sábado, 8 de dezembro de 2012

António José de Matos - Visconde de Porto d’Ave - (1844-1917) – Benemérito e juiz da Confraria de Nossa Senhora de Porto d’Ave

D. Cândida Carneiro Soares de Campos e António José de Matos,
viscondes de Nossa Senhora de Porto d'Ave


O túmulo do Visconde de Porto d'Ave no Rio de Janeiro (chama-se a atenção para o erro no mês de nascimento)

António José de Matos, futuro visconde Porto d’Ave, nasceu no lugar de Leiradela, da freguesia de Travassos, no dia cinco de Novembro de 1844. Era filho legítimo de Bernardo António de Matos e de sua mulher D. Clementina de Matos, e neto paterno de João de Matos e de Maria Barbosa, residentes no referido lugar de Leiradela de Travassos, e materno Manoel de Matos e Maria Luiza, estes residentes na freguesia de São Paio de Brunhais, de onde a mãe do pequeno António era natural. Foi baptizado em Travassos no dia 10 do mesmo mês e ano, sendo celebrante o encomendado padre Custódio José Pereira e padrinhos João António de Carvalho e Maria José Antunes, residentes em Parada de Bouro[1].
António José de Matos emigrou para o Brasil em data que desconhecemos, país onde viria a enriquecer.
Ali casou com D. Cândida Carneiro Soares de Campos, natural do Rio de Janeiro onde nasceu em 1868, filha do militar Manuel Francisco Coelho de Oliveira Soares, promovido a tenente do exército brasileiro em 27 de Agosto de 1849, e, mais tarde, director administrativo do Hospital Militar da Guarnição da Corte do Rio de Janeiro (entre 26-04-1879 a 20-02-1889) já então com a patente de coronel[2], e de sua mulher D. Vitorina Carneiro de Campos.
Em 1892, com 49 anos de idade, inscrevia-se António José como confrade de Nossa Senhora de Porto d’Ave, sendo rapidamente eleito juiz da instituição. Na mesma data, entrava também para Irmã da Confraria portodavense sua esposa, D. Cândida, que contava 24 anos de idade. Tinha o casal, nessa altura, pelo menos três filhos: Cleonice (5 anos), Cristiano (4 anos) e Adelstano Soares de Matos (3 anos).
Em 1897, publicava o semanário local Maria da Fonte uma breve notícia intitulada “Novo Titular”, dando conta de que fora “agraciado com o título de visconde de Nossa Senhora do Porto d’Ave o Sr. António José de Martos, opulento capitalista da freguesia de Travassos”[3]. Efectivamente, o título nobiliárquico ao único visconde de Porto d’Ave foi outorgado a António José de Matos, pelo rei D. Carlos, por decreto de 26 de outubro de 1897.



Ministério do Reino. Dom Carlos por Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves etc. Faço saber aos quantos esta Minha Carta virem que Attendendo aos merecimentos e qualidades que concorrem em Antonio José de Mattos, proprietário e capitalista no Concelho de Povoa do Lanhoso; e Querendo Dar-lhe um publico testemunho da Consideração e Apreço em que Tenho sua pessoa: Hei por bem Fazer-lhe mercê do Título de Visconde de Nosaa Senhora do Porto d’Ave, em sua vida Pelo que Mandando Eu passar ao agraciado a presente Carta, a fim de poder chama-se d’ora em diante Visconde de Nossa Senhora do Porto d’Ave e gozar deste Título com as honras prerogativas proeminencias e obrigações que pelas Leis e Regulamentos se acharem estabelecidas, Ordeno às autoridades e mais pessoas, a quem o conhecimento desta mesma Carta pertencer, que, indo assignada por Mim e referendada pelo Ministério e Secretario d’Estado dos Negócios do Reino, a cumpram e guardem como nella se contem depois de authenticada com o sello pendente das Armas Reaes, o de verba e com a nota do registo nos livros das Repartições competentes. Fica obrigado ao pagamento da quantia de um conto e duzentos mil reis, de direitos de mercê, devendo, logo que esteja realisado o mesmo pagamento apresentar este Diploma na Secretaria d’Estado dos Negócios da fazenda para, nos termos do Regulamento de vinte e oito de Agosto de mil oitocentos e sessenta, se exarar nelle a necessária quitação, sem a qual não terá inteira validade. Dada no Paço das Necessidades em vinte e seis d’outubro de mil oitocentos noventa e sete. El Rei. Assina Jose Luciano de Bastos[4].  



Em Setembro do mesmo ano de 1897, o periódico povoense dava destaque à festa em honra da Senhora do Porto, na qual o titular participou. Refere o jornal que “foi muito concorrida de povo a romaria de Nossa Senhora do Porto d’Ave”, que teve lugar nos dias 6, 7 e 8, destacando depois o facto de a mesa da confraria merecer os maiores “encómios pelo muito que trabalhou e pela solicitude que empregou para dar aos festejos todo o brilhantismo possível, em harmonia com os rendimentos do santuário”. Na festividade desse ano António José de Matos teve especial destaque nas festas, de cuja confraria era o juiz, pois foi-lhe preparado “um pavilhão, artisticamente decorado, onde o simpático titular e sua Exma. esposa tomaram assento, assistindo dali ao arraial” nas noites dos dias seis e sete. O pavilhão era cercado por três coretos, aonde outras tantas bandas de música executavam sem interrupção e altamente preparadas peças do melhor efeito. O fogo do ar, refere o periódico, esteve verdadeiramente magnífico e os balões, que foram em grande número, eram dum efeito deslumbrante[5].
Desconhecemos a dimensão das obras pagas pelo visconde de Porto d’Ave no santuário ou nas propriedades do mesmo, mas não devem ter sido muitas, dado o silêncio sobre as mesmas na imprensa local da época. Existe, aliás, à intervenção de António José de Matos uma única referência no hebdomadário Maria da Fonte, que na sua edição de 30 de Abril de 1899 – ou seja, mais de um ano e meio depois da atribuição do título de nobreza – referia que “a mesa da irmandade de Nossa Senhora do Porto d’Ave, resolveu há dias em sessão extraordinária que o seu mui digno juiz, o Sr. Visconde de Porto d’Ave, continuasse com as obras que o seu finado tio, sr. João António de Matos ali tinha dado princípio”[6]. As obras em causa prendiam-se com a construção dos muros laterais do “arruado”.
O visconde de Porto d’Ave mantinha, contudo, os seus negócios no Rio de Janeiro, onde residia habitualmente com a família. Quando, de longe a longe voltava à sua terra, a chegada era alvo de notícia. Em Dezembro de 1911, o mesmo jornal Maria da Fonte registava que, de regresso do Rio de Janeiro, chegara a Lisboa no dia 13 do mesmo mês, partindo dali para França, o senhor visconde de Porto d’Ave, primo dos senhores António Joaquim de Matos e Hilário José de Matos e tio da esposa deste último, D. Ida Vieira de Matos, e irmão do senhor Francisco Xavier de Matos. O visconde era, segundo a mesma fonte, esperado no seio da família na noite de Natal.
Em Março do ano seguinte António José de Matos encontrava-se em Paris, de onde regressou ao Rio com uma passagem por Brunhais, onde ficou alguns dias no convívio da sua família[7].
A última notícia que dele encontramos é de 10 de Março de 1912, quando é referido que partiu de Leiradela de Travassos, com destino ao Porto, onde no dia seguinte deverá embarcar rumo ao Brasil, o senhor visconde de Porto d’Ave[8].

António José de Matos faleceu na cidade do Rio de Janeiro, onde foi sepultado, no dia 6 de Agosto de 1917.

José Abílio Coelho 

PS: Esta nota biográfica merecerá permanente actualização, como, aliás, todas as outras, desde que surjam novos dados.


[1] ADB, livro de assentos de nascimento de São Martinho de Travassos, 1844, fl. 47-47v.
“Antonio, filho legitimo de Bernardo Antonio de Mattos, e de Clementina de Mattos nepto paterno de João de Mattos e Maria Barbosa do lugar de Leiradella desta freguezia de S. Martinho de Travaços, e materno de Manoel de Mattos, e Maria Luiza da freguezia de S. Paio de Brunhaes, nasceu a cinco de Novembro de mil oito centos e quarenta e quatro, foi solenemente baptizado com imposição por mim Padre Custodio José Pereira Coadjutor, digo, Encomendado desta freguesia de Travaços, aos dez dias do mez e anno supra, forão padrinhos João Antonio de Carvalho e Maria Joze Antunes de Parada de Bouro: para constar fiz este Assento no dia, mez e anno et. Supra
O Encomendado Custodio José Pereira”.
[2] Foi promovido a tenente do exército brasileiro em 27 de Agosto de 1849. Cf O Correio da Tarde, nº 49 de 30 de Agosto de 1849, p. 1; e Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930) Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br) [acesso em 3-12-2012]. E http://www.hce.eb.mil.br/index8.php [acesso em 3-12-2012].
[3] Cf. Jornal Maria da Fonte de 5 de Setembro de 1897, p. 2.
[4] Está ainda por apurar se a carta definitiva de nobreza chegou a ser passada a António José de Matos.
[5] Cf. Jornal Maria da Fonte, de 12 de Setembro de 1897, p. 2.
[6] Cf. Jornal Maria da Fonte, nº 202, de 30 de Abril de 1899, p. 2.
[7] Cf. Jornal Maria da Fonte, de 3 de Março de 1912
[8] Cf. Jornal Maria da Fonte, de 10 de Março de 1912

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Comendador Custódio Manuel Fernandes (f. 1911) - Benemérito

Comendador Custódio Manuel Fernandes
Custódio Manuel Fernandes foi um dos grandes beneméritos da freguesia de Vilela, concelho da Póvoa de Lanhoso. Ali nascido, emigrou ainda moço para o Brasil, país em cuja capital teve uma importante casa comercial à sociedade com Paulino José da Costa[1].
Os negócios ter-lhe-ão permitido juntar boa fortuna para, ainda nas duas últimas décadas do século XIX, viajar várias vezes para Portugal[2]. Na sua aldeia natal mandou construir uma vivenda de significativo porte a que chamou Casa do Paço, tornando-se benfeitor da freguesia e, sobretudo, um protetor dos seus pobres a quem ajudava com boas esmolas.
Em 1 de Outubro de 1891, o rei D. Carlos I de Portugal outorgou-lhe o título de comendador da Ordem de Nossa Senhora de Vila Viçosa[3].
Em 1909, ofereceu um sino para a torre da igreja, que foi inaugurado no dia 6 de Janeiro desse mesmo ano. No mesmo dia, foi o seu retrato descerrado, na galeria dos beneméritos, ao lado do do conde de Vilela[4] que, às suas custas e a solicitação do pároco Calisto José de Almeida, havia mandado construir de raiz a torre sineira[5].
Sempre que vinha a Portugal, instalava-se temporariamente na sua Casa do Paço, mas as temporadas eram pequenas, dado manter no Rio de Janeiro os seus negócios. Quando ausente, o seu procurador na Póvoa de Lanhoso era o comerciante Domingos Gonçalves da Cruz[6]. Do Brasil, mandava regularmente ao pároco da freguesia, pela Páscoa e pelo Natal, significativas somas para serem distribuídas pelos pobres, como ocorreu em Dezembro de 1911, quando remeteu ao padre Calisto 40$000 com aquele destino[7].
Em Novembro de 1911, decidiu voltar a Portugal, acompanhado do filho. Vinha algo adoentado, mas queria melhorar, aproveitando os ares da sua terra minhota, para regressar ao Rio de Janeiro e aos seus negócios. No cais de Lisboa, onde chegou acompanhado pelo filho, Dr. Custódio Fernandes, era esperado pelo conterrâneo António Ferreira Lopes, que, achando-o terrivelmente abatido, insistiu que em vez de se instalar no Paço, em Vilela, ficasse a residir no palacete das Casas Novas, na vila.
Mas os problemas de saúde agudizaram-se e o comendador viria a falecer na casa do seu amigo António Lopes, no dia 23 de Outubro de 1911.
A sua morte foi muito sentida quer na vila, quer especialmente na sua freguesia de Vilela. O velório, bem como a missa de corpo presente, à qual assistiram centenas de pessoas, realizou-se na capela privada do Palacete das Casas Novas. O seu caixão foi levado ao cemitério municipal onde ficou depositado temporariamente no jazigo de Emílio António Lopes[8]. O tempo suficiente para a família tratar da trasladação, que viria a ocorrer menos de um mês volvido, sendo a urna transportada para Lisboa, de onde seguiria de barco para o Rio de Janeiro. Acompanhando seu pai nessa última travessia do Atlântico, ia o filho do comendador, que quis levar os restos mortais do seu progenitor para o Brasil, onde tinham ficado sua mãe e sua irmã Albertina Fernandes, o marido e os filhos desta, Custódio e Lelia de seus nomes[9].
Um mês depois da sua morte foi rezada missa em Vilela pela sua alma, à qual assistiram centenas de pessoas, especialmente muitos pobres, aos quais no fim da Eucaristia foi distribuída uma esmola, saída dos 50$000 réis que, entretanto, o filho de Custódio Manuel Fernandes tinha enviado do Brasil[10].
A morte do comendador Custódio Manuel Fernandes faz lembrar um daqueles enredos românticos dos grandes mestres da literatura do século XIX, já que, embora doente, quis regressar à sua terra natal, onde acabou por falecer. Se o fez propositadamente ou não é coisa que nunca saberemos.

JAC



[1] Maria da Fonte, nº 741, de 3 de Outubro de 1909, p. 2
[2] Maria da Fonte, nº 849, de 29 de Outubro de 1911, p. 1.
[3] Arquivo Nacional da Torre do Tombo de Lisboa, Registo Geral de Mercês de D. Carlos I, livº. 1, f. 216.
[4] José Luís Fernandes Vilela nasceu no Porto em 1875, cidade onde viria a falecer em 1957. Desde muito novo dedicou-se aos negócios, tendo-se transformado num grande industrial de curtumes. Gerou grande fortuna tendo-se dedicado, especialmente na fase final da sua vida, à benemerência mediante a oferta de avultadas somas de dinheiro a diversas instituições culturais e de caridade. Casou em 1902 com Maria da Piedade Carneiro, não tendo tido geração. Veio a receber do rei D. Carlos dois títulos nobiliárquicos no mesmo ano. Primeiro o de visconde de Vilela em 1907 e depois o de conde de Vilela em 18 de Abril de 1907. Não descobrimos qualquer ligação deste benfeitor à freguesia de Vilela da Póvoa de Lanhoso, o que não invalida que elas tenham existido. Em1909 foi este conde de Vilela quem pagou integralmente a construção da torre da igreja paroquial. Teria algumas ligações ao Brasil, pois sua esposa morreu no Rio de Janeiro em Abril de 1911.
[5] Maria da Fonte, nº 704 de 17 de Janeiro de 1909, p. 2
[6] Maria da Fonte, nº 806 de 1 de Janeiro de 1911, p. 1.
[7] Maria da Fonte, nº 806 de 1 de Janeiro de 1911, p. 1.
[8] Maria da Fonte, nº 852, de 19 de Novembro de 1911, p. 1.
[9] MF 852 19 de Novembro de 1911, p. 1.
[10] MF nº 836, de 17 de Dezembro de 1911, p. 2.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Alírio do Vale (1892-1957) – Farmacêutico e escritor



Alírio do Vale era o pseudónimo literário de José Narcizo da Fonseca Oliveira, nascido na Casa do Bárrio de Monsul (Póvoa de Lanhoso), a 24 de Março de 1892, filho de D. Amélia de Jesus Adelaide e de seu marido José Maria de Oliveira, oriundos, ela da Casa do Bárrio de Monsul; ele da Casa de Lages de São João de Rei.
Foi um sobredotado: farmacêutico de mérito, afirmou-se nas décadas de trinta a cinquenta do século XX como a mais dinâmica figura cultural de Monsul, se não mesmo de todo o concelho. Era exímio violinista, tocava piano, organizou e ensaiou na sua freguesia um grupo coral e um grupo cénico admirados em todo o lado e, para além de tudo isto, teve ainda tempo para escrever, publicando três livros e centenas de artigos e crónicas em jornais.
A instrução primária concluiu-a em Monsul, numa escola que então funcionava no caminho para Verim. Seguidamente passou a frequentar o Liceu de Braga, de onde partiu para a Faculdade de Farmácia do Porto, onde se licenciou, em 1917, com uma altíssima classificação, como farmacêutico-químico. Convidado para a docência universitária, optou contudo, terminado o curso, por regressar ao bucolismo da sua aldeia natal onde estabeleceu farmácia.
Em 28 de Dezembro de 1922, viria a casar-se com D. Nair Isabel Alves da Costa, da Casa da Sarola de Baixo da freguesia de Verim. Deste casamento nasceram seis filhos: Isabel Maria, Laura Amélia, Maria Narciza, Jorge Eduardo, Maria Helena e Ana Maria da Costa Oliveira.
Na altura em que o Dr. José Narcizo instalou farmácia em Monsul não havia, e não houve por muitos anos, médico algum nas redondezas. Por isso, o farmacêutico era, não raras vezes, também o clínico que, a cavalo ou de bicicleta, percorria as aldeias em redor da sua a socorrer os doentes necessitados de um remédio para os seus males.
Fundou o Grupo Recreativo Dramático-Musical de Monsul, que utilizou para “diminuir o analfabetismo e cultivar a arte”, fomentando “o recreio honesto e instrutivo, promovendo a educação cívica, o ensino noturno para adultos, organizando palestras e conferências, ensinando música”[1].
Publicou artigos de interesse cultural e histórico em inúmeros jornais, quase sempre com o pseudónimo de Paulo Campos, nomeadamente no Diário de Notícias, O Século ou o semanário local A Póvoa de Lanhoso.
Em 1949 publicou a sua primeira novela, intitulado Dinis Arão, que tem epicentro no baixo concelho povoense, e ao qual se seguiram mais dois romances: Corações que sangram e O Poder das Riquezas.
O Dr. José Narcizo da Fonseca Oliveira viria a falecer subitamente em 11 de Novembro de 1957, aos 65 anos de idade e logo após ter concluído a composição do seu último romance.

JAC




[1] Oliveira, Jorge Eduardo da Costa, “Nota Biográfica”, in Vale, Alírio, Dinis Arão. Novela, Póvoa de Lanhoso, Editorial Ave Rara, 2000, pp.13-30.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Manuel Inácio de Matos (1840-?) – Benemérito



Manuel Inácio de Matos nasceu na freguesia de Travassos, concelho da Póvoa de Lanhoso, no dia 1 de janeiro de 1840. Era filho de José António de Matos e de sua mulher D. Maria José Fernandes de Matos, modesto casal que possuía de sua pequena lavoura de subsistência.
Aos 12 anos de idade, querendo dar-lhe uma vida diferente da que viviam, seus pais mandaram-no para a cidade do Porto onde, numa casa comercial, fez o seu tirocínio como marçano. O seu destino era porém o Brasil, para onde partiu aos 14 anos de idade, a bordo do brigue Iris, saído da barra do Douro. A travessia do Atlântico levou-o ao Rio Grande do Sul, onde se empregou em casa de um parente.
Tempos depois, a convite de seu primo António de Matos Cruz, estabelecido no Rio de Janeiro, deixou o Rio Grande para entrar como caixeiro na capital do Império.
Trabalhador incansável e cumpridor foi, aos poucos, conquistando a simpatia de todos que com ele trabalhavam e ganhando nome honrado na grande praça comercial que era o Rio de Janeiro já naquele tempo. Conservou-se empregado da mesma casa de seu primeiro até que, em 1862, doente, decidiu regressar à sua aldeia natal, a casa de seus pais. Curou-se e, descontente por não ter alcançado o sucesso que levava em mente quando aos 14 anos partira rumo ao Brasil, decidiu regressar àquele país. Cinco anos após o regresso, e quando contava já 27 anos de idade, tomou de novo lugar num barco que o levaria na sua terceira travessia para a América do Sul. A fama das suas qualidades de bom profissional e de homem sério, abriram-lhe então as portas da grande casa comercial Frederico Strak & C.ª. Ali conquistou, no esforço de muito labor e da confiança nele depositada pelos patrões, as suas “esporas de ouro”. Ao fim de treze anos a negociar por conta própria, sob a proteção da Frederico Strak, Manuel Inácio pediu as suas contas, tendo a casa emitido um cheque a seu favor de quarenta contos de réis.
Com este dinheiro, uma soma muito significativa para o tempo, Manuel Inácio estabeleceu-se na Rua do Sabão, com uma casa de ferragens e armarinho, numa sociedade que adotara o nome de Campo Verde & Matos, sociedade essa que durou até ao ano de 1904. Tendo, nesse mesmo ano, morrido o seu sócio Campo Verde, foi fundada nova firma, agora com a designação de Matos, Reis & C.ª, que funcionou durante décadas, nomeadamente exportando para a Europa muitos dos produtos que comercializava. Manuel Inácio de Matos era um comerciante respeitado, tendo já o seu nome matriculado como negociante no Tribunal do Comércio do Brasil.
Como muitos outros portugueses afortunados, teve Manuel Inácio de Matos o seu nome ligado a instituições de caridade do Rio de Janeiro, nomeadamente à Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência, às irmandades do SS Sacramento da Candelária, Nossa Senhora Mãe dos Homens, Santo André e Ordem do Carmo, bem como ao Gabinete Português de Leitura. Foi ainda membro da distinta Associação Comercial do Rio de Janeiro.
Em 1896, já casado com a dama brasileira D. Cristina Maria de Matos, retirou-se para Portugal, tendo estabelecido simultaneamente residência em Braga e em Travassos, onde, entretanto, adquiriu algumas propriedades. Na sua terra, encarregou-se várias vezes de organizar a custas próprias as festas do SS. Travassos deve-lhe ainda o ter-se emprenhado na recolha de fundos no Brasil, para as obras profundas que foram nos finais do século XIX feitas na sua igreja matriz, bem como avultada verba que, já no primeiro quartel do século XX, dispensou para a construção da torre da mencionada igreja[1].
Foi um amigo dos seus familiares, protetor especial de sua mãe, não esquecendo os pobres da sua terra a quem sempre estendeu a mão no limite das suas possibilidades.

JAC


[1] “Portugueses no Brasil”, nº 11, ano 1º, p. 4.