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terça-feira, 10 de abril de 2012

João Bastos (1880-1963) – Proprietário, músico, primeiro director do Hospital António Lopes


Os jovens Maria Elvira e João Bastos
João Albino de Carvalho Bastos nasceu na vila da Póvoa, freguesia de Fontarcada (Póvoa de Lanhoso), no dia 19 de Setembro de 1880, filho do negociante João António de Carvalho Bastos e de sua mulher D. Rosa Joaquina Pereira. Era neto paterno de Francisco José de Carvalho e de Eugénia Maria, da freguesia de Vilela, e materno de Albino José Pereira Guimarães e de Teresa Joaquina da Costa, residentes em Fontarcada.
Cresceu no coração da sua pequena vila natal em companhia de outros quatro irmãos, dois rapazes (Albino Osório* e José da Paixão*, poetas ambos, jornalistas e escritores), e de duas meninas (Genoveva e Amélia da Natividade)[1]. Sobre esta fase da sua vida, viria a escrever seu filho, o poeta João Augusto Bastos*: “Nado e criado nesta formosa vila minhota, cedo começou a enfeitiçar-se do seu encantamento, do lirismo dos seus campos e montes, da majestade do seu vetusto Castelo, da magia das suas lendas, que nos falam das virtudes das águas do Fornos e dos sinos do Pilar, que prendem e encantam todos os que bebem a cristalina linfa e escutam, embebecidos, a sinfonia quérula ou festiva do repicar dos bronzes, que gemem ou cantam, no campanário, lá em riba, no colosso granítico”[2].
Foi nesta terra onde o granito impera, que, na escola mandada construir com o legado do Conde de Ferreira, completou a instrução primária.
Estudou posteriormente no Liceu de Braga, de onde regressou sem ter concluído os estudos preparatórios. José Bento da Silva considerou-o, contudo, “um homem de cultura” e um “virtuoso da música”, que se distinguiu como director de orquestra e como homem de teatro[3]. São da sua autoria algumas composições musicais, que escreveu para orquestras da Póvoa de Lanhoso, nomeadamente hinos de algumas instituições que, em geral, eram interpretados em cerimónias públicas ou nas famosas tardes de variedades do Teatro Club.
Mas João Albino de Carvalho Bastos não se distinguiu apenas como homem de cultura. Foi comerciante, director-administrador do Hospital António Lopes enquanto o fundador foi vivo, vereador da câmara municipal por várias vezes. Foi um dos mais importantes sócios do Clube Povoense e dirigente do Sport Clube Maria da Fonte. Filho, genro e sobrinho de alguns dos grandes proprietários da terra dos inícios do século XX, herdou vasta fortuna. Sua esposa, D. Maria Elvira Lopes Bastos*, era filha de um “brasileiro” de grandes recursos, Emílio António Lopes, e sobrinha do grande benemérito povoense António Ferreira Lopes*. Por esse casamento, João Bastos guindou-se aos lugares cimeiros das elites locais, transformando-se, após a morte do sogro e do tio, num dos grandes proprietários do concelho. Desde essa ocasião, passou a viver exclusivamente dos rendimentos dos seus bens móveis e imóveis. Com parte do dinheiro herdado do “tio Lopes”, construiu a Casa das Bouças, na avenida da República, rodeada de um belíssimo pomar. Aí viveu até à morte.
Politicamente foi um “republicano conservador e moderado”, tendo militado no Partido Evolucionista, liderado por António José de Almeida, de quem se tornou “amigo e admirador”[4]. Foi, inclusive, correspondente do jornal República, do qual António José de Almeida foi a alma maior, bem como de O Comércio do Porto, e colaborador esporádico do semanário local Maria da Fonte. Apesar de ter sido vereador da câmara já no tempo do Estado Novo, manteve sempre uma “distância saudável” com a maioria dos simpatizantes do regime, com quem manteve acesas discussões nos jornais da terra.
Em 1928, foi um dos fundadores da Misericórdia local, quando os familiares e testamenteiros de António Lopes quiseram dar continuidade ao Hospital que o “brasileiro” das Casas Novas tinha fundado na Póvoa de Lanhoso, em 1917. João Bastos acompanhou as obras, como representante do tio (que tinha residência permanente em Lisboa), entre 1912 e 1917. Após a inauguração do mais importante melhoramento que esta terra conheceu, foi o director apaixonado pela obra, paga pelo tio e por si conduzida com dedicação e saber, até que interesses mais elevados se ergueram e João Bastos foi afastado da gestão do hospital e da mesa da Irmandade. Não obstante, o seu trabalho perdura e a história há-de encarregar-se de nos dizer que, exceptuando o fundador, ninguém, ao longo das décadas, fez tanto por aquela “casa de caridade” - como o próprio lhe chamava - como João Bastos. E, contudo, na terra poucos são os que recordam sequer o seu nome.
Morreu na sua casa das Bouças, na Póvoa de Lanhoso, em 20 de Junho de 1965, quando contava 82 anos de idade[5].

José Abílio Coelho



[1] Coelho, José Abílio, Paixão Bastos (1870-1947): vida e obra de um escritor de província, Póvoa de Lanhoso, jornal “Terras de Lanhoso”, 2007, pp. 18-21.
[2] Jornal Maria de Fonte, nº 54 (18ª série, ano 74), de 14 de Julho de 1963, p. 1.
[3] Silva, José Bento da, Em Cena. Teatro-Club (1904-2004), Póvoa de Lanhoso, ed. Autor, 2005, p.164.
[4] Jornal Maria de Fonte, nº 54 (18ª série, ano 74), de 14 de Julho de 1963, p. 1
[5] Jornal Maria da Fonte, nº 51 (18ª série, ano 74), de 23 de Junho de 1963, p. 3.

domingo, 4 de março de 2012

Gualdino da Silva Lopes (1889-1975) — Comerciante, vereador da câmara, mesário da misericórdia, dirigente associativo

Gualdino Lopes, ao centro, de fato cinza e gravata preta
Gualdino da Silva Lopes nasceu em Guimarães, em 1889. Após ter concluído ali a instrução primária, veio para a vila da Póvoa de Lanhoso, para empregado da casa comercial de Álvaro Ferreira Guimarães; casa que, durante muitas décadas foi uma escola para dezenas de empregados comerciais, que fizerem história no comércio concelhio e não só. Naquele estabelecimento - que durante várias décadas foi o mais importante da Póvoa de Lanhoso, sito na praça Municipal e dedicado à venda de fazendas e acessórios para roupas, chapéus, guarda-chuvas, tabacos, chás e café, livros e materiais de escritório e escolar, para além de ser, desde os finais do século XIX, representante local de vários bancos e companhias seguradoras - fez o jovem Gualdino a sua aprendizagem, passando todas as etapas, de marçano a oficial. As capacidades de trabalho demonstradas pelo jovem foram de tal ordem que Álvaro Ferreira Guimarães escolheu-o, quando ainda contava pouco mais de dezoito anos, como seu substituto nas ausências e outros impedimentos. A seriedade, a competência e a simpatia que irradiava de Gualdino Lopes levaram Ferreira Guimarães, que não teve descendentes, a dar-lhe sociedade no seu comércio, em Abril de 1921. À morte do fundador da casa, em 1944, Gualdino da Silva Lopes tornou-se herdeiro não só da empresa comercial como de vários outros bens do antigo presidente da câmara e administrador do concelho.
Para além de comerciante, Gualdino Lopes foi membro da câmara e dirigente associativo. Em 1925, foi um dos três signatários do requerimento que possibilitou a formação do grupo de futebol Maria da Fonte, tendo vindo, nos finais da década de 1930, a tornar-se presidente da sua direcção. Posteriormente foi presidente do conselho fiscal e da assembleia geral de sócios.
Em 1931, foi um dos fundadores da chamada Liga dos Interesses da Póvoa de Lanhoso. Em 1936, estando a corporação de Bombeiros quase desactivada, integrou a comissão administrativa que procedeu à sua reorganização e elaboração de novos estatutos[1]. Mais tarde, integrou a sua direcção. Da amizade com D. Anita Guimarães Lopes e seu marido Manuel Dílio Silva, resultou a abordagem que possibilitou que aquele casal, que era dono do Theatro Club, doasse esse edifício gratuitamente aos Bombeiros que, a partir dessa altura, deixaram de estar em casa emprestado para terem casa própria[2].
Foi destacada dirigente do Clube Povoense, cujos estatutos ajudou a legalizar na década de 1940. Nas décadas de 1940 e de 1950, foi por várias vezes vereador da câmara municipal e secretário da mesa da Misericórdia e Hospital António Lopes ao longo de vários mandatos, cargos que desempenhou sempre com grande elevação e seriedade.
Até que a vida começou a trocar-lhe as voltas. Utilizemos as palavras de A. Sousa e Silva do semanário “Jornal da Póvoa” de 7 de Maio de 1985. “Figura de corpo pequeno, mas de espírito e alma grandes”, “tinha como lema vale mais um bom nome que uma grande riqueza. E não há duvida que até ao último minuto da sua vida foi fiel a esse princípio. Todos sabem que foi senhor de uma apreciável fortuna, como sabem todos que morreu quase na miséria”. No seu texto subordinado ao tema Figuras da Póvoa, A. Sousa e Silva, que conheceu bem Gualdino Lopes, continua: “Mas é inegável que o seu nome honesto nunca foi manchado. Isto, porque preferiu perder todos os seus tostões, até ao último, pagando os seus compromissos, que valer-se, como tantos o fazem (alguns viajando engravatados em bons mercedes – de habilidades, infelizmente tão possíveis e até fáceis no país em que vivemos. Mas pior que tudo, ou antes revelador da incorrupta personalidade que possuía, Gualdino Lopes, terminou a sua vida de forma que não merecia, porque foi vítima crucificada de muitas gente sem escrúpulos, que aproveitando-se da sua boa fé e da incapacidade que ele próprio reconhecia, de não quere agir judicialmente contra ninguém. No entanto, em muitos casos, nem os motivos, nem as provas lhe faltavam. (…). Tinha também um carácter de bondade impróprio de comerciante pois era incapaz de negar um peça de vestuário a quem quer que dele se abeirasse a pedir fiado, mesmo que soubesse, à partida, que nunca mais veria o dinheiro dessa venda. Possuía um espírito jovial, sempre pronto a contar ou a participar numa alegre anedota. Um dia, em vésperas de Natal, assistimos a uma que nunca esqueceremos e que apesar de ser atrevida, não resistimos a contar. O Chinca levou lá uma encomenda e como estávamos em época natalícia, o bom do Gualdino, depois de mandar pagar o transporte, disse para o Chinca: Espera aí que te vou dar um charuto para fumares na noite de Natal. Foi ao seu escritório, trouxe uma caixa de charutos e deu-lhe dois. O Chinca veio para a rua todo satisfeito com a oferta e contou ao irmão – que na altura andava com ele na distribuição. O irmão do Chinca, foi logo pedir ao Gualdininho um charuto. Só que o Gualdininho estava bem disposto e resolveu pregar uma partida ao homem:
- Olha rapaz, aqui neste casa há horas para tudo. Quando o teu irmão cá veio, estava na hora de dar charutos. Agora está na hora de apanhar no… se queres aproveitar, entra ali para o escritório.
Claro que ir irmão do Chinca reagiu forte e feio, o que fez o bom do Gualdino e quem lá se encontrava rir a bom rir. Mas depois o homem, que saiu para a rua a praguejar, lá levou o seu charuto (…). Mas honra seja feita a Gualdino Lopes, pois, embora tendo morrido pobre, nunca traiu o lema da sua vida, já que perdendo toda a sua fortuna, sempre soube conservar o seu bom nome[3].
Gualdino da Silva Lopes faleceu em 15 de Maio de 1975, solteiro, aos 86 anos de idade. O semanário “Maria da Fonte” de 24 de mesmo mês e ano, escreveu: “Foi um homem honesto e trabalhador e teve certo destaque no nosso meio, mas depois a sua vida complicou-se e passou a viver humildemente”[4]. Morreu quase na miséria, depois de ter sido um homem rico. Apesar de tudo o que foi, apesar de ter tido o seu nome ligado às grandes causas da Póvoa de Lanhoso e do bem que fez a tantas pessoas e instituições, a sua memória caiu no esquecimento. Merecia que quem dele se aproveitou o relembrasse. E merecia que a Póvoa de Lanhoso desse o seu nome a uma das suas ruas. Era uma forma de os mais novos o recordarem e de, como escreveu A. Sousa e Silva, recordarmos todos a sua máxima: Mais vale um bom nome, que muita riqueza. A riqueza, perdeu-a. Mas garantiu o bom nome.

José Abílio Coelho


[1] Arquivo do Governo Civil de Braga, cx. 14, 5.1.1.1, correspondência recebida (1ª repartição), 1935-1936, s/paginação.
[2] A doação através de escritura notarial só foi feita na década de 1980, quando os Bombeiros quiseram vender o edifício à câmara, utilizando o dinheiro da venda como parte do investimento para a construção do novo quartel, sido na avenida da República.
[3] “Jornal da Póvoa”, nº 104 (2ª série), de 7 de Março de 1985.
[4] Cf. semanário “Maria da Fonte”, nº 2444 de 24 de Maio de 1975.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

José Luis da Silva Júnior (1891-1955) – Advogado, notário, primeiro presidente do SC Maria da Fonte


Silva Júnior: sentado, à direita.
José Luís da Silva Júnior nasceu em Braga a 16 de Fevereiro de 1891. Licenciou-se em direito pela Universidade de Coimbra, tendo, logo após a obtenção do grau, instalado banca de advogado na Póvoa de Lanhoso, vila onde, em 1920 era também notário. Uma função que manteve até Setembro de 1951. Nesta data, mudou-se para Braga, onde passou a exerceu a chefia da secretaria judicial da cidade, até ao seu falecimento em 19 de Agosto de 1955[1].
Foi uma figura de grande prestígio na Póvoa de Lanhoso, onde, para além de notário e advogado, foi presidente — o primeiro presidente — do SC Maria da Fonte, mesário da Santa Casa da Misericórdia, vereador e vice-presidente da Câmara Municipal. Foi amigo pessoal de António Ferreira Lopes. A confiança do “brasileiro” das Casas Novas no saber jurídico deste homem era tal que, e como pode aferir em várias cartas que dirigia aos sobrinhos que o representavam na Póvoa de Lanhoso quando o nenemérito estava em Lisboa, não tomava qualquer decisão nos seus negócios sem consultar o Dr. José Luis.
Casou em Braga com Eugénia Barbosa e Silva, tendo vindo de imediato instalar-se na Póvoa de Lanhoso, numa habitação do Largo de António Lopes. Aí nasceram todos os seus oito filhos, sete rapazes e uma menina. Sua esposa viria a falecer bastante jovem, na sequência de complicações surgidas após o parto do último filho.
Sendo um homem de baixa estatura, e para ser distinguido de outro grande advogado que tinha banca na vila da Póvoa, os povoense alcunharam-no de “doutor pequeno”.
Como se disse, em 1951 decidiu radicar-se em Braga. Ali foi mesário e depois provedor da Santa Casa da Misericórdia daquela cidade[2] até à morte, em Agosto de 1955. Em 1956, a Misericórdia de Braga prestou-lhe uma homenagem, tendo o seu retrato sido descerrado na sede da instituição, numa cerimónia em que usou da palavra o seu antecessor, Dr. Elísio Pimenta[3].

José Abílio Coelho


[1] Terras de Lanhoso, nº244, de 21 de Novembro de 2007.
[2] Maria da Fonte de 20 de Janeiro de 1952.
[3] Maria da Fonte de 16 de Setembro de 1956.