quinta-feira, 18 de abril de 2013

Constantino Maria Gonçalves Fernandes (1892 – 1955) - Proprietário, Industrial, Benemérito, Perseguido Político


Constantino Maria Gonçalves Fernandes
Tendo presente as palavras do escritor e ensaísta Vergílio Ferreira, que refere: “a vida está cheia do seu dom original e só espera de nós um pouco de atenção, não bem de atenção, não bem de atenção: um pouco de humildade, de uma íntima nudez[1].
Parafraseando a ideia do escritor e ensaísta com a própria vida de Constantino Maria Gonçalves Fernandes, constatamos, inequivocamente, a sua generosidade, simplicidade humildade e uma íntima nudez de desprendimento pelos bens materiais.
Assim, gozou de grande carinho e simpatia no seio da sociedade povoense, pois foi um bom amigo dos pobres, dos mais frágeis e vulneráveis, amigo do seu amigo, sendo tratado e conhecido com estima por “Constantininho do Pinheiro”.
Nasceu no lugar do Pinheiro, freguesia de Lanhoso, concelho da Póvoa de Lanhoso, aos 22 de Janeiro de 1892, filho de Manuel Joaquim Gonçalves, natural da freguesia de Cantelães, concelho de Vieira do Minho, e de Rosa Joaquina Fernandes, natural da freguesia de Geraz do Minho; neto paterno de José Bento Gonçalves e Teresa Maria Rebelo; e materno de Manuel José Fernandes e Antónia Margarida de Freitas. Recebeu o Sacramento do Baptismo, no dia 24 de Janeiro de 1892, pelo Pároco da paróquia de São Tiago de Lanhoso, Reverendo Padre David José da Silva, sendo padrinhos de Baptismo Constantino José Fernandes e Maria Joaquina Fernandes[2].
Seus pais, como agradecimento divino, pelo nascimento do seu único filho, pois a Senhora Dona Rosa Joaquina Fernandes deu à luz já em idade um pouco avançada e em gratidão pelo dom da vida do seu filho, erigiram um nicho em homenagem à Nossa Senhora das Graças, no lugar do Pinheiro.
Este nicho, ainda se encontra, no lugar do Pinheiro, junto da estrada nacional 205, em direcção à vila da Póvoa de Lanhoso, com a seguinte inscrição: “Devoção que teve Manoel Joaquim Gonçalves e sua mulher Rosa Joaquina Fernandes – Anno 1892”.
Apesar do nicho não manter a sua traça original, pois a imagem de Nossa Senhora das Graças, foi substituída por painéis de azulejos, e foi guardada na capela do Senhor do Socorro, por cautela da “mão alheia”, que ainda hoje encontramos na referida capela.
 Esta linda capelinha foi construída pela sua família e posteriormente doada ao povo do lugar do Pinheiro.
O Senhor Constantino era devoto e nutria muita estima pela imagem de Nossa Senhora das Graças, pois salientava sempre que esta imagem era a sua irmã “gémea”, por ter sido colocada no mencionado nicho após o seu nascimento.
A sua infância foi passada no Lugar do Pinheiro, onde sempre habitou. Alguns anos depois, o Senhor Constantino, mandou construir no referido lugar do Pinheiro, no local de uma antiga casa de família, a belíssima casa “cor-de-rosa”, em que a direcção dos trabalhos dessa empreitada, esteve sob alçada e responsabilidade do conceituado construtor civil Senhor Luís Pinto da Silva.
Os seus estudos literários foram obtidos num colégio, na cidade de Braga.
 Após a sua infância e adolescência, ingressou no serviço militar, durante 7 anos, percorrendo de norte a sul todos os quartéis militares existentes na altura. Durante este período, conheceu muitos homens que, anos mais tarde, viriam a ser opositores ao regime do Estado Novo.
Era proprietário de um vasto conjunto de terras invejáveis, umas que herdou da sua família e outras foram por si adquiridas. Herdou também dos seus tios, que se encontravam emigrados no Brasil, grande fortuna, que compreendia inúmeros prédios e terrenos.
Mas, a sua bondade, levou-o muitas vezes, a distribuir a sua riqueza pelos mais necessitados que frequentemente lhe batiam à porta a pedir esmola. Outros, menos carenciados, pediam-lhe emprestado dinheiro para efectuarem um determinado negócio; e, quando o Senhor Constantino lhe ia pedir o retorno do dinheiro recusavam a sua entrega alegando que não havia nenhum documento de declaração de dívida, esqueciam que o apalavramento fazia “lei”.
Assim, ontem como hoje, os habilidosos e os agiotas, iguais aos de todos os tempos, com matreirices, roubaram-lhe muito da sua fortuna, como foi o caso dos bens que possuía em Terras de Vera Cruz.
O seu veículo automóvel estava sempre disponível para os mais pobres, nunca o negou para socorrer um doente ou qualquer pessoa necessitada.
Possuía, também, no lugar do Pinheiro, freguesia de Lanhoso, uma fábrica de serração e moagem.
No ano de 1918, com 26 anos de idade, o Senhor Constantino Maria Gonçalves Fernandes, casou com a Senhora Dona Laura das Dores Lopes, natural da freguesia de Fontarcada, com quem viria a ter sete filhos, 4 raparigas e 3 rapazes: 1-) Dr.ª Isaura Rosa Gonçalves Correia de Mesquita (Pediatra, e foi Directora da maternidade Júlio Dinis, no Porto), casou com Dr. José Guilherme Correia de Mesquita; 2-) Dr.ª Júlia Augusta Gonçalves Carneiro da Costa (Farmacêutica), quando esta acabou a sua formação universitária, seu progenitor, comprou a Farmácia Matos Vieira, na vila da Póvoa de Lanhoso, ao Dr. Manuel Inácio Matos Vieira[3], que ofereceu à recém-licenciada Júlia, que foi durante largos anos directora técnica, que viria a casar com o Dr. Severo Carneiro e Costa; 3-) Senhora Dona Almerinda Lopes Gonçalves Matos Cruz, casou com o Senhor Manuel Inácio Ávila de Matos Cruz (Industrial de ourivesaria); 4-) Dr.ª Fernanda Lopes Gonçalves (assistente social), casou com o Eng. António Pereira dos Santos; 5-) Eng. Fernando Abel Lopes Gonçalves (Engenheiro Electrotécnico), casou com a Dr.ª Maria Beatriz da Fonseca Gonçalves; 6-) Dr. Manuel Joaquim Gonçalves (Médico-obstetra, e foi Director de serviço de obstetrícia do Hospital de São Marcos, em Braga), casou com a Dr.ª Dalila Neto Rodrigues da Fonseca; 7-) e, o Senhor Carlos Alberto Gonçalves (funcionário de uma companhia de seguros), casou com a Senhora Maria Dolores da Costa Gonçalves.    
Sempre deu aos seus filhos uma educação e pedagogia esmerada, proporcionando-lhes estudar em escolas, colégios e universidades, o que para a época não era muito comum.
Vendo que na sua freguesia de Lanhoso, não tinha qualquer estabelecimento de ensino primário, compadeceu-se pela falta de instrução na sua própria terra e logo pensou e realizou, adquirindo um terreno, no qual mandou construir uma escola, equipando-a com os apetrechos necessários para as salas de aulas. Arranjou para o efeito, duas professoras, as Senhoras Donas Maria Mouta e Josefina Mouta.
Certo dia foi questionado: “porque não construiu a escola no lugar do Pinheiro, já que reside lá e tem 7 filhos?”, ao que respondeu: “os meus filhos têm roupa, sapatos e carro à disposição para os proteger das intempéries, ao contrário da maioria das crianças que vivem junto da escola onde foi construída ”. 
O edifício da escola, é presentemente, sede da Junta de Freguesia de Lanhoso,
Também, na freguesia de Lanhoso, doou a residência paroquial, isto para que o Pároco pudesse habitar junto dos seus paroquianos.
No lugar do Pinheiro, minou água e canalizou-a para um fontanário e um tanque que construiu e colocou à disposição dos mais pobres.
Foi um grande impulsionador e organizador da Festa do Senhor do Socorro, que ocorria todos os anos no dia 15 de Agosto, no lugar do Pinheiro.
Fez parte da Confraria de Nossa Senhora do Pilar, sendo mesário quando ocorreu uma festa levada a cabo pela referida confraria a Cristina de Bragança ou “Santa Cristina”, o que causou algum constrangimento junto da hierarquia da Igreja Católica [4]. Contudo, o Senhor Constantino foi um grande benemérito e acima de tudo um enorme devoto de Nossa Senhora do Pilar.
No associativismo, foi uma figura importante na fundação do “Sport Club Maria da Fonte”, ocupando também cargos na sua direcção; como também, foi seu benemérito[5].
No plano político, foi um homem de convicções fortes, Republicano assumido e democrata convicto, o que lhe trouxe grandes incómodos. Ao envolver-se na política acabou por perder parte da sua fortuna.
Assumiu, por diversas vezes, o cargo de vereador da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso[6].
Sendo um homem de inúmeros valores e de ideologias firmes, foi entre outros, um perseguido político durante muitos anos da sua vida, por alguns dos agentes locais afectos ao regime ditatorial, instalado em Portugal, apelidado de Estado Novo.
Foi diversas vezes acusado de ser um conspirador contra o regime do Estado Novo; como de ter enterrado junto da sua casa, munições e alguns componentes de artilharia. Tudo isto sem qualquer fundamento, não correspondendo com a realidade.
O Senhor Constantino, apenas limitava-se a dar protecção aos seus amigos, que eram acérrimos opositores ao Estado Novo; muitos desses amigos conheceu-os durante os sete anos em que prestou serviço militar. Assim, abria-lhes as portas da sua casa para lhe dar alimentação e guarida, como escondendo-os numa eira, sua propriedade, sita no lugar do Pinheiro.
Depois de pernoitarem no Pinheiro, eram transportados pelo Senhor Constantino, no seu veículo automóvel, antes do amanhecer, que os levava até à fronteira de Espanha.
Isto deveu-lhe a perseguição constante da PIDE, que muitas e muitas vezes, o foram buscar à sua casa, ficando preso em Braga; Porto; e, em Peniche. Quando a família o ia visitar ao presídio pedia que lhe trouxessem comida em abundância para distribuir pelos restantes presos políticos.
Quanto a sua passagem por Peniche podemos ler numa ficha criminal da PIDE o seguinte teor: “Encontra-se em Peniche desde 15 de Outubro de 1934. Preso em 17 de Fevereiro de 1934, à ordem do Tribunal Militar Especial. Condenado pelo referido Tribunal em 1 de Maio de 1934 na pena de 6 meses de prisão correcional, que já foi expiada com a prisão sofrida e igual tempo de multa à razão de 2 mil réis por dia[7].
Também, encontramos uma comunicação da Prisão de Peniche, como era da praxe, ao Chefe do Gabinete do Ministro do Interior, com a data de 7 de Janeiro de 1935, que nos relata o seguinte: “ Para conhecimento de Sua Ex.ª o Ministro do Interior, informo V.ª Ex.ª que ontem foram postos em liberdade, por ordem da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, os civis Constantino Maria Gonçalves Fernandes e Manuel de Sousa Guimarães, que se encontravam reclusos nesta Fortaleça[8].
Entre muitos, era no meio povoense, amigo de homens opositores ao regime do Estado Novo, entre quais Aureliano Abreu, Américo “Africano”, o Cabo Gaspar, o tipógrafo João Carvalho e o Dr. Custódio António da Silva, que foi presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, todos estes homens, foram perseguidos por defender ideias opostas ao regime vigente.   
Lamentavelmente, foi-lhe diagnosticado um grave cancro na laringe, que o levou à morte no dia 23 de Dezembro de 1955, na sua casa do lugar do Pinheiro. O seu funeral realizou-se no dia 24 de Dezembro de 1955, ao qual acorreu muita gente de todos os estratos sociais e das mais diversas localidades, sendo sepultado em jazigo de família no cemitério da freguesia de Geraz do Minho[9].
Como forma de gratidão, ao homem, que foi um pai para os pobres, um lutador pelo bem comum, as autarquias das freguesias de Lanhoso e Geraz do Minho[10], aquando das últimas alterações toponímicas aos lugares, perpetuaram o nome de Constantino Gonçalves, numa rua, no lugar do Pinheiro, junto da sua bela casa.
E tal, como nos canta o poeta, Miguel Torga que, “A pura glória tem, A humildade singeleza do teu nome. E cresce eternamente, Como um caule imortal…[11]. Com isto, concluímos que com todo este percurso terreno e exemplo de vida, o nome do Senhor Constantino Maria Gonçalves Fernandes ficará perpetuado e imortalizado nas páginas de ouro das Terras de Lanhoso[12].

Sérgio Machado


[1] Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro – Ensaio, Quetzal, Lisboa, 2010, p. 16.

[2] Cfr. Arquivo Distrital de Braga, Fundos Paroquiais da Póvoa de Lanhoso, paróquia de São Tiago de Lanhoso, Assento de Baptismo n.º 5, do ano de 1892, livro n.º 505, 1890-1898, fl.32 e 32v.

[3] Vide Padre Manuel Magalhães dos Santos, Monografia da Póvoa de Lanhoso – Nossa Senhora do Amparo – Jubileus 1990, Edição do autor, Braga, 1993, p. 104 e ss..

[4] Sobre o caso e a festa de Cristina de Bragança, Vide Padre Manuel Magalhães dos Santos, op. cit., p. 254 e ss.. José Abílio Coelho, Paixão Bastos (1870-1947) – Vida e Obra de um Escritor de Província, Edição do Jornal Terras de Lanhoso, Póvoa de Lanhoso, 2007, p. 44 e ss..; também, José Abílio Coelho, “O caso “Cristina de Bragança” ou de como as elites povoenses se viram interditadas pelo arcebispo de Braga”, in Quiosque de História, disponível em: http://quiosquedaruadafeira.blogspot.pt/2012/06/o-caso-cristina-de-braganca-ou-de-como.html

[5] Cfr. José Bento da Silva, Sport Club Maria da Fonte – Uma História com Amor, Edição do autor, Póvoa de Lanhoso, 2001, pp. 35 e ss., 55 e 191

[6] Cfr. Padre Manuel Magalhães dos Santos, op. cit., p. 875 e ss..

[7] Cfr. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, livro 2, registo n.º 212.

[8] Cfr. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ministério do Interior, Gabinete do Ministro, Mç. 475, [pt. 26/6].

[9] Foi com grande tristeza que, a imprensa local deu conta do falecimento do Senhor Constantino Maria Gonçalves Fernandes, assim, deixamos nota desses jornais: “Póvoa de Lanhoso” de 24 e 31 de Dezembro de 1955; “Maria da Fonte” de 25 de Dezembro de 1955 e de 08 de Janeiro de 1956.

[10] É de salientar que, o lugar do Pinheiro, é composto por duas partes:  uma parte que pertence à freguesia de Lanhoso e outra à freguesia de Geraz do Minho. Ora, as casas que se situam na Rua Constantino Gonçalves, do lado esquerdo, são de Lanhoso, as do lado direito, são de Geraz do Minho (isto no sentido da estrada Braga/Chaves).

[11] Miguel Torga, Poesia Completa, Volume II, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2007, p. 353.


[12] Na elaboração deste texto tivemos em conta as informações verbais que nos foram facultadas pela família, nomeadamente, nas pessoas da Senhora Dona Almerinda Lopes Gonçalves de Matos Cruz, da Senhora Dona Maria Manuela Gonçalves de Matos Cruz, e do Senhor Dr. José Manuel Gonçalves de Matos Cruz, a quem agradecemos, sobremaneira, pela simpatia e disposição demonstradas.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Adelino Rebelo Pinto Bastos (1883-1968) – Subdelegado de saúde, médico do Partido da Câmara e primeiro director clínico do Hospital da Póvoa de Lanhoso


Dr. Adelino Pinto Bastos
Adelino Rebelo Pinto Bastos nasceu a 1 de Novembro de 1883, na casa de Passal, em São Romão de Arões, concelho de Fafe. Era filho de João Pinto Bastos e de D. Isabel Alves de Oliveira Bastos.
Fez estudos preparatórios no Convento da Costa, em Guimarães, transitando depois para o Porto, para aí dar continuidade à sua vida académica. Como o aprovei-tamento não fosse compatível com o que os seus tios e padrinhos, que lhe custeavam os estudos, pretendiam, resolveram mandá-lo para a Universidade de Coimbra no ano escolar seguinte. Formou-se em medicina na cidade do Mondego, tendo concluído o seu curso em 15 de Julho de 1909.
Ao sair de Coimbra foi instalar-se em Oliveira do Douro, onde exerceu clínica. Pouco tempo depois, viria residir na Póvoa de Lanhoso, concelho vizinho do seu município natal. Foi facultativo do Partido da Câmara, admitido em 3 de Novembro de 1915, para o 2º Partido, com o ordenado de 300$00 anuais pagos em duodécimos, e ficando a cobrir a área que englobava as freguesias de Santo Emilião, Campo, Louredo, Vilela, Garfe, Taíde, Goma, Esperança, Brunhais, Travassos, Oliveira, Fontarcada, Campo, Serzedelo e sede do concelho, onde residia no Largo António Lopes[1].
Subinspector de saúde concelhio, cargo para o qual foi nomeada pela câmara em 28 de Abril de 1917, e primeiro director-clínico do Hospital António Lopes a partir de 5 de Setembro do mesmo ano, manteve uma estreita amizade com o fundador daquele estabelecimento de saúde. Foi um dos primeiros médicos do interior a instalar-se em Lisboa durante dois meses, a expensas do benemérito povoense, para ali se afeiçoar à utilização do Raio-X, dado António Lopes ter dotado o seu hospital de um desses aparelhos em 1922, aproveitando a estada na capital para se especializar em cirurgia no Hospital de Santa Maria.
Em 22 de Fevereiro de 1919, e na sequência do empenho demonstrado no combate à “pneumónica”, doença que, no ano anterior, varrera todo o concelho da Póvoa de Lanhoso, causando centenas de mortes, a câmara municipal lavrou em acta um louvor ao Dr. Adelino Pinto Bastos, “pela sua integridade de carácter, pelos seus bons serviços clínicos prestados ao Concelho, principalmente no tempo da última epidemia e, ainda, pelas suas convicções republicanas”.
A 23 de Abril de 1927, Adelino Pinto Bastos viria a casar-se, na Póvoa de Lanhoso, com D. Carmen Branca de Vasconcelos Rocha, oriunda de uma família de Ponte de Lima mas que há muito vivia nesta vila com um seu tio, o contador municipal Henrique Vasconcelos Rocha[2]. Na nota publicada aquando do seu casamento, dizia-se no semanário local Maria da Fonte: “O Dr. Adelino Pinto Bastos é médico carinhoso e dedicado, a competência ilustre, a consciência recta, que tantas e tantas vezes nos é dado admirar. Senhor de vastíssima erudição, visitante assíduo dos mais altos píncaros da sciencia, de bondade inata, possuindo um altruísmo formado ao influxo duma religião de bem, soube granjear a simpatia da nossa melhor sociedade que justamente o venera, e se alguns inimigos tem isso deve-se à pouca compreensão das suas ideias sãs”. O casal viria a ter quatro filhos: Maria Carmen, Irene, João e Isabel Pinto Bastos.
A ditadura militar implantada em Portugal a 28 de Maio de 1926 veio causar graves conflitos pessoais e políticos também em terras mais pequenas. O Dr. Adelino Pinto Bastos, Republicano convicto, como fora reconhecido pela própria câmara municipal da época, passou, nessa altura, a ser alvo de graves atritos e de perseguição por parte do “novo poder”. Levado aos tribunais sucessivas vezes por alegado abuso de liberdade de imprensa, acabaria por ser expulso de todas as funções públicas que exercia. Em permanente conflito com os representantes locais do Estado Novo, que sempre afrontou com espírito democrático, acabou, em Outubro de 1936, por abandonar definitivamente a Póvoa de Lanhoso, radicando-se no seu concelho natal, Fafe, onde abriu consultório e exerceu clínica durante mais cerca de três décadas[3]. Em Fafe, porém, por razões políticas, também lhe viriam a ser fechadas todas as portas para que pudesse exercer medicina em estabelecimentos oficiais. Por necessidade, e dado que o consultório não lhe facultava o necessário para dar à família uma vida digna, leccionou línguas no externato da cidade e viveu do fruto de algumas propriedades que recebera dos tios avós, entre as quais se encontrava a quinta de Abadões, em Antime, ainda em posse da família.
Segundo Maria Miquelina Summavielle, em Fafe, Pinto Bastos “destacou-se pela sua rara inteligência e pela entrega às causas culturais, tendo tido valiosa contribuição para a resolução dos problemas surgidos aquando das escavações arqueológicas no castro de Santo Ovídeo. Falava correctamente francês e inglês, dominando também magistralmente o esperanto. Seduziam-no os valores do espírito que era imortal, em oposição a uma matéria que desaparecia, que se decompunha. Problemas filosóficos e teológicos sobre o espiritismo eram para ele motivo de aprofundado estudo e reflexão”[4].
Adelino Pinto Bastos viria a falecer na sua residência da rua de Trindade Coelho, em Fafe, aos 84 anos de idade, em 1968. “Crítico lucido dos grandes problemas sociais, que o levaram a militar desde muito novo na Democracia, a toda a hora os examinou com feição antidogmática e inconformista, sempre generoso e sempre sonhador, pelo que se tornou figura de querida de todos os que puderam contactar com a subtileza da sua privilegiada inteligência e a sua tolerância e bondade”, escreveu o Comércio do Porto no seu obituário[5]. Também o semanário local Maria da Fonte, relembrando que fora subdelegado de saúde na Póvoa de Lanhoso e médico do Hospital António Lopes, o recordou na sua morte, afirmando-o “homem impoluto, de espírito cintilante e de vasta cultura”, um liberal que por isso sofreu inúmeros dissabores e sacrifícios[6].

José Abílio Coelho




[1] Arquivo Municipal da Póvoa de Lanhoso, Livro de actas da câmara, nº 20, fl. 87.
[2] Cf. Jornal Maria da Fonte, de 24 de Abril de 1927, p. 2.
[3] Cf. Jornal Maria da Fonte, nº 3 (6ª série), de 1 de Novembro de 1936, p. 2
[4] Summavielle, Maria Miquelina, Recordando, (organização Artur F. Coimbra), Fafe, 1997, pp.
[5] Cf. O Comércio do Porto, de 31 de Janeiro de 1968.
[6] Cf. Jornal Maria da Fonte, nº 81 (20ª série), de 3 de Fevereiro de 1968, p. 2.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Fernando António Pinto de Miranda, Visconde de Taíde (1830-1910): Benemérito




Visconde de Taíde
Fernando António Pinto de Miranda nasceu na freguesia de Taíde, concelho da Póvoa de Lanhoso, no dia 20 de Outubro de 1830. Era filho legítimo de Fernando António Pinto de Miranda e de sua mulher D. Joana Maria de Magalhães Miranda, ambos moradores, à época do nascimento da criança, no lugar de Porto [d’Ave] da mesma freguesia.
Com poucos anos foi residir em Guimarães, onde iniciou estudos, acompanhado de perto pelo pai que o queria destinado à carreira eclesiástica. Mas cedo o jovem se manifestou, negando ser esse o caminho que queria para si. Declarou, antes, que pretendia seguir carreira no comércio, de preferência no Brasil onde outros patrícios vinham tendo sucessos por todos comentados. Convencido o pai, saiu da barra do Douro com apenas 13 anos de idade.
Foram terrivelmente ásperos os primeiros anos da sua permanência no Brasil. “Sofreu tudo quanto pode sofrer uma alma ingénua”: amargas decepções, desenganos dolorosos, pesados sacrifícios. Mas a sorte nunca o abandonou e, juntando esta ao seu querer, à sua teimosia saudável, lutou sempre contra as dificuldades até que o êxito comercial começou a sorrir-lhe. De tal forma que, aos 20 anos de idade, acreditando em si e nas suas competências, estabeleceu-se por conta própria na Rua do Hospício, entrando de sócio na Casa Estevam José Gomes & C.ª cuja gestão rapidamente assumiu. O seu nome firmou-se rapidamente na praça comercial do Rio de Janeiro e, ainda não contava trinta anos, era já apontado como um exemplo de amor ao trabalho e de honestidade pessoal.
Tendo saído de Guimarães com uma formação já algo interessante, sabendo, nomeadamente, rudimentos de latim, aproveitou as horas menos ocupados para se dedicar a aprender contabilidade, mas também línguas, tendo com os anos vindo a tornar-se um verdadeiro poliglota.
Desconhecemos a data em que se casou, no Rio de Janeiro, com D. Maria da Conceição de Oliveira e Costa, que viria a ser a 1ª viscondessa do mesmo título. Segundo crónica da época, “foi uma senhora distinctissima, herdeira das virtudes e dos sentimentos nobres legados por seus progenitores”, e faleceu em 1901, no Rio de Janeiro.
Em 1902, já viúvo, Fernando António Pinto de Miranda completou seis décadas de serviço activo no Brasil. Tinha 72 de idade. Decidiu então que havia chegado a hora de aproveitar os frutos que, ao longo de sessenta anos de intenso batalhar havia conseguido colher do imenso terreno que cultivara. Desligou-se da vida empresarial para tomar rumo a Portugal.
Não era a primeira vez que viajava para a Europa. Numa das muitas viagens de trabalho que o trouxeram ao velho continente, em 1891, o rei D. Carlos outorgou-lhe o título de visconde de Taíde. Para legenda do seu brasão, adoptou a máxima que seguira durante toda a sua vida: “Fide in Deo sic labor improbus omnia vincint”. A fé em Deus e o labor incansável que o fizeram vencer, permitiam-lhe agora regressar, definitivamente à sua pátria.
Quando, em 1902, regressou a Portugal, já viúvo da sua primeira esposa, Fernando António Pinto de Miranda não esqueceu a pequenina aldeia onde nascera e, após uma visita ao templo onde fora baptizado que o emocionou pela pobreza em que se encontrava, decidiu construir uma nova igreja, na qual investiu mais de vinte contos de reis – uma pequena fortuna à época, tendo como referência o edifício do Theatro Club da Póvoa de Lanhoso que, construído na mesma altura, custou oito contos.
Em Fevereiro de 1904, o visconde viria a casar-se, em segundas núpcias, com D. Augusta Salema Garção Ribeiro de Araújo, residente em Viana do Castelo mas nascida, filha de portugueses, no Rio de Janeiro e senhora “dotada de excelentes qualidades e duma esmerada educação”.
A igreja de Taíde viria a ser inaugurada no dia 6 de Outubro de 1904, uma quinta-feira. Ao acto solene, que se verificou no mesmo dia em que ali foi ruidosamente festejada a imagem de São Miguel, fez sermão o padre Alberto Monteiro, de Rendufinho, encontrando-se ausente o benemérito que a custeou.
Depois do seu regresso a Portugal, em 1902, o visconde de Taíde viajava muito por toda a Europa. Foi, aliás, numa dessas viagens que viria a falecer, em Sevilha (Espanha), em Março de 1910 - tinha 79 anos de idade.
Dona Augusta Salema Garção Ribeiro de Araújo, a segunda viscondessa de Taíde, instalar-se-ia em Lisboa, onde viria a falecer a 11 de Janeiro de 1943.

 José Abílio Coelho  

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O link infra, breve reportagem de 13 minutos sobre o bairro do Cosme Velho, onde o visconde de Taíde habitou e onde se pode ver a sua antiga casa, com suas palmeiras e jardins. No mesmo bairro, morou o grande escritor Machado de Assis, com quem Fernando Miranda terá tido contactos. Diz-se que terá sido nos jardins da casa de Visconde de Taíde que Machado se casou. Vale a pena ver a reportagem:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1240882-em-filme-psicanalista-registra-ultimas-imagens-de-casaroes-do-cosme-velho-veja.shtml