terça-feira, 11 de dezembro de 2012

António Belarmino Teixeira Ribeiro (1896-1975) – Agricultor, político, dirigente associativo e colaborador da imprensa local



António Belarmino Teixeira Ribeiro
António Ribeiro, como ficou conhecido na Póvoa de Lanhoso do seu tempo, foi um desses filhos da terra que teve a inteligência e a coragem para ter sido tudo, mas a quem uma assumida frontalidade atirou sempre para o lugar dos “limitados” por vontade alheia.
Contudo, se, por exemplo, acusações de “reviralhismo” o afastaram da presidência da câmara ou de outros lugares de destaque público que podia ter ocupado nos meados do século XX, o mesmo não aconteceu na admiração e estima que mereceu como cidadão e como actor amador, um dos maiores que a Póvoa viu nasceu nos mais de 100 anos de história que o teatro amador conta na terra da Maria da Fonte.
Nascido na Vila da Póvoa de Lanhoso em 23 de Novembro de 1896, filho do advogado-notário Alfredo António Teixeira Ribeiro e de sua mulher D. Elvira Amália Geão Areias, frequentou a escolaridade básica na sua terra natal, tendo posteriormente completado o ensino liceal em Braga[1]. Foi neste tempo, enquanto estudante liceal, primeiro, e depois como jovem à procura de uma oportunidade na vida profissional, que António Ribeiro aprendeu todos os segredos da Arte de Talma. Como actor e como declamador de poesia, foi figura destacada a partir de 1916, tendo nessa altura divido os palcos com outros concidadãos que deixaram o nome gravado a ouro na história do teatro amador, e de entre os quais se destaca Elvira Maria Lopes Bastos*.
Quando contava 20 anos de idade, fez-se, como muitos outros jovens portugueses seus contemporâneos, ao mar, tomando caminho do Brasil. Tendo embarcado no vapor Deseado em Junho de 1917, quando era já um jovem distinto na terra, de tal modo que, na véspera da sua partida para a travessia do Atlântico, um grupo de amigos ofereceu-lhe no Hotel Povoense um jantar de despedida ao qual assistiram “vários admiradores das distintas qualidade do [seu] carácter”, entre os quais Eugénio de Azevedo, secretário de finanças, Adriano Leite, ajudante do oficial de registo civil, António Gonçalves de Magalhães, regente da música desta vila, Casimiro Pinto, solicitador, António de Sousa, João Maria Antunes Fernandes e tipógrafo João Carvalho.
No dia que se seguiu a esta festa, partiu para o Porto onde tomaria o seu lugar no vapor, indo alguns amigos despedir-se dele à estação de caminhos-de-ferro de Braga. Antes, realizou-se um almoço em Braga, no restaurante Aliança, oferecido pelo seu grande amigo, o capitalista “brasileiro” Manuel António Vieira Serzedelo, residente no lugar de Arrifana, que se fez acompanhar dos seus filhos Olinda, Iracema, Eugénia e Valdemar Serzedelo, bem como de outro amigo, Manuel Duarte da Silva[2].
Não sabemos ao certo o tempo que terá permanecido no Rio de Janeiro. O certo é que estava na Póvoa de Lanhoso em 12 de Julho de 1924, data em que casou com Olinda Ida Serzedelo Ribeiro*, filha do já refeido capitalista povoense e seu amigo Manuel António Vieira Serzedelo e de sua mulher D. Bebiana Ida de Castro Serzedelo[3]. O tempo de felicidade do casal foi, porém, muito reduzido, já que a jovem Olinda Ida viria a morrer em 16 de Maio de 1926 (com apenas 24 anos de idade), ao dar à luz, em casa, o seu primeiro filho, Olinda Ida Serzedelo Ribeiro (1901-1926), uma menina que sobreviveu à mãe.
Pai desta criança, António Ribeiro viria a casar em segundas núpcias com D. Maria Rita da Mota Teixeira Ribeiro, com quem teve mais quatro filhos: Fernanda, Manuela, Alfredo e António Sérgio Areias da Mota Ribeiro[4].
Foi vereador da câmara municipal da Póvoa de Lanhoso por mais de uma vez, cargo do qual se afastou sempre por vontade própria e em discordância com as políticas seguidas pelos seus pares. Foi também presidente da Junta de Fontarcada.
Foi um dramaturgo de valor, tendo escrito as peças “Espadelada”, “Dona Rosária” e “Almas do Outro Mundo”, tendo-se destacado também como encenador teatral[5].
Como cidadão interventivo, escreveu ao longo de várias décadas para o semanário Maria da Fonte, tendo-se tornado, com o passar dos anos, um assumido opositor ao então presidente da câmara e provedor da Misericórdia padre José António Dias. Nos inícios da década de 1950 esteve para ser nomeado presidente da câmara, mas o governador civil de Braga, teve recuar nos propósitos de o indicar ao ministro do Interior dadas as acusações de pertencer “ao reviralho” que sobre António Belarmino Teixeira Ribeiro caíram, vindas do grupo mais radical de apoiantes do Estado Novo.
Desde muito novo dedicado às terras que possuía em Fontarcada foi, até ao fim da vida, um sábio e esforçado agricultor, tendo desempenhado ao longo de muitos anos o cargo de presidente do Grémio da Lavoura. Esteve também ligado à indústria e ao comércio através da sociedade “Tintal – Fábrica de Tintas”, do Porto, da qual foi um dos sócios fundadores por escritura lavrada no dia 27 de Janeiro de 1954 e outorgado ainda por Armando Gonçalo Teixeira Ribeiro e Aristides Manuel Teixeira Ribeiro (seus irmãos) e Joaquim Vieira dos Santos, com um capital social de um milhão de escudos, dividido por quatro quotas iguais. Para além dos dois atrás invocados, era irmão de Abílio Ernâni Teixeira Ribeiro e do Prof. Doutor José Joaquim Teixeira Ribeiro (ver verbetes neste dicionário).
Faleceu na sua propriedade do Lugar da Arrifana (Fontarcada, Póvoa de Lanhoso) no dia 20 de Fevereiro de 1975[6].
“Homem probo, bondoso e caritativo, gozando neste meio de geral simpatia, teve uma vida de trabalho profícuo, congregando todos os seus esforços no desenvolvimento da lavoura, a que ele se dedicou de alma-e-coração”, escreveu no seu obituário o jornal Maria da Fonte. No mesmo semanário, António Sousa e Silva escreveu que António Belarmino Teixeira Ribeiro foi ao longo da sua vida um homem do Teatro, sendo um dos maiores vultos do teatro amador povoense, quer como actor, encenador e mesmo dramaturgo. Fez parte dos elencos mais valiosos que a Póvoa conheceu, sendo figura de primeira plano a par de Adolfo João de Figueiredo, Américo Macedo, João Carvalho e Bibi Bastos[7].

José Abílio Coelho



[1] Em 1909 era terceiranista do Liceu de Braga. Cf. Jornal Maria da Fonte, nº 746, de 7 de Novembro de 1909, p. 2
[2] Cf. Jornal Maria da Fonte, nº 1140, de 3 de Junho de 1917, p. 2
[3] Cf. Jornal Maria da Fonte, de 30 de Maio de 1926, p. 1
[4] Cf. Jornal Maria da Fonte, nº 2432, de 1 de Março de 1975, p. 2
[5] Silva, José Bento da, Em Cena Tteatro-Clubp (1904-2004), Póvoa de Lanhoso, CMPL, 2005, p. 190-191.
[6] Cf. Jornal Maria da Fonte, nº 2431, de 22 de Fevereiro de 1975, p. 3.
[7] Silva, António Bernardino de Sousa e, “Um homem do Teatro povoense”, in Jornal Maria da Fonte, nº 2432, de 1 de Março de 1975, p. 1

sábado, 8 de dezembro de 2012

António José de Matos - Visconde de Porto d’Ave - (1844-1917) – Benemérito e juiz da Confraria de Nossa Senhora de Porto d’Ave

D. Cândida Carneiro Soares de Campos e António José de Matos,
viscondes de Nossa Senhora de Porto d'Ave


O túmulo do Visconde de Porto d'Ave no Rio de Janeiro (chama-se a atenção para o erro no mês de nascimento)

António José de Matos, futuro visconde Porto d’Ave, nasceu no lugar de Leiradela, da freguesia de Travassos, no dia cinco de Novembro de 1844. Era filho legítimo de Bernardo António de Matos e de sua mulher D. Clementina de Matos, e neto paterno de João de Matos e de Maria Barbosa, residentes no referido lugar de Leiradela de Travassos, e materno Manoel de Matos e Maria Luiza, estes residentes na freguesia de São Paio de Brunhais, de onde a mãe do pequeno António era natural. Foi baptizado em Travassos no dia 10 do mesmo mês e ano, sendo celebrante o encomendado padre Custódio José Pereira e padrinhos João António de Carvalho e Maria José Antunes, residentes em Parada de Bouro[1].
António José de Matos emigrou para o Brasil em data que desconhecemos, país onde viria a enriquecer.
Ali casou com D. Cândida Carneiro Soares de Campos, natural do Rio de Janeiro onde nasceu em 1868, filha do militar Manuel Francisco Coelho de Oliveira Soares, promovido a tenente do exército brasileiro em 27 de Agosto de 1849, e, mais tarde, director administrativo do Hospital Militar da Guarnição da Corte do Rio de Janeiro (entre 26-04-1879 a 20-02-1889) já então com a patente de coronel[2], e de sua mulher D. Vitorina Carneiro de Campos.
Em 1892, com 49 anos de idade, inscrevia-se António José como confrade de Nossa Senhora de Porto d’Ave, sendo rapidamente eleito juiz da instituição. Na mesma data, entrava também para Irmã da Confraria portodavense sua esposa, D. Cândida, que contava 24 anos de idade. Tinha o casal, nessa altura, pelo menos três filhos: Cleonice (5 anos), Cristiano (4 anos) e Adelstano Soares de Matos (3 anos).
Em 1897, publicava o semanário local Maria da Fonte uma breve notícia intitulada “Novo Titular”, dando conta de que fora “agraciado com o título de visconde de Nossa Senhora do Porto d’Ave o Sr. António José de Martos, opulento capitalista da freguesia de Travassos”[3]. Efectivamente, o título nobiliárquico ao único visconde de Porto d’Ave foi outorgado a António José de Matos, pelo rei D. Carlos, por decreto de 26 de outubro de 1897.



Ministério do Reino. Dom Carlos por Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves etc. Faço saber aos quantos esta Minha Carta virem que Attendendo aos merecimentos e qualidades que concorrem em Antonio José de Mattos, proprietário e capitalista no Concelho de Povoa do Lanhoso; e Querendo Dar-lhe um publico testemunho da Consideração e Apreço em que Tenho sua pessoa: Hei por bem Fazer-lhe mercê do Título de Visconde de Nosaa Senhora do Porto d’Ave, em sua vida Pelo que Mandando Eu passar ao agraciado a presente Carta, a fim de poder chama-se d’ora em diante Visconde de Nossa Senhora do Porto d’Ave e gozar deste Título com as honras prerogativas proeminencias e obrigações que pelas Leis e Regulamentos se acharem estabelecidas, Ordeno às autoridades e mais pessoas, a quem o conhecimento desta mesma Carta pertencer, que, indo assignada por Mim e referendada pelo Ministério e Secretario d’Estado dos Negócios do Reino, a cumpram e guardem como nella se contem depois de authenticada com o sello pendente das Armas Reaes, o de verba e com a nota do registo nos livros das Repartições competentes. Fica obrigado ao pagamento da quantia de um conto e duzentos mil reis, de direitos de mercê, devendo, logo que esteja realisado o mesmo pagamento apresentar este Diploma na Secretaria d’Estado dos Negócios da fazenda para, nos termos do Regulamento de vinte e oito de Agosto de mil oitocentos e sessenta, se exarar nelle a necessária quitação, sem a qual não terá inteira validade. Dada no Paço das Necessidades em vinte e seis d’outubro de mil oitocentos noventa e sete. El Rei. Assina Jose Luciano de Bastos[4].  



Em Setembro do mesmo ano de 1897, o periódico povoense dava destaque à festa em honra da Senhora do Porto, na qual o titular participou. Refere o jornal que “foi muito concorrida de povo a romaria de Nossa Senhora do Porto d’Ave”, que teve lugar nos dias 6, 7 e 8, destacando depois o facto de a mesa da confraria merecer os maiores “encómios pelo muito que trabalhou e pela solicitude que empregou para dar aos festejos todo o brilhantismo possível, em harmonia com os rendimentos do santuário”. Na festividade desse ano António José de Matos teve especial destaque nas festas, de cuja confraria era o juiz, pois foi-lhe preparado “um pavilhão, artisticamente decorado, onde o simpático titular e sua Exma. esposa tomaram assento, assistindo dali ao arraial” nas noites dos dias seis e sete. O pavilhão era cercado por três coretos, aonde outras tantas bandas de música executavam sem interrupção e altamente preparadas peças do melhor efeito. O fogo do ar, refere o periódico, esteve verdadeiramente magnífico e os balões, que foram em grande número, eram dum efeito deslumbrante[5].
Desconhecemos a dimensão das obras pagas pelo visconde de Porto d’Ave no santuário ou nas propriedades do mesmo, mas não devem ter sido muitas, dado o silêncio sobre as mesmas na imprensa local da época. Existe, aliás, à intervenção de António José de Matos uma única referência no hebdomadário Maria da Fonte, que na sua edição de 30 de Abril de 1899 – ou seja, mais de um ano e meio depois da atribuição do título de nobreza – referia que “a mesa da irmandade de Nossa Senhora do Porto d’Ave, resolveu há dias em sessão extraordinária que o seu mui digno juiz, o Sr. Visconde de Porto d’Ave, continuasse com as obras que o seu finado tio, sr. João António de Matos ali tinha dado princípio”[6]. As obras em causa prendiam-se com a construção dos muros laterais do “arruado”.
O visconde de Porto d’Ave mantinha, contudo, os seus negócios no Rio de Janeiro, onde residia habitualmente com a família. Quando, de longe a longe voltava à sua terra, a chegada era alvo de notícia. Em Dezembro de 1911, o mesmo jornal Maria da Fonte registava que, de regresso do Rio de Janeiro, chegara a Lisboa no dia 13 do mesmo mês, partindo dali para França, o senhor visconde de Porto d’Ave, primo dos senhores António Joaquim de Matos e Hilário José de Matos e tio da esposa deste último, D. Ida Vieira de Matos, e irmão do senhor Francisco Xavier de Matos. O visconde era, segundo a mesma fonte, esperado no seio da família na noite de Natal.
Em Março do ano seguinte António José de Matos encontrava-se em Paris, de onde regressou ao Rio com uma passagem por Brunhais, onde ficou alguns dias no convívio da sua família[7].
A última notícia que dele encontramos é de 10 de Março de 1912, quando é referido que partiu de Leiradela de Travassos, com destino ao Porto, onde no dia seguinte deverá embarcar rumo ao Brasil, o senhor visconde de Porto d’Ave[8].

António José de Matos faleceu na cidade do Rio de Janeiro, onde foi sepultado, no dia 6 de Agosto de 1917.

José Abílio Coelho 

PS: Esta nota biográfica merecerá permanente actualização, como, aliás, todas as outras, desde que surjam novos dados.


[1] ADB, livro de assentos de nascimento de São Martinho de Travassos, 1844, fl. 47-47v.
“Antonio, filho legitimo de Bernardo Antonio de Mattos, e de Clementina de Mattos nepto paterno de João de Mattos e Maria Barbosa do lugar de Leiradella desta freguezia de S. Martinho de Travaços, e materno de Manoel de Mattos, e Maria Luiza da freguezia de S. Paio de Brunhaes, nasceu a cinco de Novembro de mil oito centos e quarenta e quatro, foi solenemente baptizado com imposição por mim Padre Custodio José Pereira Coadjutor, digo, Encomendado desta freguesia de Travaços, aos dez dias do mez e anno supra, forão padrinhos João Antonio de Carvalho e Maria Joze Antunes de Parada de Bouro: para constar fiz este Assento no dia, mez e anno et. Supra
O Encomendado Custodio José Pereira”.
[2] Foi promovido a tenente do exército brasileiro em 27 de Agosto de 1849. Cf O Correio da Tarde, nº 49 de 30 de Agosto de 1849, p. 1; e Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930) Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br) [acesso em 3-12-2012]. E http://www.hce.eb.mil.br/index8.php [acesso em 3-12-2012].
[3] Cf. Jornal Maria da Fonte de 5 de Setembro de 1897, p. 2.
[4] Está ainda por apurar se a carta definitiva de nobreza chegou a ser passada a António José de Matos.
[5] Cf. Jornal Maria da Fonte, de 12 de Setembro de 1897, p. 2.
[6] Cf. Jornal Maria da Fonte, nº 202, de 30 de Abril de 1899, p. 2.
[7] Cf. Jornal Maria da Fonte, de 3 de Março de 1912
[8] Cf. Jornal Maria da Fonte, de 10 de Março de 1912

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Comendador Custódio Manuel Fernandes (f. 1911) - Benemérito

Comendador Custódio Manuel Fernandes
Custódio Manuel Fernandes foi um dos grandes beneméritos da freguesia de Vilela, concelho da Póvoa de Lanhoso. Ali nascido, emigrou ainda moço para o Brasil, país em cuja capital teve uma importante casa comercial à sociedade com Paulino José da Costa[1].
Os negócios ter-lhe-ão permitido juntar boa fortuna para, ainda nas duas últimas décadas do século XIX, viajar várias vezes para Portugal[2]. Na sua aldeia natal mandou construir uma vivenda de significativo porte a que chamou Casa do Paço, tornando-se benfeitor da freguesia e, sobretudo, um protetor dos seus pobres a quem ajudava com boas esmolas.
Em 1 de Outubro de 1891, o rei D. Carlos I de Portugal outorgou-lhe o título de comendador da Ordem de Nossa Senhora de Vila Viçosa[3].
Em 1909, ofereceu um sino para a torre da igreja, que foi inaugurado no dia 6 de Janeiro desse mesmo ano. No mesmo dia, foi o seu retrato descerrado, na galeria dos beneméritos, ao lado do do conde de Vilela[4] que, às suas custas e a solicitação do pároco Calisto José de Almeida, havia mandado construir de raiz a torre sineira[5].
Sempre que vinha a Portugal, instalava-se temporariamente na sua Casa do Paço, mas as temporadas eram pequenas, dado manter no Rio de Janeiro os seus negócios. Quando ausente, o seu procurador na Póvoa de Lanhoso era o comerciante Domingos Gonçalves da Cruz[6]. Do Brasil, mandava regularmente ao pároco da freguesia, pela Páscoa e pelo Natal, significativas somas para serem distribuídas pelos pobres, como ocorreu em Dezembro de 1911, quando remeteu ao padre Calisto 40$000 com aquele destino[7].
Em Novembro de 1911, decidiu voltar a Portugal, acompanhado do filho. Vinha algo adoentado, mas queria melhorar, aproveitando os ares da sua terra minhota, para regressar ao Rio de Janeiro e aos seus negócios. No cais de Lisboa, onde chegou acompanhado pelo filho, Dr. Custódio Fernandes, era esperado pelo conterrâneo António Ferreira Lopes, que, achando-o terrivelmente abatido, insistiu que em vez de se instalar no Paço, em Vilela, ficasse a residir no palacete das Casas Novas, na vila.
Mas os problemas de saúde agudizaram-se e o comendador viria a falecer na casa do seu amigo António Lopes, no dia 23 de Outubro de 1911.
A sua morte foi muito sentida quer na vila, quer especialmente na sua freguesia de Vilela. O velório, bem como a missa de corpo presente, à qual assistiram centenas de pessoas, realizou-se na capela privada do Palacete das Casas Novas. O seu caixão foi levado ao cemitério municipal onde ficou depositado temporariamente no jazigo de Emílio António Lopes[8]. O tempo suficiente para a família tratar da trasladação, que viria a ocorrer menos de um mês volvido, sendo a urna transportada para Lisboa, de onde seguiria de barco para o Rio de Janeiro. Acompanhando seu pai nessa última travessia do Atlântico, ia o filho do comendador, que quis levar os restos mortais do seu progenitor para o Brasil, onde tinham ficado sua mãe e sua irmã Albertina Fernandes, o marido e os filhos desta, Custódio e Lelia de seus nomes[9].
Um mês depois da sua morte foi rezada missa em Vilela pela sua alma, à qual assistiram centenas de pessoas, especialmente muitos pobres, aos quais no fim da Eucaristia foi distribuída uma esmola, saída dos 50$000 réis que, entretanto, o filho de Custódio Manuel Fernandes tinha enviado do Brasil[10].
A morte do comendador Custódio Manuel Fernandes faz lembrar um daqueles enredos românticos dos grandes mestres da literatura do século XIX, já que, embora doente, quis regressar à sua terra natal, onde acabou por falecer. Se o fez propositadamente ou não é coisa que nunca saberemos.

JAC



[1] Maria da Fonte, nº 741, de 3 de Outubro de 1909, p. 2
[2] Maria da Fonte, nº 849, de 29 de Outubro de 1911, p. 1.
[3] Arquivo Nacional da Torre do Tombo de Lisboa, Registo Geral de Mercês de D. Carlos I, livº. 1, f. 216.
[4] José Luís Fernandes Vilela nasceu no Porto em 1875, cidade onde viria a falecer em 1957. Desde muito novo dedicou-se aos negócios, tendo-se transformado num grande industrial de curtumes. Gerou grande fortuna tendo-se dedicado, especialmente na fase final da sua vida, à benemerência mediante a oferta de avultadas somas de dinheiro a diversas instituições culturais e de caridade. Casou em 1902 com Maria da Piedade Carneiro, não tendo tido geração. Veio a receber do rei D. Carlos dois títulos nobiliárquicos no mesmo ano. Primeiro o de visconde de Vilela em 1907 e depois o de conde de Vilela em 18 de Abril de 1907. Não descobrimos qualquer ligação deste benfeitor à freguesia de Vilela da Póvoa de Lanhoso, o que não invalida que elas tenham existido. Em1909 foi este conde de Vilela quem pagou integralmente a construção da torre da igreja paroquial. Teria algumas ligações ao Brasil, pois sua esposa morreu no Rio de Janeiro em Abril de 1911.
[5] Maria da Fonte, nº 704 de 17 de Janeiro de 1909, p. 2
[6] Maria da Fonte, nº 806 de 1 de Janeiro de 1911, p. 1.
[7] Maria da Fonte, nº 806 de 1 de Janeiro de 1911, p. 1.
[8] Maria da Fonte, nº 852, de 19 de Novembro de 1911, p. 1.
[9] MF 852 19 de Novembro de 1911, p. 1.
[10] MF nº 836, de 17 de Dezembro de 1911, p. 2.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Alírio do Vale (1892-1957) – Farmacêutico e escritor



Alírio do Vale era o pseudónimo literário de José Narcizo da Fonseca Oliveira, nascido na Casa do Bárrio de Monsul (Póvoa de Lanhoso), a 24 de Março de 1892, filho de D. Amélia de Jesus Adelaide e de seu marido José Maria de Oliveira, oriundos, ela da Casa do Bárrio de Monsul; ele da Casa de Lages de São João de Rei.
Foi um sobredotado: farmacêutico de mérito, afirmou-se nas décadas de trinta a cinquenta do século XX como a mais dinâmica figura cultural de Monsul, se não mesmo de todo o concelho. Era exímio violinista, tocava piano, organizou e ensaiou na sua freguesia um grupo coral e um grupo cénico admirados em todo o lado e, para além de tudo isto, teve ainda tempo para escrever, publicando três livros e centenas de artigos e crónicas em jornais.
A instrução primária concluiu-a em Monsul, numa escola que então funcionava no caminho para Verim. Seguidamente passou a frequentar o Liceu de Braga, de onde partiu para a Faculdade de Farmácia do Porto, onde se licenciou, em 1917, com uma altíssima classificação, como farmacêutico-químico. Convidado para a docência universitária, optou contudo, terminado o curso, por regressar ao bucolismo da sua aldeia natal onde estabeleceu farmácia.
Em 28 de Dezembro de 1922, viria a casar-se com D. Nair Isabel Alves da Costa, da Casa da Sarola de Baixo da freguesia de Verim. Deste casamento nasceram seis filhos: Isabel Maria, Laura Amélia, Maria Narciza, Jorge Eduardo, Maria Helena e Ana Maria da Costa Oliveira.
Na altura em que o Dr. José Narcizo instalou farmácia em Monsul não havia, e não houve por muitos anos, médico algum nas redondezas. Por isso, o farmacêutico era, não raras vezes, também o clínico que, a cavalo ou de bicicleta, percorria as aldeias em redor da sua a socorrer os doentes necessitados de um remédio para os seus males.
Fundou o Grupo Recreativo Dramático-Musical de Monsul, que utilizou para “diminuir o analfabetismo e cultivar a arte”, fomentando “o recreio honesto e instrutivo, promovendo a educação cívica, o ensino noturno para adultos, organizando palestras e conferências, ensinando música”[1].
Publicou artigos de interesse cultural e histórico em inúmeros jornais, quase sempre com o pseudónimo de Paulo Campos, nomeadamente no Diário de Notícias, O Século ou o semanário local A Póvoa de Lanhoso.
Em 1949 publicou a sua primeira novela, intitulado Dinis Arão, que tem epicentro no baixo concelho povoense, e ao qual se seguiram mais dois romances: Corações que sangram e O Poder das Riquezas.
O Dr. José Narcizo da Fonseca Oliveira viria a falecer subitamente em 11 de Novembro de 1957, aos 65 anos de idade e logo após ter concluído a composição do seu último romance.

JAC




[1] Oliveira, Jorge Eduardo da Costa, “Nota Biográfica”, in Vale, Alírio, Dinis Arão. Novela, Póvoa de Lanhoso, Editorial Ave Rara, 2000, pp.13-30.