segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Lino António Vieira de Brito (1829 – 1911) - Benemérito


Lino António Vieira e Brito
Lino António Vieira de Brito, nasceu na freguesia de Frades, concelho da Póvoa de Lanhoso, no dia 7 de Julho de 1829, filho de Domingos Vieira de Brito e Josefa Vieira Ribeira; neto paterno de António Luís Vieira de Brito e Teresa Maria, da freguesia de Frades; neto materno de José Gonçalves e Ana Vieira Ribeira, da freguesia de Rendufinho. Recebeu o sacramento do baptismo, pelo reverendo padre Francisco José Ribeiro, no dia 12 de Julho de 1829, na igreja paroquial de Santo André de Frades, com o nome de Lino António, sendo padrinhos os seus tios Manuel António Fernandes e mulher Maria Joana, do lugar de Agra, freguesia de Rossas[1].
Da sua infância e juventude nada sabemos. Sabe-se que, como tantos outros, na sua época, partiu um dia para o Brasil para melhorar a vida em terras de além-mar, mundo para ele, provavelmente, desconhecido, mas apetitoso para tentar a sua sorte.
Quanto à sua ida e regresso do Brasil, apenas encontrámos um registo no Livro de Registos de Passaporte, com a seguinte descrição: “Lino António Vieira de Brito, 21/07/1886, solteiro, filho de Domingos Vieira de Brito, natural de Santo André de Frades, 57 anos de idade, destino Rio de Janeiro, observações: – regressa[2].
Foi com a sua vinda do Brasil que se tornou um benemérito da sua aldeia natal, nomeadamente, da capela de São Mamede, no cimo da montanha de Penafiel (também conhecido por monte de São Mamede), na freguesia de Frades.
Como era comum ao seu tempo, os ricos “brasileiros”, que alcançavam fortuna, em terras de Vera Cruz, tinham acções de benemerência e beneficência abnegada para com as suas terras natais[3].
Assim, Lino António Vieira de Brito foi também um “brasileiro” que não se esqueceu da sua freguesia de Santo André de Frades. Talvez por sua influência, reconstruiu-se uma velha ermida, que se encontrava em ruínas no alto da montanha de Penafiel (monte de São Mamede).  
Deste modo, podemos encontrar hoje, na capela do Mártir São Mamede, uma lápide de mármore que nos diz:

O Benfeitor Lino António Vieira de Brito, da Casa da Torre, d´esta freguesia de Frades, mandou fazer a capella mor deste Sanctoário, começaram as obras a 10 de Setembro de 1906 e acabaram a 10 de Julho de 1907.

A inauguração e bênção deste novo templo ocorreu durante a romaria de São Mamede, no dia 17 de Agosto de 1907.
Inicialmente, com a reconstrução deste novo templo, era propósito construir uma capela com uma dimensão muito superior à actual; pois, segundo o projecto primitivo, o corpo da capela que hoje temos seria a capela-mor.
Ora, como o dinheiro era escasso a capela manteve-se com a sua traça original durante várias décadas, sendo concluída nos finais dos anos 1950 e inícios da década de 1960, com a construção da actual capela-mor[4].
O benemérito, Lino António Vieira de Brito, não se casou, mas deixou descendência.
No seu testamento reconhece como seus filhos legítimos, Arminda Rosa da Costa, que casou para a freguesia de Covelas, com Manuel Ramos de Barros Pereira; e, Emílio António Vieira de Brito. No mesmo testamento, não se esquece da sua freguesia, contemplando com cinquenta mil réis a Junta da Paróquia da freguesia de Frades, para obras ou reparos na capela de São Mamede[5].
Contudo, podemos encontrar referência ao legado de Lino António Vieira de Brito no livro de lançamento de contas da Junta da Paróquia da freguesia de Frades, no ano de 1913, sob o artigo 3.º que menciona: “Recebeu-se o legado deixado por falecimento de Lino António Vieira de Brito - 50$00[6]
Faleceu em 17 de Fevereiro de 1911, numa casa no lugar da Rua, na freguesia de Frades[7].

Sérgio Machado


[1] Cfr. Arquivo Distrital de Braga, Fundos Paroquiais da Póvoa de Lanhoso, Paróquia de Santo André de Frades, livro n.º 99, Misto, N.º 1808-1857, C.º 1809-1859, fl. 26v.
[2] Cfr. Arquivo Distrital de Braga, Base de dados do Livro de Registos de Passaporte, n.º 367.
[3] Sobre o papel dos emigrantes portugueses que regressavam do Brasil, em Portugal, apelidados no século XIX, por “brasileiros”, entre outros estudos, vide Maria Marta Lobo Araújo; Alexandra Esteves; José Abílio Coelho, Renato Franco, Os Brasileiros Enquanto Agentes de Mudança: Poder e Assistência, CITCEM/Fundação Getúlio Vargas, Braga/Rio de Janeiro, 2013. 
[4] Para uma abordagem histórica acerca das capelas do cimo da montanha de Penafiel (Monte de São Mamede), como dos seus envolventes vide o nosso, Subindo o Monte de Penafiel de Soaz Ao Encontro de São Mamede, Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, Póvoa de Lanhoso, 2006.
[5] Cfr. Arquivo Distrital de Braga, Inventários Orfanológicos da Póvoa de Lanhoso, Processo n.º 3447, 1911, fl. 4.
[6] Cfr. Arquivo da Junta de Freguesia de Frades, Livro de Lançamento de Contas da Junta da Paróquia da freguesia de Frades, anos de 1881 a1918, fl. 36 v.; podemos encontrar no mesmo Arquivo um pequeno conjunto de folhas intitulado por: Orçamento – 1.º Suplementar da receita e despesa da Junta da Paróquia da freguesia de Frades, ano 1913; constando como receita o seguinte: “Legado deixado à Junta da Paróquia desta freguesia por falecimento Lino António Vieira de Brito para obras da capela de São Mamede”.  
[7] Cfr. Arquivo Distrital de Braga, Fundos Paroquiais da Póvoa de Lanhoso, Paróquia de Santo André de Frades, livro n.º 437, Misto, 1911, fl. 1.

domingo, 26 de maio de 2013

Alcindo José Antunes (1932-2013) – Médico, político e dirigente associativo


Dr. Alcindo Antunes
Alcindo José Antunes nasceu na freguesia de Rendufinho, concelho da Póvoa de Lanhoso, no dia 16 de Dezembro de 1932. Era filho de António José Antunes e Ana Ermelinda Rodrigues, um casal de proprietários agrícolas, que teve mais dois filhos: José Rodrigues Antunes (que viria a formar-se estomatologista) e Maria Alice Rodrigues Antunes da Silva.
O percurso académico de Alcindo José Antunes passou pela frequência da escolaridade primária de S. Vítor, em Braga, cidade onde depois, no Liceu Nacional de Sá de Miranda, concluiu o curso liceal “com excelentes classificações”.
Viria a licenciar-se em medicina pela faculdade de medicina do Porto em 1957, quando tinha apenas 25 anos de idade.
De 1958 a 1960 o Dr. Alcindo Antunes prestou serviço militar como oficial médico nos quartéis de Mafra e de Santa Margarida, vindo ainda a realizar duas comissões de serviço em Angola, como tenente, entre 1960 e 1963.
A sua vida associativa ficou marcada essencialmente pelo facto de ter sido presidente da direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Póvoa de Lanhoso (AHBVPL), cargo para o qual foi indigitado em 1960, mas logo interrompido pelo serviço militar. Voltou e assumiu a liderança da direção da AHBVPL entre 20 de Abril de 1964 e 1975. Foi também presidente da mesa da assembleia geral do Sport Club Maria da Fonte, entre 1964 e 1967. Ficou, assim, ligado a duas das principais instituições associativas da Póvoa de Lanhoso.
No plano político o Dr. Alcindo Antunes exerceu funções de vice-presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso no período de 11 de Dezembro de 1970 a 22 de Setembro de 1972, tendo vindo a ser presidente em exercício de 22 de Setembro de 1972, após o falecimento do presidente engenheiro Armando Rodrigues, até 16 de Junho de 1973.
Apesar dos cargos honrosos que desempenhou na câmara e nas referidas associações, o que mais distinguiu o Dr. Alcindo Antunes foi o reconhecimento como médico na Póvoa de Lanhoso, onde se tornou enormemente conhecido a par de alguns outros distintos clínicos como o Dr. António Oliveira, Dr. Albino José da Silva, Dr. José Almeida Faria. Estabeleceu-se como médico com consultório logo em 1957, passando pouco depois a fazer parte do quadro clínico do Hospital António Lopes. Possuiu consultório médico na vila da Póvoa de Lanhoso, no Largo do Amparo, e a partir de 1969 na sua residência na Rua do Capitão Tinoco de Faria, e, em meados de 80 numa clínica no centro da vila.
Passou a residiri residir para Braga entre 1984, cidade onde viria a falecer em 25 de Abril de 2013.
Foi casado com a Dr.ª Olinda Ribeiro Antunes, primeira directora do ciclo preparatório Prof. Gonçalo Sampaio da Póvoa de Lanhoso, onde lecionou a cadeira de ciências sociais até se aposentar.

Lúcio Pinto

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Constantino Maria Gonçalves Fernandes (1892 – 1955) - Proprietário, Industrial, Benemérito, Perseguido Político


Constantino Maria Gonçalves Fernandes
Tendo presente as palavras do escritor e ensaísta Vergílio Ferreira, que refere: “a vida está cheia do seu dom original e só espera de nós um pouco de atenção, não bem de atenção, não bem de atenção: um pouco de humildade, de uma íntima nudez[1].
Parafraseando a ideia do escritor e ensaísta com a própria vida de Constantino Maria Gonçalves Fernandes, constatamos, inequivocamente, a sua generosidade, simplicidade humildade e uma íntima nudez de desprendimento pelos bens materiais.
Assim, gozou de grande carinho e simpatia no seio da sociedade povoense, pois foi um bom amigo dos pobres, dos mais frágeis e vulneráveis, amigo do seu amigo, sendo tratado e conhecido com estima por “Constantininho do Pinheiro”.
Nasceu no lugar do Pinheiro, freguesia de Lanhoso, concelho da Póvoa de Lanhoso, aos 22 de Janeiro de 1892, filho de Manuel Joaquim Gonçalves, natural da freguesia de Cantelães, concelho de Vieira do Minho, e de Rosa Joaquina Fernandes, natural da freguesia de Geraz do Minho; neto paterno de José Bento Gonçalves e Teresa Maria Rebelo; e materno de Manuel José Fernandes e Antónia Margarida de Freitas. Recebeu o Sacramento do Baptismo, no dia 24 de Janeiro de 1892, pelo Pároco da paróquia de São Tiago de Lanhoso, Reverendo Padre David José da Silva, sendo padrinhos de Baptismo Constantino José Fernandes e Maria Joaquina Fernandes[2].
Seus pais, como agradecimento divino, pelo nascimento do seu único filho, pois a Senhora Dona Rosa Joaquina Fernandes deu à luz já em idade um pouco avançada e em gratidão pelo dom da vida do seu filho, erigiram um nicho em homenagem à Nossa Senhora das Graças, no lugar do Pinheiro.
Este nicho, ainda se encontra, no lugar do Pinheiro, junto da estrada nacional 205, em direcção à vila da Póvoa de Lanhoso, com a seguinte inscrição: “Devoção que teve Manoel Joaquim Gonçalves e sua mulher Rosa Joaquina Fernandes – Anno 1892”.
Apesar do nicho não manter a sua traça original, pois a imagem de Nossa Senhora das Graças, foi substituída por painéis de azulejos, e foi guardada na capela do Senhor do Socorro, por cautela da “mão alheia”, que ainda hoje encontramos na referida capela.
 Esta linda capelinha foi construída pela sua família e posteriormente doada ao povo do lugar do Pinheiro.
O Senhor Constantino era devoto e nutria muita estima pela imagem de Nossa Senhora das Graças, pois salientava sempre que esta imagem era a sua irmã “gémea”, por ter sido colocada no mencionado nicho após o seu nascimento.
A sua infância foi passada no Lugar do Pinheiro, onde sempre habitou. Alguns anos depois, o Senhor Constantino, mandou construir no referido lugar do Pinheiro, no local de uma antiga casa de família, a belíssima casa “cor-de-rosa”, em que a direcção dos trabalhos dessa empreitada, esteve sob alçada e responsabilidade do conceituado construtor civil Senhor Luís Pinto da Silva.
Os seus estudos literários foram obtidos num colégio, na cidade de Braga.
 Após a sua infância e adolescência, ingressou no serviço militar, durante 7 anos, percorrendo de norte a sul todos os quartéis militares existentes na altura. Durante este período, conheceu muitos homens que, anos mais tarde, viriam a ser opositores ao regime do Estado Novo.
Era proprietário de um vasto conjunto de terras invejáveis, umas que herdou da sua família e outras foram por si adquiridas. Herdou também dos seus tios, que se encontravam emigrados no Brasil, grande fortuna, que compreendia inúmeros prédios e terrenos.
Mas, a sua bondade, levou-o muitas vezes, a distribuir a sua riqueza pelos mais necessitados que frequentemente lhe batiam à porta a pedir esmola. Outros, menos carenciados, pediam-lhe emprestado dinheiro para efectuarem um determinado negócio; e, quando o Senhor Constantino lhe ia pedir o retorno do dinheiro recusavam a sua entrega alegando que não havia nenhum documento de declaração de dívida, esqueciam que o apalavramento fazia “lei”.
Assim, ontem como hoje, os habilidosos e os agiotas, iguais aos de todos os tempos, com matreirices, roubaram-lhe muito da sua fortuna, como foi o caso dos bens que possuía em Terras de Vera Cruz.
O seu veículo automóvel estava sempre disponível para os mais pobres, nunca o negou para socorrer um doente ou qualquer pessoa necessitada.
Possuía, também, no lugar do Pinheiro, freguesia de Lanhoso, uma fábrica de serração e moagem.
No ano de 1918, com 26 anos de idade, o Senhor Constantino Maria Gonçalves Fernandes, casou com a Senhora Dona Laura das Dores Lopes, natural da freguesia de Fontarcada, com quem viria a ter sete filhos, 4 raparigas e 3 rapazes: 1-) Dr.ª Isaura Rosa Gonçalves Correia de Mesquita (Pediatra, e foi Directora da maternidade Júlio Dinis, no Porto), casou com Dr. José Guilherme Correia de Mesquita; 2-) Dr.ª Júlia Augusta Gonçalves Carneiro da Costa (Farmacêutica), quando esta acabou a sua formação universitária, seu progenitor, comprou a Farmácia Matos Vieira, na vila da Póvoa de Lanhoso, ao Dr. Manuel Inácio Matos Vieira[3], que ofereceu à recém-licenciada Júlia, que foi durante largos anos directora técnica, que viria a casar com o Dr. Severo Carneiro e Costa; 3-) Senhora Dona Almerinda Lopes Gonçalves Matos Cruz, casou com o Senhor Manuel Inácio Ávila de Matos Cruz (Industrial de ourivesaria); 4-) Dr.ª Fernanda Lopes Gonçalves (assistente social), casou com o Eng. António Pereira dos Santos; 5-) Eng. Fernando Abel Lopes Gonçalves (Engenheiro Electrotécnico), casou com a Dr.ª Maria Beatriz da Fonseca Gonçalves; 6-) Dr. Manuel Joaquim Gonçalves (Médico-obstetra, e foi Director de serviço de obstetrícia do Hospital de São Marcos, em Braga), casou com a Dr.ª Dalila Neto Rodrigues da Fonseca; 7-) e, o Senhor Carlos Alberto Gonçalves (funcionário de uma companhia de seguros), casou com a Senhora Maria Dolores da Costa Gonçalves.    
Sempre deu aos seus filhos uma educação e pedagogia esmerada, proporcionando-lhes estudar em escolas, colégios e universidades, o que para a época não era muito comum.
Vendo que na sua freguesia de Lanhoso, não tinha qualquer estabelecimento de ensino primário, compadeceu-se pela falta de instrução na sua própria terra e logo pensou e realizou, adquirindo um terreno, no qual mandou construir uma escola, equipando-a com os apetrechos necessários para as salas de aulas. Arranjou para o efeito, duas professoras, as Senhoras Donas Maria Mouta e Josefina Mouta.
Certo dia foi questionado: “porque não construiu a escola no lugar do Pinheiro, já que reside lá e tem 7 filhos?”, ao que respondeu: “os meus filhos têm roupa, sapatos e carro à disposição para os proteger das intempéries, ao contrário da maioria das crianças que vivem junto da escola onde foi construída ”. 
O edifício da escola, é presentemente, sede da Junta de Freguesia de Lanhoso,
Também, na freguesia de Lanhoso, doou a residência paroquial, isto para que o Pároco pudesse habitar junto dos seus paroquianos.
No lugar do Pinheiro, minou água e canalizou-a para um fontanário e um tanque que construiu e colocou à disposição dos mais pobres.
Foi um grande impulsionador e organizador da Festa do Senhor do Socorro, que ocorria todos os anos no dia 15 de Agosto, no lugar do Pinheiro.
Fez parte da Confraria de Nossa Senhora do Pilar, sendo mesário quando ocorreu uma festa levada a cabo pela referida confraria a Cristina de Bragança ou “Santa Cristina”, o que causou algum constrangimento junto da hierarquia da Igreja Católica [4]. Contudo, o Senhor Constantino foi um grande benemérito e acima de tudo um enorme devoto de Nossa Senhora do Pilar.
No associativismo, foi uma figura importante na fundação do “Sport Club Maria da Fonte”, ocupando também cargos na sua direcção; como também, foi seu benemérito[5].
No plano político, foi um homem de convicções fortes, Republicano assumido e democrata convicto, o que lhe trouxe grandes incómodos. Ao envolver-se na política acabou por perder parte da sua fortuna.
Assumiu, por diversas vezes, o cargo de vereador da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso[6].
Sendo um homem de inúmeros valores e de ideologias firmes, foi entre outros, um perseguido político durante muitos anos da sua vida, por alguns dos agentes locais afectos ao regime ditatorial, instalado em Portugal, apelidado de Estado Novo.
Foi diversas vezes acusado de ser um conspirador contra o regime do Estado Novo; como de ter enterrado junto da sua casa, munições e alguns componentes de artilharia. Tudo isto sem qualquer fundamento, não correspondendo com a realidade.
O Senhor Constantino, apenas limitava-se a dar protecção aos seus amigos, que eram acérrimos opositores ao Estado Novo; muitos desses amigos conheceu-os durante os sete anos em que prestou serviço militar. Assim, abria-lhes as portas da sua casa para lhe dar alimentação e guarida, como escondendo-os numa eira, sua propriedade, sita no lugar do Pinheiro.
Depois de pernoitarem no Pinheiro, eram transportados pelo Senhor Constantino, no seu veículo automóvel, antes do amanhecer, que os levava até à fronteira de Espanha.
Isto deveu-lhe a perseguição constante da PIDE, que muitas e muitas vezes, o foram buscar à sua casa, ficando preso em Braga; Porto; e, em Peniche. Quando a família o ia visitar ao presídio pedia que lhe trouxessem comida em abundância para distribuir pelos restantes presos políticos.
Quanto a sua passagem por Peniche podemos ler numa ficha criminal da PIDE o seguinte teor: “Encontra-se em Peniche desde 15 de Outubro de 1934. Preso em 17 de Fevereiro de 1934, à ordem do Tribunal Militar Especial. Condenado pelo referido Tribunal em 1 de Maio de 1934 na pena de 6 meses de prisão correcional, que já foi expiada com a prisão sofrida e igual tempo de multa à razão de 2 mil réis por dia[7].
Também, encontramos uma comunicação da Prisão de Peniche, como era da praxe, ao Chefe do Gabinete do Ministro do Interior, com a data de 7 de Janeiro de 1935, que nos relata o seguinte: “ Para conhecimento de Sua Ex.ª o Ministro do Interior, informo V.ª Ex.ª que ontem foram postos em liberdade, por ordem da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, os civis Constantino Maria Gonçalves Fernandes e Manuel de Sousa Guimarães, que se encontravam reclusos nesta Fortaleça[8].
Entre muitos, era no meio povoense, amigo de homens opositores ao regime do Estado Novo, entre quais Aureliano Abreu, Américo “Africano”, o Cabo Gaspar, o tipógrafo João Carvalho e o Dr. Custódio António da Silva, que foi presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, todos estes homens, foram perseguidos por defender ideias opostas ao regime vigente.   
Lamentavelmente, foi-lhe diagnosticado um grave cancro na laringe, que o levou à morte no dia 23 de Dezembro de 1955, na sua casa do lugar do Pinheiro. O seu funeral realizou-se no dia 24 de Dezembro de 1955, ao qual acorreu muita gente de todos os estratos sociais e das mais diversas localidades, sendo sepultado em jazigo de família no cemitério da freguesia de Geraz do Minho[9].
Como forma de gratidão, ao homem, que foi um pai para os pobres, um lutador pelo bem comum, as autarquias das freguesias de Lanhoso e Geraz do Minho[10], aquando das últimas alterações toponímicas aos lugares, perpetuaram o nome de Constantino Gonçalves, numa rua, no lugar do Pinheiro, junto da sua bela casa.
E tal, como nos canta o poeta, Miguel Torga que, “A pura glória tem, A humildade singeleza do teu nome. E cresce eternamente, Como um caule imortal…[11]. Com isto, concluímos que com todo este percurso terreno e exemplo de vida, o nome do Senhor Constantino Maria Gonçalves Fernandes ficará perpetuado e imortalizado nas páginas de ouro das Terras de Lanhoso[12].

Sérgio Machado


[1] Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro – Ensaio, Quetzal, Lisboa, 2010, p. 16.

[2] Cfr. Arquivo Distrital de Braga, Fundos Paroquiais da Póvoa de Lanhoso, paróquia de São Tiago de Lanhoso, Assento de Baptismo n.º 5, do ano de 1892, livro n.º 505, 1890-1898, fl.32 e 32v.

[3] Vide Padre Manuel Magalhães dos Santos, Monografia da Póvoa de Lanhoso – Nossa Senhora do Amparo – Jubileus 1990, Edição do autor, Braga, 1993, p. 104 e ss..

[4] Sobre o caso e a festa de Cristina de Bragança, Vide Padre Manuel Magalhães dos Santos, op. cit., p. 254 e ss.. José Abílio Coelho, Paixão Bastos (1870-1947) – Vida e Obra de um Escritor de Província, Edição do Jornal Terras de Lanhoso, Póvoa de Lanhoso, 2007, p. 44 e ss..; também, José Abílio Coelho, “O caso “Cristina de Bragança” ou de como as elites povoenses se viram interditadas pelo arcebispo de Braga”, in Quiosque de História, disponível em: http://quiosquedaruadafeira.blogspot.pt/2012/06/o-caso-cristina-de-braganca-ou-de-como.html

[5] Cfr. José Bento da Silva, Sport Club Maria da Fonte – Uma História com Amor, Edição do autor, Póvoa de Lanhoso, 2001, pp. 35 e ss., 55 e 191

[6] Cfr. Padre Manuel Magalhães dos Santos, op. cit., p. 875 e ss..

[7] Cfr. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, livro 2, registo n.º 212.

[8] Cfr. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ministério do Interior, Gabinete do Ministro, Mç. 475, [pt. 26/6].

[9] Foi com grande tristeza que, a imprensa local deu conta do falecimento do Senhor Constantino Maria Gonçalves Fernandes, assim, deixamos nota desses jornais: “Póvoa de Lanhoso” de 24 e 31 de Dezembro de 1955; “Maria da Fonte” de 25 de Dezembro de 1955 e de 08 de Janeiro de 1956.

[10] É de salientar que, o lugar do Pinheiro, é composto por duas partes:  uma parte que pertence à freguesia de Lanhoso e outra à freguesia de Geraz do Minho. Ora, as casas que se situam na Rua Constantino Gonçalves, do lado esquerdo, são de Lanhoso, as do lado direito, são de Geraz do Minho (isto no sentido da estrada Braga/Chaves).

[11] Miguel Torga, Poesia Completa, Volume II, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2007, p. 353.


[12] Na elaboração deste texto tivemos em conta as informações verbais que nos foram facultadas pela família, nomeadamente, nas pessoas da Senhora Dona Almerinda Lopes Gonçalves de Matos Cruz, da Senhora Dona Maria Manuela Gonçalves de Matos Cruz, e do Senhor Dr. José Manuel Gonçalves de Matos Cruz, a quem agradecemos, sobremaneira, pela simpatia e disposição demonstradas.