de toda aquela região, trazendo excelentes pregadores e dirigindo um grupo coral muito reputado; era zelosíssimo nos seus deveres paroquiais; e, sobretudo, fazia um incomparável mês de Maria – o mês de Maio – que ficaria para sempre gravado na minha mente e no meu coração.
Nesse mês, dedicado a Nossa Senhora de Fátima, entoavam-se bonitos cânticos, enquanto o padre tocava órgão ou lia trechos alusivos às Aparições, aos fenómenos de 13 de Outubro de 1917 e à vida maravilhosa dos pastorinhos. A apologia de Fátima era feita por ele com enorme devoção, embora tivesse vivido todo o interminável período de treze anos (1917/1930) que a Igreja levou para aceitar o carácter sobrenatural dos acontecimentos da Cova da Iria.
Mas há mais uma grande qualidade a apontar-lhe: a sua preocupação com os pobres. Com efeito, sendo minha mãe responsável pela Conferência de S. Vicente de Paulo, nunca lhe faltou o seu apoio; e o mesmo aconteceu, quando, tendo esta ficado incapacitada, lhe sucedeu, nessa missão, minha irmã Laura, então com vinte anos de idade. E no período da guerra (Segunda Grande Guerra) moveu as suas influências pessoais junto do Poder (Padre José Dias, então Presidente da Câmara) para assegurar o indispensável aos pobres, em bens alimentares. Numa época em que não havia Segurança Social e os pobres estavam totalmente dependentes da Caridade alheia, esta foi uma acção que deverá ser enaltecida.
Guardo ainda do Padre Carlos a alegria que imprimia à festa da Páscoa, percorrendo toda a freguesia casa a casa, montado na sua égua, a famosa “Coimbra”, com a campainha a tilintar continuamente e o numeroso cortejo de acompanhantes, com as suas opas coloridas. Que saudades eu tenho desse tempo!
O Padre Carlos morreria, na residência paroquial, na sequência de uma pneumonia fulminante que contraiu numa deslocação a cavalo da Ponte do Porto para Monsul, numa noite de temporal, vindo de Braga. Terá sido, por vezes, um homem contraditório, mas foi, seguramente, um grande e sofrido servidor de Deus. Tive o gosto de encontrar recentemente a Izilda (filha da Se Maria Ferradeira), sua fiel empregada, que ainda hoje se ocupa, graciosamente, da limpeza e arranjo da igreja.
Uma palavra ainda sobre o outro pároco de Monsul do meu tempo: o Padre Acácio António da Silva. Natural de Oliveira, vinha amiúde a Monsul, ainda como seminarista, fazendo amizade com meu pai e comigo próprio. Fomos mesmo grandes amigos e acompanhei a primeira fase da sua vida sacerdotal, quer como padre de Monsul, quer como brilhante pregador. Depois, eu fui para longe e quase perdemos o contacto. Mas a amizade perdurou. E, quando, abalado da sua saúde, deixou de pastorear Monsul, recolhendo-se ao Asilo de S. José, imediatamente telefonei para lá, tendo tido a sorte de haver sido ele próprio a atender o telefone. Pouco tempo antes da sua morte repentina, pressentindo-a talvez, escreveu-me a perguntar a quem deixar o seu exemplar do “Gentio Branco”… O Padre Acácio viria a ser sepultado no cemitério de Monsul.

Jorge Eduardo da Costa Oliveira
In: Monsul de Outros Tempos, no prelo

Amândio de Oliveira (1910-1981) – Empresário


Amândio de Oliveira foi um dos pioneiros dos transportes colectivos na nossa região. Garfense dos quatro costados, cresceu pelos campos e caminhos desta povoense freguesia do vale do Ave que, poucos anos antes (em 13 de Janeiro de 1898), tinha regressado definitivamente ao concelho da Póvoa de Lanhoso, após ter integrado por duas vezes o de Guimarães.
Ainda em Garfe aprendeu as primeiras letras, embora, pelos nove anos de idade, acompanhasse já seu pai, o negociante de fazendas Eduardo de Oliveira, pelas feiras da região. O pai transportava as mercadorias que vendia num veículo tirado por cavalos, o que terá dado ao jovem Amândio não apenas a experiência do “viajante”, mas talvez a visão de um dia poder engenhar uma transportadora que levasse as pessoas dos locais onde habitavam até às feiras ou até às cidades e vilas.
Anos mais tarde, seu pai sofre um acidente e, com 16 anos, vai dar novo rumo à sua vida. É nessa altura que começa a dar forma ao sonho de transportar, não mercadorias, mas pessoas. Talvez o velho carro, puxado por cavalos, tenha sido o seu primeiro veículo de transportes. Certo é que pouco tempo depois, a 28 de Março de 1926, compra o primeiro veículo automóvel, lançando-se na aventura de uma actividade comercial que haveria de o acompanhar pela vida fora.
Não foi fácil o início da sua vida empresarial, mas a sua capacidade e amor ao trabalho, bem como o notável empreendedorismo, levaram-no a singrar e a desenvolver uma das mais consagradas transportadoras de passageiros de toda a região, intitulada Auto Rodoviária do Minho. Servindo um povo que tinha na pobreza a sua principal preocupação, gente que vivia na sua esmagadora maioria de uma agricultura sem futuro, o empresário não fraquejou. Em 1978, e depois de muitos sacrifícios, constituiu com a esposa, D. Beatriz Domingues Basto de Oliveira, e dois dos seus filhos, outra empresa: Transportes Amândio de Oliveira e Filhos, Lda.
Com relações próximas do Poder político de então e com preciosos conhecimentos na área dos transportes, lançou-se à conquista de um mercado mais vasto. Aliás, os mais velhos lembram-se ainda bem dos autocarros da empresa que, com sede em Garfe, passavam pelas estradas do nosso concelho, vindos de Braga, Fafe ou Guimarães. O mesmo acontece com muitos estudantes povoenses que se deslocavam para Braga, em autocarros que passavam na vila povoense de manhã cedo e regressavam ao anoitecer. Pode até dizer-se que muitos desses alunos talvez não tivessem desfrutado a oportunidade de estudar caso não existissem as “caminetas do Amândio”, como popularmente eram conhecidos os autocarros da empresa.
Amândio de Oliveira viria a falecer com 71 anos na freguesia de Garfe. A Póvoa de Lanhoso mostrou preito de gratidão ao atribuir o nome deste empresário de excepção a uma rua da vila, identificando-o como “pioneiro nos transportes”.

Rui Rebelo

Fontes principais: Jornal Terras de Lanhoso, Nº 234, de 04 de Julho de 2007; depoimentos de várias pessoas que conviveram com o biografado.