sexta-feira, 2 de novembro de 2012

João Augusto Fernandes Bastos (1930-) - Militar

O então capitão João Augusto Fernandes Bastos
João Augusto Fernandes Bastos nasceu na Vila da Póvoa de Lanhoso em 13 de Novembro de 1930, filho de João Augusto Lopes Bastos e de D. Adelina Cândida Fernandes Bastos. Muito jovem, partiu com os pais e a irmã, Anita Adelina Fernandes Bastos Granja para Lisboa, onde seu pai passou a desempenhar funções numa casa comercial que pertencia à família.
Em 3 de Novembro de 1950 ingressou na Escola do Exército (actual Academia Militar), onde completou o curso geral preparatório, a que se seguiram dois anos a frequentar o Curso de Artilharia. Em 1953 ingressou na Escola Prática de Artilharia (Vendas Novas), no posto de aspirante a oficial. A partir de 1954, e até 1961, foi colocado nos Regimentos de Artilharia Ligeira N.º2 (em Coimbra) e Artilharia Ligeira N.º 1 (em Lisboa), tendo, entretanto sido promovido, sucessivamente, aos postos de alferes, tenente e capitão. De 1961 a 1963 cumpriu a sua primeira comissão de serviço em Angola, como comandante da Companhia de Artilharia N.º 119 e, em 1964, desempenhou funções no Secretariado Geral de Defesa Nacional, em Lisboa. De 1965 a 1967 foi chamado à sua segunda comissão de serviço, novamente em Angola, como comandante da Companhia de Artilharia N.º 751, tendo, entretanto, sido promovido a Major. Em 1968 voltou a desempenhar funções no Estado-maior do Exército, em Lisboa, e, entre 1969 a 1971, esteve de novo em Angola na sua terceira comissão de serviço. De regresso a Lisboa, em 1972, voltou a desempenhar funções de Estado-Maior. Em 1973 partiu para a sua quarta e última comissão de serviço, desta vez na Guiné, já com o posto de tenente-coronel, no desempenho das funções de Chefe de Estado-Maior do Comando Operacional N.º 1, onde fica até 1974. Com o “25 de Abril” regressa a Lisboa e, ainda em 1974, foi colocado no Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, no Porto, onde ascendeu ao posto de coronel.
Seguiram-se uma colocação na Zona Militar da Madeira, nas funções de Chefe do Estado-Maior, durante cerca de três anos, sendo posteriormente colocado na direcção do serviço de educação física do Exército, desempenhando as funções de inspector, e onde passou à situação de Reserva.
Casou com D. Judite Ivone Pereira Vela Bastos, em 10 de Março de 1957. O casal teve dois filhos: João Ernesto Vela Bastos, nascido em 7 de Março de 1958, engenheiro do Serviço de Material do Exército, tendo ascendido ao posto de Major-General, e professor na Universidade Autónoma de Lisboa; e Ivone Helena de Vela Bastos, nascida em 16 de Fevereiro de 1960, professora do ensino secundário.
Condecorações:
Medalha de Mérito Militar de 2ª Classe
Medalha de Mérito Militar de 1ª Classe
Medalha de Prata de Comportamento Exemplar
Medalha de Ouro de Comportamento Exemplar
3 Medalhas Comemorativas das Campanhas no Norte de Angola
1 Medalha Comemorativa das Campanhas na Guiné
Ordem Militar de Avis - grau Cavaleiro
Ordem Militar de Avis – grau Comendador

JAC

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Padre Francisco Alves Pinheiro (1885-1964) - Sacerdote Católico



Reza a lenda que, quando ocorreu a segunda invasão Francesa em Portugal no ano de 1809, na passagem do exército francês pelas Terras de Lanhoso, nos dias 17 e 18 de Março, o marechal francês Nicolau Soult, contemplado do alto de Pena Província, a magnífica e esplendorosa paisagem do fértil vale de Geraz do Minho e Ferreiros, proferiu as seguintes palavras: “deu Deus estas maravilhas a estes povos bárbaros”.
Foi neste ameno e fértil vale que se destacou a figura do Reverendo Padre Francisco Alves Pinheiro, servindo as gerações vindouras desse povo bárbaro, como ficou apelidado pelo insigne marechal francês. 
Este sacerdote gozou da simpatia e estima desse bom povo, pois era um homem simples e solidário. Demonstrativo desse carinho é o facto de ainda hoje ser visível, numa das artérias da antiquíssima freguesia de Geraz do Minho, o nome do Reverendo Padre Francisco Alves Pinheiro.
Esta típica aldeia minhota de Geraz do Minho é de origem muito antiga, tal como expõe o distinto arqueólogo, linguista, filólogo e etimologista, Cónego Arlindo Ribeiro da Cunha, referindo-se que foi na antiguidade uma grande quinta de exploração agrícola, denominada “villa” pelos Romanos, que corresponde hoje ao território actual das freguesias de Geraz do Minho e Ferreiros; organizada por um rico proprietário, inteligente e empreendedor senhor romano de seu nome Quiriacus. Assim, do latim Quiriacus, de que Quiriaci é genitivo de posse, foi evoluindo com os tempos e de acordo com as leis fonológicas, até resultar o moderno topónimo Geraz[1].
O Reverendo Padre Francisco Alves Pinheiro, nasceu na freguesia de Garfe[2], concelho da Póvoa de Lanhoso, no dia 23 de Fevereiro de 1885, filho de António Joaquim Alves Pinheiro e Bebiana Rosa de Matos; recebeu o Sacramento do Baptismo, no dia 01 de Março de 1885, sendo seus padrinhos de baptismo o Reverendo Padre Francisco José Gonçalves Peixoto Veloso e Castro e Balbina Rosa de Matos[3].
Frequentou os Seminários da Arquidiocese de Braga. Após o seu percurso formativo, recebeu o Sacramento da Ordem no ano de 1907, pelo então Arcebispo de Braga, Dom Manuel Baptista da Cunha.
Assim, no dia 29 de Setembro de 1907, na sua freguesia natal de Garfe viria a celebrar a sua missa nova.
Nesse mesmo ano de 1907, foi nomeado pároco das comunidades paroquiais de Santa Eufémia de Prazins e São Martinho de Sande, no concelho de Guimarães, permanecendo aí durante nove anos. Depois foi paroquiar a freguesia de Oliveira, no concelho da Póvoa de Lanhoso, onde foi seu pastor durante nove anos.
E por fim, paroquiou durante 35 anos (até a sua morte) a freguesia de Geraz do Minho e 30 anos a freguesia de Ferreiros, ambas as freguesias do concelho da Póvoa de Lanhoso.
A par da sua actividade pastoral e de dedicação à Igreja, foi também Presidente da Junta de Freguesia de Geraz do Minho, entre os anos de 1938 a 1958.
Era um apaixonado pela escrita sendo colaborador de alguma impressa local, como um dedicado colaborador e correspondente do já extinto jornal “Póvoa de Lanhoso”[4], do jornal “Diário do Minho” e da revista “Acção Católica”.
Além disso, foi autor dos livros “A Minha Missa” publicado em 1945, com 303 páginas; e do livro “Madeira e Açores: memórias e impressões de viagens”, publicado em 1950, com 146 páginas.
Após prolongada doença viria a falecer no dia 26 de Julho de 1964, na sua casa em Geraz do Minho, com 79 anos de idade.[5]
      
Sérgio Machado


[1] Cfr. Arlindo Ribeiro da Cunha, “Ensaios de Toponímia – Geraz (do Minho) ”, Acção Católica, n.º 8, 9 e 10, 1946, pp. 465 a 472; 535 a 542.
[2] Para uma visão histórica da freguesia de Garfe, Vide José Abílio Coelho e Carlos Filipe Fernandes, São Cosme e São Damiâo de Grafe – Apontamentos para a sua História, Edição da Junta de Freguesia de Garfe, Póvoa de Lanhoso, 1995; José Abílio Coelho, Residência Paroquial de Grafe – Notas para a sua História, Edição Centro Social e Paroquial de Garfe, Póvoa de Lanhoso, 1997; e, Padre Luís Manuel Peixoto Fernandes, Capelas de Garfe – As Antigas e as Modernas, Edição do autor, Póvoa de Lanhoso, 2011.    
[3] Cfr. Arquivo Distrital de Braga, Fundos Paroquiais da Póvoa de Lanhoso, paróquia de São Cosme e São Damião de Grafe, Assento de Baptismo n.º 4, do ano de 1885, livro n.º 477, 1885-1900, fl. 2.
[4] Cfr. Padre Manuel Magalhães dos Santos, Monografia da Póvoa de Lanhoso – Nossa Senhora do Amparo – Jubileus 1990, Edição do autor, Braga, 1993, p. 729.
[5] Aquando o falecimento do Padre Francisco Alves Pinheiro, a imprensa local referiu-se à morte deste sacerdote, no qual tivemos em conta na elaboração deste texto que apresentamos; assim, deixamos nota desses jornais: “Póvoa de Lanhoso” de 01 Agosto de 1964; “Maria da Fonte” de 02 de Agosto de 1964; como a sentida homenagem escrita pela pena do saudoso investigador Cónego Arlindo Ribeiro da Cunha, no jornal “Diário do Minho” de 01 de Setembro de 1964.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Doutor Manuel Joaquim Ferreira (1890 -1963) – Médico e professor catedrático



Prof. Doutor Manuel Ferreira
Manuel Joaquim Ferreira nasceu em São Martinho do Campo, concelho da Póvoa de Lanhoso, em 18 de Março de 1890. Era filho legítimo de Domingos José Ferreira e de D. Maria da Luz Novais, pequenos proprietários no lugar do Assento, ambos naturais da mesma freguesia; neto paterno de Lourenço José Ferreira e D. Joana (?) Fernandes e materno de João Bernardo de Macedo e D. Custódia Maria Novais [1].
Concluída na escola da sua freguesia natal a instrução primária, frequentou seguidamente os liceus de Braga e de Guimarães, onde seguiu até ao 7º ano de Letras. Presumindo-se vocacionado para a vida religiosa, inscreveu-se no Seminário Conciliar de Braga onde concluiu Teologia. Mas a sua verdadeira vocação havia de o levar a repetir o 7º ano, desta vez na área de ciências, seguindo em 1917 para a Faculdade de Medicina do Porto onde, no meio de uma geração que contava excepcionais valores, ele logo conseguiu distinguir-se entre todos eles [2] . E assim no meio das classificações distintas dos seus condiscípulos, o nome de Manuel Ferreira, o estudante da Póvoa de Lanhoso, aparecia com frequência nas pautas com a elevada nota de 20 valores. Ganhou nessa altura, entre os estudantes do seu tempo, a alcunha significativa de “Manuelzinho dos Vintes”.
As suas superiores capacidades levaram a que, ainda estudante, fosse contratado em Janeiro de 1922 para o lugar de 1º assistente da 3ª secção (Botânica). Concluída a licenciatura em Medicina, em Março de 1923, foi nomeado assistente da Faculdade de Medicina. Doutorou-se em Março de 1928 com uma tese intitulada “A Pelagra”.
Em Maio de 1931 e precedendo concurso foi nomeado professor auxiliar da Faculdade de Ciências do 2º Grupo (Botânica). Em 1938 foi contratado professor catedrático de Botânica, passando a efectivo em 1942, com propriedade da cadeira de Botânia sistemática. Em 1956 deixou a titularidade dessa cadeira para tomar a de Biologia. Foi ainda professor da cadeira de Criptogamia e Fermentações da Faculdade de Farmácia.
Exerceu como secretário de bibliotecário da Faculdade de Ciências, foi director do Instituto de Zoologia Marítima “Dr. Augusto Nobre” e do Instituto de Botânica “Dr. Gonçalo Sampaio”, vogal da Comissão Permanente de Farmacopeia Portuguesa e director do Centro de Estudos de Ciências Naturais do Instituto de Alta Cultura.
Como homem de ciência, deixou publicados numerosos trabalhos, sendo de sua autoria a fórmula de um antibiótico que denominou “Lusomicina”.
Quando chegou a hora de se aposentar, recusou que colegas, amigos e discípulos comemorassem o seu jubileu.
Em 1931 casou com D. Rita Martins de Macedo, de 36 anos, residente na freguesia de São Sebastião, concelho de Guimarães. O casal não teve filhos.
Faleceu no Porto, na sua residência da Rua do Amial, no dia 22 de Fevereiro de 1963. Contava 72 anos de idade. Fora casado com D. Rita Carolina Gomes Ferreira; era irmão das senhoras D. Adelina Novais Ferreira e Inês Novais Ferreira, esta casada com o Dr. Manuel de Sousa Castilho.
A notícia da sua morte, publicada no jornal O Primeira de Janeiro, dizia que “com a morte do Prof. Dr. Manuel Ferreira desaparece, não apenas o mestre eminente e o médico abalizado que deixa uma obra inteligente e fecunda, mas o homem bom que sabia prender pelo culto da amizade e cujo coração, dum verdadeiro justo, se dava inteiramente”[3].
O seu nome consta da toponímia da Póvoa de Lanhoso.

José Abílio Coelho





[1] ADB, Livro de assentos de Baptismo da Freguesia de São Martinho de Campo, 1882-1902, fl. 24.
[2] A família não era rica. Atesta-o o pedido que o próprio apresentou à Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, em Outubro de 1919, solicitando que lhe fosse passado “atestado de optimo comportamento moral e civil ao requerente Manuel Joaquim Ferreira, e de tanto ele como os paes são carentes de meios e não possuem recursos com que possam suprir as despesas do tirocinio escolar do mesmo requerente”. Cf. Arquivo Municipal da Póvoa de Lanhoso, Livro de actas da camara (nº 20 - 20 de Junho de 1918 a 17 de Dezembro de 1920), acta de 5 de Outubro de 1919, fl. 56v.
[2] Cf. “O Primeiro de Janeiro” de 23 de Fevereiro de 1963.

sábado, 2 de junho de 2012

António Sousa Fernandes (n. 1936) – Sacerdote, professor universitário e autarca


Padre Doutor Sousa Fernandes
António Manuel de Sousa Fernandes nasceu na freguesia de Brunhais, Póvoa de Lanhoso, em 1936.
Depois de, pelos 10 anos de idade, ter concluído na escola da sua freguesia natal a instrução primária, seguiu para Braga onde, na escola Carlos Amarante, fez o curso elementar de comércio. No Sá de Miranda concluiu o percurso liceal. Em 1961 terminou o curso de Teologia no Seminário Conciliar de Braga, tendo-se ordenado sacerdote. Seguiu depois para Lisboa, onde se licenciou em Direito, tendo feito cursos de pós-graduação em França e nos Estados Unidos da América. A sua formação abrange ainda o campo da música, tendo frequentado o curso geral de órgão do Centro de Estudos Gregorianos, em Lisboa, e os de violino e canto na Escola Calouste Gulbenkian, em Braga.
Entre 1967 e 1970 desempenhou funções no Tribunal Eclesiástico de Braga. Entre 1969 e 1975, foi advogado e lecionou no ensino particular. Em 1975, entra na Universidade do Minho como assistente na Unidade de Ciências da Educação, departamento onde chegou a professor associado. Foi presidente do Instituto de Estudos da Criança. A sua tese de doutoramento, defendida em 1992, intitulou-se “A centralização burocrática do ensino secundário”.
Foi um dos fundadores do Partido Socialista de Braga. Enquanto autarca, presidiu durante vários mandatos à Assembleia Municipal de Braga tendo, ainda, sido presidente da Câmara da mesma cidade entre Junho e Novembro de 1993.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Elísio de Vasconcelos (1907 -1965) – Professor e poeta


O estudante Elísio de Vasconcelos
Elísio de Sousa Vasconcelos é hoje um ilustre desconhecido da maioria dos povoenses. No entanto, a sua presença na freguesia de Monsul fez-se sentir durante muitos anos, ali tendo passado a sua juventude na companhia da família. Era irmão de um médico que fez história na freguesia, José Emílio de Sousa Vasconcelos, de todos conhecido como Dr. Juca, clínico conceituado e admirado jogador de futebol da equipa do Sport Club Maria da Fonte nos finais da década de 1920 e nos inícios da seguinte. Outro dos seus irmãos chamou-se Carlos de Sousa Vasconcelos. Carlos regressou ao Brasil, onde, em 1932, era estudante de medicina na Universidade de Belém do Pará[1].
Elísio de Vasconcelos nasceu eno dia 5 de novembro de 1907 no município de Cametá, estado do Pará, (Brasil), onde seus pais se encontravam emigrados[2]. Quando a crianças tinha nove anos de idade, seus pais decidiram regressar a Portugal, fixando-se em Monsul onde possuíam propriedades. Elísio frequentou o ensino básico nesta freguesia, numa casa alugada pela câmara para escola e situada muito próxima do lugar onde habitava. Ali fez a maior das suas amizades, que havia de o acompanhar por muitos anos, com António Baptista Lopes, a quem viria a dedicar um dos seus livros[3].
Concluída em Monsul a instrução primária os pais mandaram-no estudar no Colégio de Guimarães, onde era director o professor Manuel Pedrosa, residente na Casa do Ribeiro de São João de Rei[4]. Mais tarde, deslocou-se para o Porto, tendo concluído a preparação para ingressar no superior no colégio João de Deus. O seu trajecto académico viria a concluí-lo na Faculdade de Farmácia da mesma cidade, onde se licenciou como farmacêutico-químico.
Concluído o curso, voltou a Monsul onde, ainda solteiro residia em 1933[5].
Mas a vida na aldeia não o satisfazia completamente. Em 1934 voltou ao Porto, onde fixou residência e passou a exercer como químico-analista num laboratório ligado à indústria farmacêutica. Contudo, Elísio de Vasconcelos foi mais um desses homens que, tendo estudado ciências, maior apetência demonstrava para Letras.
Casou, ainda na cidade invicta, com D. Maria da Glória de Moura Direito de Vasconcelos, passando a residir, primeiro, na rua de Antero de Quental[6], mudando-se meses depois para a Rua do Bonjardim[7]. O casal não teve filhos.
Após o casamento, o Dr. Elísio de Vasconcelos deixou a sua actividade como químico para se dedicar à docência, tornando-se professor no Colégio João de Deus onde havia sido estudante. Seria, aliás, por iniciativa dos seus alunos neste colégio, que viria à luz o seu primeiro livro, intitulado “A saltar uma fogueira” (Porto, Edições Inicial, 1945), e no qual o poeta publicou um conjunto de sessenta e duas quadras “sanjoaninas”. Tendo então trinta anos, a sua veia poética não parava de jorrar. Iniciou colaboração em vários periódicos, entre os quais o semanário povoense “A Maria da Fonte”. E, ainda em 1945, veio a público o seu segundo livro, “Poliedro. Sonetos e outras poesias” (Porto, Livraria Portugália, 1945), seguindo-se-lhe “A ternura que me deste” (Porto, Livraria Figueirinhas, 1946).
A crítica acolheu muito generosamente os três pequenos volumes de poesia de Elísio de Vasconcelos, que mereceram referências elogiosas nos maiores diários nacionais, de A Tarde ao Primeiro de Janeiro, ao Comércio do Porto, a O Século ou ao Diário da Manhã. A revista O Inicial, órgão literário e artístico do Colégio João de Deus, publicou em Dezembro de 1945 uma extensa matéria sobre “A ternura que me deste” de onde extraímos um trecho: “Elísio de Vasconcelos é um poeta. Acentuamos. Repetimos. Poeta no sentido integral e quase maravilhoso do vocábulo. Eis a agradável convicção que a leitura desde livro nos dá […]. Como artista, Elísio de Vasconcelos é escravo de si mesmo. Isto é, da caudalosa fluência do sentimento lírico, que nele tudo inunda, subverte e vence. A onda da poesia transborda incessantemente do seu peito. Alastra em impulsos irreprimíveis. Vibra em estos viris. E na sua humildade adorável reflecte assim qualquer coisa de grandioso e olímpico”[8].
Há, porém, quem diga que mais cedo ou mais tarde a alma do homem procura sempre as suas raízes. Acreditamos que foi na saudade desse pedaço de chão natal, alimentada por naturais desencantos e por questões da sua própria vida íntima, que o poeta monsulense encontrou vontade de partir. E, assim, nos finais da década de 1940, Elísio de Sousa Vasconcelos decidiu deixar a docência no Colégio João de Deus para regressar ao Brasil, onde nascera.
Ali chegado instalou-se na cidade natal onde, na Universidade Estadual do Maranhão, passou a leccionar Farmácia e Língua Portuguesa, atingindo, poucos anos depois, a cátedra. Desempenhou também funções oficiais, chegando a ocupar o alto cargo de secretário do governo maranhense[9].
Inconstante como quase todos os poetas, em 1960 voltou a mudar de cidade, fixando-se desta vez no Rio de Janeiro onde foi contratado para ensinar em dois dos mais prestigiados colégios da cidade: o D. Pedro II e o Estadual Sousa Aguiar. Tornou-se redactor especial do jornal “A Voz de Portugal” e, mais tarde, de “o Mundo Português”[10].
Em finais de 1963 regressou a Portugal, numa viagem de saudade. Estanciando em Monsul, ali permanece por longos meses, aproveitando para viajar pelo norte de Portugal. Regressou à cidade maravilhosa em meados de 1963, mantendo as actividades de professor e jornalista[11].
Mas não o seria já por muito tempo: a morte surpreendeu-o aos 50 anos de idade, no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro onde se fizera internar pouco tempo antes. O seu corpo ficou inumado num dos cemitérios daquela cidade[12].
A nós, de algum modo seus contarrâneos, não nos ficou mais que os seus três livros de poesia e uns quantos textos que deixou espalhados pela imprensa: sinal de que, se as palavras se perdem no oco do tempo, as letras grafadas são imorredouras. Como esse poema a que chamou

“O Tempo

Curvada sobre si nossa alma sente
Que o passado tão pouco nos parece –
Nas horas que fugiram de repente
E a distância num sonho desvanece.

O tempo só é longo, se apetece
Um dia, no futuro, ansiosamente…
Mas quando então ridente ele amanhece,
Logo foge, partindo velozmente!...

Se nos trouxe, porém, contentamento,
É pena não parar nesse momento
Que se desfaz em nuvem de saudade.

Mas passa breve a vida, num lamento…
Efémero e incompleto pensamento…
- Um sopro em relação à eternidade!...”[13]

__________________
José Abílio Coelho




[1] Maria da Fonte de 14 de Agosto de 1932, p. 3. Elísio de Vasconcelos era sobrinho de outro proprietário de Monsul, Eugénio Pereira de Vasconcelos, falecido naquela freguesia, aos 43 anos de idade, em Agosto de 1932.
[2] Cf. blogue Falando de Trova, in http://falandodetrova.com.br/elisio [acesso em 04.01.2014].
[3] Cf. dedicatória do livro Poliedro, in Vasconcelos, Elísio, Poliedro. Sonetos e outras poesias, Porto, Livraria Portugália, 1946, página não numerada, onde se lê: “À memória do Dr. António Baptista Lopes, o melhor dos meus amigos”.
[4] Num dos seus livros, escreveu s seguinte dedicatória: “Ao snr. Manuel Pedrosa, Director do Colégio em Guimarães onde fui tantos anos aluno, como símbolo da minha gratidão e sinal da minha amisade, com um abraço do Elísio de Vasconcelos. Porto, 1945”.
[5] Arquivo Distrital de Braga (doravante ADB), Fundos Notariais, Notário Silva Júnior, livro 182, fl. 22.
[6] ADB, Fundos Notariais da Póvoa de Lanhoso, notário José Luiz da Silva Júnior, livro 350, fls. 45v-50.
[7] ADB, Fundos Notariais da Póvoa de Lanhoso, notário José Luiz da Silva Júnior, livro 245, fls. 45v-48.
[8] “Da Crítica”, in Vasconcelos, Elísio, Poliedro. Sonetos e outras poesias, Porto, Livraria Portugália, 1946, pp. 70-71.
[9] Cf. Jornal “Maria da Fonte”, nº 48 (19ª série), de 30 de Maio de 1965, p. 2.
[10] Cf. Jornal “Maria da Fonte”, nº 48 (19ª série), de 30 de Maio de 1965, p. 2.
[11] Cf. Jornal “Maria da Fonte”, de 27 de Janeiro de 1963.
[12] Cf. Jornal “Maria da Fonte”, nº 48 (19ª série), de 30 de Maio de 1965, p. 2.
[13] Vasconcelos, Elísio de, “O Tempo”, in Poliedro. Sonetos e outras poesias, Porto, Livraria Portugália, 1946, p. 36.