terça-feira, 15 de maio de 2012

Elísio de Vasconcelos (1907 -1965) – Professor e poeta


O estudante Elísio de Vasconcelos
Elísio de Sousa Vasconcelos é hoje um ilustre desconhecido da maioria dos povoenses. No entanto, a sua presença na freguesia de Monsul fez-se sentir durante muitos anos, ali tendo passado a sua juventude na companhia da família. Era irmão de um médico que fez história na freguesia, José Emílio de Sousa Vasconcelos, de todos conhecido como Dr. Juca, clínico conceituado e admirado jogador de futebol da equipa do Sport Club Maria da Fonte nos finais da década de 1920 e nos inícios da seguinte. Outro dos seus irmãos chamou-se Carlos de Sousa Vasconcelos. Carlos regressou ao Brasil, onde, em 1932, era estudante de medicina na Universidade de Belém do Pará[1].
Elísio de Vasconcelos nasceu eno dia 5 de novembro de 1907 no município de Cametá, estado do Pará, (Brasil), onde seus pais se encontravam emigrados[2]. Quando a crianças tinha nove anos de idade, seus pais decidiram regressar a Portugal, fixando-se em Monsul onde possuíam propriedades. Elísio frequentou o ensino básico nesta freguesia, numa casa alugada pela câmara para escola e situada muito próxima do lugar onde habitava. Ali fez a maior das suas amizades, que havia de o acompanhar por muitos anos, com António Baptista Lopes, a quem viria a dedicar um dos seus livros[3].
Concluída em Monsul a instrução primária os pais mandaram-no estudar no Colégio de Guimarães, onde era director o professor Manuel Pedrosa, residente na Casa do Ribeiro de São João de Rei[4]. Mais tarde, deslocou-se para o Porto, tendo concluído a preparação para ingressar no superior no colégio João de Deus. O seu trajecto académico viria a concluí-lo na Faculdade de Farmácia da mesma cidade, onde se licenciou como farmacêutico-químico.
Concluído o curso, voltou a Monsul onde, ainda solteiro residia em 1933[5].
Mas a vida na aldeia não o satisfazia completamente. Em 1934 voltou ao Porto, onde fixou residência e passou a exercer como químico-analista num laboratório ligado à indústria farmacêutica. Contudo, Elísio de Vasconcelos foi mais um desses homens que, tendo estudado ciências, maior apetência demonstrava para Letras.
Casou, ainda na cidade invicta, com D. Maria da Glória de Moura Direito de Vasconcelos, passando a residir, primeiro, na rua de Antero de Quental[6], mudando-se meses depois para a Rua do Bonjardim[7]. O casal não teve filhos.
Após o casamento, o Dr. Elísio de Vasconcelos deixou a sua actividade como químico para se dedicar à docência, tornando-se professor no Colégio João de Deus onde havia sido estudante. Seria, aliás, por iniciativa dos seus alunos neste colégio, que viria à luz o seu primeiro livro, intitulado “A saltar uma fogueira” (Porto, Edições Inicial, 1945), e no qual o poeta publicou um conjunto de sessenta e duas quadras “sanjoaninas”. Tendo então trinta anos, a sua veia poética não parava de jorrar. Iniciou colaboração em vários periódicos, entre os quais o semanário povoense “A Maria da Fonte”. E, ainda em 1945, veio a público o seu segundo livro, “Poliedro. Sonetos e outras poesias” (Porto, Livraria Portugália, 1945), seguindo-se-lhe “A ternura que me deste” (Porto, Livraria Figueirinhas, 1946).
A crítica acolheu muito generosamente os três pequenos volumes de poesia de Elísio de Vasconcelos, que mereceram referências elogiosas nos maiores diários nacionais, de A Tarde ao Primeiro de Janeiro, ao Comércio do Porto, a O Século ou ao Diário da Manhã. A revista O Inicial, órgão literário e artístico do Colégio João de Deus, publicou em Dezembro de 1945 uma extensa matéria sobre “A ternura que me deste” de onde extraímos um trecho: “Elísio de Vasconcelos é um poeta. Acentuamos. Repetimos. Poeta no sentido integral e quase maravilhoso do vocábulo. Eis a agradável convicção que a leitura desde livro nos dá […]. Como artista, Elísio de Vasconcelos é escravo de si mesmo. Isto é, da caudalosa fluência do sentimento lírico, que nele tudo inunda, subverte e vence. A onda da poesia transborda incessantemente do seu peito. Alastra em impulsos irreprimíveis. Vibra em estos viris. E na sua humildade adorável reflecte assim qualquer coisa de grandioso e olímpico”[8].
Há, porém, quem diga que mais cedo ou mais tarde a alma do homem procura sempre as suas raízes. Acreditamos que foi na saudade desse pedaço de chão natal, alimentada por naturais desencantos e por questões da sua própria vida íntima, que o poeta monsulense encontrou vontade de partir. E, assim, nos finais da década de 1940, Elísio de Sousa Vasconcelos decidiu deixar a docência no Colégio João de Deus para regressar ao Brasil, onde nascera.
Ali chegado instalou-se na cidade natal onde, na Universidade Estadual do Maranhão, passou a leccionar Farmácia e Língua Portuguesa, atingindo, poucos anos depois, a cátedra. Desempenhou também funções oficiais, chegando a ocupar o alto cargo de secretário do governo maranhense[9].
Inconstante como quase todos os poetas, em 1960 voltou a mudar de cidade, fixando-se desta vez no Rio de Janeiro onde foi contratado para ensinar em dois dos mais prestigiados colégios da cidade: o D. Pedro II e o Estadual Sousa Aguiar. Tornou-se redactor especial do jornal “A Voz de Portugal” e, mais tarde, de “o Mundo Português”[10].
Em finais de 1963 regressou a Portugal, numa viagem de saudade. Estanciando em Monsul, ali permanece por longos meses, aproveitando para viajar pelo norte de Portugal. Regressou à cidade maravilhosa em meados de 1963, mantendo as actividades de professor e jornalista[11].
Mas não o seria já por muito tempo: a morte surpreendeu-o aos 50 anos de idade, no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro onde se fizera internar pouco tempo antes. O seu corpo ficou inumado num dos cemitérios daquela cidade[12].
A nós, de algum modo seus contarrâneos, não nos ficou mais que os seus três livros de poesia e uns quantos textos que deixou espalhados pela imprensa: sinal de que, se as palavras se perdem no oco do tempo, as letras grafadas são imorredouras. Como esse poema a que chamou

“O Tempo

Curvada sobre si nossa alma sente
Que o passado tão pouco nos parece –
Nas horas que fugiram de repente
E a distância num sonho desvanece.

O tempo só é longo, se apetece
Um dia, no futuro, ansiosamente…
Mas quando então ridente ele amanhece,
Logo foge, partindo velozmente!...

Se nos trouxe, porém, contentamento,
É pena não parar nesse momento
Que se desfaz em nuvem de saudade.

Mas passa breve a vida, num lamento…
Efémero e incompleto pensamento…
- Um sopro em relação à eternidade!...”[13]

__________________
José Abílio Coelho




[1] Maria da Fonte de 14 de Agosto de 1932, p. 3. Elísio de Vasconcelos era sobrinho de outro proprietário de Monsul, Eugénio Pereira de Vasconcelos, falecido naquela freguesia, aos 43 anos de idade, em Agosto de 1932.
[2] Cf. blogue Falando de Trova, in http://falandodetrova.com.br/elisio [acesso em 04.01.2014].
[3] Cf. dedicatória do livro Poliedro, in Vasconcelos, Elísio, Poliedro. Sonetos e outras poesias, Porto, Livraria Portugália, 1946, página não numerada, onde se lê: “À memória do Dr. António Baptista Lopes, o melhor dos meus amigos”.
[4] Num dos seus livros, escreveu s seguinte dedicatória: “Ao snr. Manuel Pedrosa, Director do Colégio em Guimarães onde fui tantos anos aluno, como símbolo da minha gratidão e sinal da minha amisade, com um abraço do Elísio de Vasconcelos. Porto, 1945”.
[5] Arquivo Distrital de Braga (doravante ADB), Fundos Notariais, Notário Silva Júnior, livro 182, fl. 22.
[6] ADB, Fundos Notariais da Póvoa de Lanhoso, notário José Luiz da Silva Júnior, livro 350, fls. 45v-50.
[7] ADB, Fundos Notariais da Póvoa de Lanhoso, notário José Luiz da Silva Júnior, livro 245, fls. 45v-48.
[8] “Da Crítica”, in Vasconcelos, Elísio, Poliedro. Sonetos e outras poesias, Porto, Livraria Portugália, 1946, pp. 70-71.
[9] Cf. Jornal “Maria da Fonte”, nº 48 (19ª série), de 30 de Maio de 1965, p. 2.
[10] Cf. Jornal “Maria da Fonte”, nº 48 (19ª série), de 30 de Maio de 1965, p. 2.
[11] Cf. Jornal “Maria da Fonte”, de 27 de Janeiro de 1963.
[12] Cf. Jornal “Maria da Fonte”, nº 48 (19ª série), de 30 de Maio de 1965, p. 2.
[13] Vasconcelos, Elísio de, “O Tempo”, in Poliedro. Sonetos e outras poesias, Porto, Livraria Portugália, 1946, p. 36.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Evangelista de Araújo Vieira de Sá (1922-2013) - Abastecedor de combustíveis



Evangelista de Araújo Vieira de Sá




Evangelista de Araújo Vieira de Sá, nasceu na freguesia de Rendufinho, concelho da Póvoa de Lanhoso, no dia 4 de Dezembro de 1922, filho de Júlio Araújo Vieira de Sá e de Lina da Silva.

Desde de tenra idade, o senhor Evangelista foi incumbido pelos pais, que viviam da agricultura, de desempenhar as mais diversas tarefas; desde cuidar do amanho das terras e dos animais. A par destas tarefas, frequentava a escola de Rendufinho.

A certa altura, os seus pais que pretendiam ver o seu filho aprender uma arte e ter uma profissão, entenderam por bem, enviar o jovem Evangelista aprender a arte de alfaiate.

Assim, na sua adolescência, foi para o Lugar do Pinheiro aprender a nobre arte da alfaiataria com o afamado alfaiate do Pinheiro, o senhor Basílio Conde.

Todos os dias, pelo amanhecer, calcorreava o caminho de Rendufinho até ao Pinheiro, sendo pontual no seu horário de trabalho, nunca descorando as suas responsabilidades e obrigações. Deste modo, era já ao anoitecer que voltava a percorrer o mesmo caminho de regresso a casa dos pais com quem vivia, no lugar da Aldeia, freguesia de Rendufinho.

No lugar do Pinheiro, conquistou depressa a simpatia dos seus habitantes, como do seu patrão, pois a sua dedicação e empenho no labor eram exemplares.

Com o decorrer do tempo, no seu local de trabalho, conquistou também a simpatia da sobrinha do alfaiate Basílio Conde, de seu nome Lídia Amélia Machado, que se encontrava desde tenra idade à guarda de seus tios, Basílio Conde e mulher Amélia Garrido. Isto porque, tinha ficado órfã de pais. Estes, Albino Cândido Antunes Machado e Adelaide Paulina Garrido, eram fogueteiros, no lugar do Pinheiro. Viriam a falecer em virtude de uma explosão e subsequente incêndio.

Com o desenrolar do tempo, os jovens Evangelista e Lídia resolveram dar o nó matrimonial, no longínquo ano de 1953, no dia 25 de Abril. Dessa união nasceram duas filhas: Amélia da Conceição Machado de Sá Amaro e Olindina Celeste Machado de Sá.

As suas duas filhas foram crescendo sempre com base numa educação esmerada. Assim, na perspectiva de lhes proporcionar um futuro melhor, a nível académico, resolveu procurar um emprego que lhe garantisse uma maior estabilidade económica, surgindo a possibilidade de trabalhar na bomba de combustíveis do Pinheiro, que figurava então com o nome da “Sacor”, onde hoje se encontra situada a “Recauchutagem Ramôa”.  

Desta forma, ingressou na Bomba de Combustíveis no ano 1968, trabalhando aí até à sua aposentação no ano 1988.

E num tempo em que as Bombas de Combustíveis eram escassas, e em que o Pinheiro era um ponto de encontro de gentes que vinham das mais diversas localidades; era a Bomba de Combustíveis do Pinheiro um local de muita afluência e um ponto de paragem obrigatório para os utilizadores da estrada Braga-Chaves.

O senhor Evangelista, enquanto funcionário da Bomba de Combustíveis do Pinheiro, sempre se pautou pela simpatia, disponibilidade, responsabilidade e dedicação perante as funções que desempenhava. Tornou-se uma das figuras mais carismáticas do Pinheiro, conhecido além-fronteiras do território do concelho da Póvoa de Lanhoso, sendo ainda hoje o seu nome recordado em muitas localidades da região Minhota e Trasmontana, nomeadamente em terras de Barroso.

A par da sua simpatia, tinha sempre para com os clientes uma palavra de atenção e uma história para contar. Era um nato contador de histórias.

Por diversas vezes, pela madrugada dentro, havia um ou outro automobilista que ficava sem combustível e lá iam bater à porta do seu lar familiar para os socorrer, quando o senhor Evangelista já dormia. Nunca recusou tal solicitação, levantando-se do  leito para ir servir os fregueses que assim o pediam.

Além disso, facilitava os clientes nos pagamentos, pois não existiam ainda as máquinas de multibanco, nem os respectivos cartões de crédito e débito. Acontecia que, por diversas vezes, alguns dos clientes não vinham prevenidos de dinheiro suficiente para o pagamento do preço do combustível; deixando-os seguir viagem e pagavam quando novamente passassem pelo Pinheiro. 

Com todo este empenho e dedicação ao seu trabalho, traz-nos à memória a velha personagem de Manuel Quintino, homem de um grande estatuto moral, muito organizado, responsável e dedicado ao seu trabalho, que encontramos no Romance “Uma família Inglesa”, de Júlio Dinis.

Também no Pinheiro, foi um dedicado conservador da capela do Senhor do Socorro; além de um grande impulsionador do aumento da capela que ocorreu nos finais da década de 1960. 

Aquando da última beneficiação da estrada Pinheiro/Braga (Serra do Carvalho, no início da década de 1990), a sua casa foi demolida pela Junta Autónoma das Estradas. Como tal, foi decisão do senhor Evangelista e de sua mulher Lídia, não continuar a viver no lugar do Pinheiro, tendo optado pela cidade de Braga, onde já as suas filhas moravam.

Deixaram para trás muitos amigos e muitas memórias, já que “o seu cantinho” deixou de existir. E a partir daí, nunca mais quis regressar ao Pinheiro.

Faleceu em 28 de Fevereiro de 2013, sendo sepultado em jazigo de família, no cemitério Municipal da Póvoa de Lanhoso.

Nestas parcas palavras que tecemos de Evangelista de Araújo Vieira de Sá, concluímos com a observação de Vasco da Gama ao Rei de Melinde: “por mais que diga, mais me há-se ficar inda por dizer” (Os Lusíadas, III, 5).



Sérgio Machado

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Marcelina Rosa Lopes (-f.1932) - Benfeitora


Senhora da Casa das Quintães, na freguesia de Oliveira, D. Marcelina Rosa Lopes foi uma grande benfeitora não apenas da sua aldeia natal, mas também de muitos pobres das terras circunvi- zinhas que protegia e apoiava. Todos os anos, pelo natal, mandava distribuir significativas so- mas em dinheiro pelos presos das cadeias da Póvoa[1].
A expensas próprias mandou abrir, em 1915, a estrada de acesso à sua freguesia natal, a partir da estrada nacional Póvoa-Cabeceiras. Com uma extensão de vários quilómetros, esta via levava, numa primeira fase, até junto da sua casa das Quintães, favorecendo-a nas muitas viagens que fazia entre Braga, onde residia durante grande parte do ano, a sua casa[2]. Mas, favorecendo-se nas suas viagens, favoreceu da mesma forma todos os habitantes de Oliveira, que passaram a ter um acesso condigno ao coração da aldeia.
Anos mais tarde, dividiu com um seu irmão as despesas da abertura da estrada de Passos.
Faleceu em Janeiro de 1933. O seu funeral, realizado em Oliveira, foi um dos mais concorridos a que aquela freguesia já assistiu, tendo estado presentes autoridades  e personalidades do concelho e da região: dr. Manuel Alexandre Pereira, Capitão Aristides Coimbra, dr. Adriano Martins, Álvaro Ferreira Guimarães e Arlindo Lopes, Cirilo Ferreira da Cruz, Gualdino Lopes, Manuel Inácio de Matos Vieira, Antenor de Almeida, Fortunato Antunes e Armando Queirós, Manuel A. da Cruz e Silva, Manuel Vaz da Silva, Clemente José Vieira, Lino Barbosa Pereira, Aureliano Dias de Oliveira e Cândido Barbosa, Américo Rodrigues, Adelino António Ribeiro, Francisco de Sousa, Jacinto Rebelo, João Fernandes, Cândido Miranda, Joaquim Gonçalves de Macedo, Manuel Soares, Joaquim R. da Silva, Eduardo Albino Lopes, Adelino de Araújo e Manuel Coelho de Oliveira, sendo a chave da urna, como era comum à época, conduzida por pessoa da mais elevada condição social do concelho: o notário público dr. José Luiz da Silva Júnior[3].
Não tendo filhos, à hora da morte favoreceu sobretudo os seus sobrinhos: os doutores José Vieira Lopes, António Vieira Lopes e Fernando Ribeiro. Era tia, também, do Dr. Abílio Campos, advogado casado com uma sobrinha, o qual foi vice-presidente da câmara municipal da Póvoa de Lanhoso em 1930-1931.

José Abílio Coelho



[1] Jornal “Maria da Fonte” de 26 de Dezembro de 1915.
[2] A estrada foi construida pelo empreiteiro José de Azevedo Campos, de Vila Nova de Famalicão, como ainda se lê em dois marcos afixados à margem do acesso, à entrada na freguesia.
[3] Jornal “Maria da Fonte” de 22 de Janeiro de 1933.

terça-feira, 10 de abril de 2012

João Bastos (1880-1963) – Proprietário, músico, primeiro director do Hospital António Lopes


Os jovens Maria Elvira e João Bastos
João Albino de Carvalho Bastos nasceu na vila da Póvoa, freguesia de Fontarcada (Póvoa de Lanhoso), no dia 19 de Setembro de 1880, filho do negociante João António de Carvalho Bastos e de sua mulher D. Rosa Joaquina Pereira. Era neto paterno de Francisco José de Carvalho e de Eugénia Maria, da freguesia de Vilela, e materno de Albino José Pereira Guimarães e de Teresa Joaquina da Costa, residentes em Fontarcada.
Cresceu no coração da sua pequena vila natal em companhia de outros quatro irmãos, dois rapazes (Albino Osório* e José da Paixão*, poetas ambos, jornalistas e escritores), e de duas meninas (Genoveva e Amélia da Natividade)[1]. Sobre esta fase da sua vida, viria a escrever seu filho, o poeta João Augusto Bastos*: “Nado e criado nesta formosa vila minhota, cedo começou a enfeitiçar-se do seu encantamento, do lirismo dos seus campos e montes, da majestade do seu vetusto Castelo, da magia das suas lendas, que nos falam das virtudes das águas do Fornos e dos sinos do Pilar, que prendem e encantam todos os que bebem a cristalina linfa e escutam, embebecidos, a sinfonia quérula ou festiva do repicar dos bronzes, que gemem ou cantam, no campanário, lá em riba, no colosso granítico”[2].
Foi nesta terra onde o granito impera, que, na escola mandada construir com o legado do Conde de Ferreira, completou a instrução primária.
Estudou posteriormente no Liceu de Braga, de onde regressou sem ter concluído os estudos preparatórios. José Bento da Silva considerou-o, contudo, “um homem de cultura” e um “virtuoso da música”, que se distinguiu como director de orquestra e como homem de teatro[3]. São da sua autoria algumas composições musicais, que escreveu para orquestras da Póvoa de Lanhoso, nomeadamente hinos de algumas instituições que, em geral, eram interpretados em cerimónias públicas ou nas famosas tardes de variedades do Teatro Club.
Mas João Albino de Carvalho Bastos não se distinguiu apenas como homem de cultura. Foi comerciante, director-administrador do Hospital António Lopes enquanto o fundador foi vivo, vereador da câmara municipal por várias vezes. Foi um dos mais importantes sócios do Clube Povoense e dirigente do Sport Clube Maria da Fonte. Filho, genro e sobrinho de alguns dos grandes proprietários da terra dos inícios do século XX, herdou vasta fortuna. Sua esposa, D. Maria Elvira Lopes Bastos*, era filha de um “brasileiro” de grandes recursos, Emílio António Lopes, e sobrinha do grande benemérito povoense António Ferreira Lopes*. Por esse casamento, João Bastos guindou-se aos lugares cimeiros das elites locais, transformando-se, após a morte do sogro e do tio, num dos grandes proprietários do concelho. Desde essa ocasião, passou a viver exclusivamente dos rendimentos dos seus bens móveis e imóveis. Com parte do dinheiro herdado do “tio Lopes”, construiu a Casa das Bouças, na avenida da República, rodeada de um belíssimo pomar. Aí viveu até à morte.
Politicamente foi um “republicano conservador e moderado”, tendo militado no Partido Evolucionista, liderado por António José de Almeida, de quem se tornou “amigo e admirador”[4]. Foi, inclusive, correspondente do jornal República, do qual António José de Almeida foi a alma maior, bem como de O Comércio do Porto, e colaborador esporádico do semanário local Maria da Fonte. Apesar de ter sido vereador da câmara já no tempo do Estado Novo, manteve sempre uma “distância saudável” com a maioria dos simpatizantes do regime, com quem manteve acesas discussões nos jornais da terra.
Em 1928, foi um dos fundadores da Misericórdia local, quando os familiares e testamenteiros de António Lopes quiseram dar continuidade ao Hospital que o “brasileiro” das Casas Novas tinha fundado na Póvoa de Lanhoso, em 1917. João Bastos acompanhou as obras, como representante do tio (que tinha residência permanente em Lisboa), entre 1912 e 1917. Após a inauguração do mais importante melhoramento que esta terra conheceu, foi o director apaixonado pela obra, paga pelo tio e por si conduzida com dedicação e saber, até que interesses mais elevados se ergueram e João Bastos foi afastado da gestão do hospital e da mesa da Irmandade. Não obstante, o seu trabalho perdura e a história há-de encarregar-se de nos dizer que, exceptuando o fundador, ninguém, ao longo das décadas, fez tanto por aquela “casa de caridade” - como o próprio lhe chamava - como João Bastos. E, contudo, na terra poucos são os que recordam sequer o seu nome.
Morreu na sua casa das Bouças, na Póvoa de Lanhoso, em 20 de Junho de 1965, quando contava 82 anos de idade[5].

José Abílio Coelho



[1] Coelho, José Abílio, Paixão Bastos (1870-1947): vida e obra de um escritor de província, Póvoa de Lanhoso, jornal “Terras de Lanhoso”, 2007, pp. 18-21.
[2] Jornal Maria de Fonte, nº 54 (18ª série, ano 74), de 14 de Julho de 1963, p. 1.
[3] Silva, José Bento da, Em Cena. Teatro-Club (1904-2004), Póvoa de Lanhoso, ed. Autor, 2005, p.164.
[4] Jornal Maria de Fonte, nº 54 (18ª série, ano 74), de 14 de Julho de 1963, p. 1
[5] Jornal Maria da Fonte, nº 51 (18ª série, ano 74), de 23 de Junho de 1963, p. 3.