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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

ARMANDO GONÇALO TEIXEIRA RIBEIRO (1898-1973)

Há Homens que, apesar da sua entrega à terra ou às suas instituições, passam muito depressa ao rol do esquecimento. Não sei bem a razão pela qual isso acontece, se por desleixo, se por desconhecimento ou se por inveja. Sei que acontece e tenho-o vindo a mostrar à evidência. Um desses homens a quem a Póvoa de Lanhoso tanto deve e que sei de “certeza certa” é hoje desconhecido da maioria dos nossos conterrâneos, seja do povo mais humilde, seja dos nossos maiorais, é o Sr. Armando Gonçalo Teixeira Ribeiro.

Por isso aqui deixo hoje, a esse Homem bom, que fez o bem sem olhar a quem, esta breve homenagem – o que não invalida outras, de preferência oficiais, como por exemplo a sua integração na toponímia povoense em vez de uma dessas ruas com os nomes de países a quem a nossa terra nada deve.

Comemora-se este ano o 50º aniversário da fundação da Escola Prof. Doutor Gonçalo Sampaio, que entrou em funcionamento em outubro de 1970 e onde desde então estudaram dezenas de milhar de povoense que, assim, especialmente no início, deixaram de ser obrigados, uns, a ir de madrugada para Braga e a outros, os menos privilegiados pela vida, a ficarem-se pela quarta classe. O primeiro trimestre desta unidade de ensino, de outubro a dezembro, funcionou na antiga residência paroquial da Póvoa de Lanhoso, na avenida da República, e, a partir de janeiro de 1971, o segundo e terceiro trimestre estabelecida já na “Casa da Botica”, que para tal sofreu grandes obras.

O Estado prestava então à escolaridade que ultrapassasse um apoio apenas eventual, isto é, se quisesse. A câmara da Póvoa, sendo presidente o Dr. Avelino Pereira de Carvalho, queria abrir a escola (a que chamavam “ciclo preparatório”) tão necessária à terra e à sua juventude, mas não tinha dinheiro para fazer a intervenção no edifício a que popularmente ainda chamavam “o asilo” (a Casa da Botica), que estava muito estragada dado que não recebia qualquer arranjo que se visse desde a década de 1930. O Estado garantiria os vencimentos dos professores e outros funcionários, mas, e as obras? Em 1968 a Santa Casa da Misericórdia, por intervenção do então Provedor, o Eng.º Armando Rodrigues, tinha comprado o Palacete das Casas Novas, instalando nesse espaço o Lar, de que tomara conta à paróquia de Nossa Senhora do Amparo. Portanto, ficara a câmara com a Casa da Botica, que havia comprado na década de 1930 aos herdeiros de Barbosa Castro, livre para instalar o “ciclo”, mas era preciso fazer a obra e a câmara não tinha dinheiro para tal.

O Eng.º Albino Pinto da Silva, um conterrâneo a quem a Póvoa muito deve, fez o projeto para as obras e doou 50 contos de réis. Mas isso, sendo uma boa ajuda, era mais que insuficiente.

Entrou então na questão Armando Gonçalo Teixeira Ribeiro, um povoense morador em Galegos que, de uma vez só, bateu os 300 contos que faziam falta para conclui o arranjo do edifício. E só com esse apoio do Sr. Armando Teixeira Ribeiro, em troca de nada, a Póvoa conseguir abrir o “ciclo” no ano escolar 1970-1971 – faz, portanto, este ano escolar (2020-2021) cinquenta anos.

Quem era Armando Teixeira Ribeiro?

Armando Gonçalo Teixeira Ribeiro nasceu na vila da Póvoa, na parte então pertencente a Fontarcada (rua dos Lisboas) no dia 5 de setembro de 1898, filho do advogado e notário Dr. Alfredo António Teixeira Ribeiro, natural da freguesia de Sam Paio de Eira Vedra, Vieira do Minho, e de D. Elvira Amália Gião Areias Ribeiro, natural de Louredo, Póvoa de Lanhoso, antão moradores na vila da Póvoa, sendo neto paterno de João Álvaro Ribeiro e de D. Maria Joaquina Ramalho, e materno de António Vilela Areias e de D. Elisa Casimira de Abreu Gião, tendo sido padrinhos do recém-nascido o cónego Gonçalo Joaquim Fernandes e D. Françoise Maurim du Vale, uma francesa que no Brasil casou com um português e que mais tarde passou a residir em Sobradelo da Goma, terra natal de seu marido (ADB, Paroquiais de Fontarcada, Livro de assentos de Batismo 1891-1900, Fl 145-145v).

Ainda jovem partiu para o Brasil onde trabalhou alguns anos. Quando regressou, aplicou bem o capital que lá ganhara, investindo em vários ramos de negócios, tendo, entre outras coisas, sido sócio de uma fábrica de tintas, no Porto, com mais dois irmãos, e dedicando-se também aos negócios imobiliários.

Deve ter sido nesta altura que conheceu o arquiteto Viana de Lima, que lhe desenhou a casa que construiu na freguesia de Galegos. Alfredo Evangelista Viana de Lima foi um celebérrimo arquiteto português, natural de Esposende onde nasceu em 1913, tendo-se tornado um dos expoentes máximos no panorama da arquitetura portuguesa do século XX. Sendo solteiro e padrinho de batismo da sobrinha Fernanda Ribeiro (filha do irmão António Teixeira Ribeiro), quando esta casou ofereceu-lhe a casa desenhada por Viana de Lima. Também mandou construir a primeira escola da freguesia de Galegos, no lugar de Seides, onde a mesma sobrinha foi colocada quando esta se formou como professora do ensino básico. Nessa altura, quem construísse e pagasse do seu bolso uma escola primária em qualquer ponto do país, tinha, com base na lei, o direito de escolher o (ou os) professor/a que ali ficava a lecionar. Foi assim que centenas e centenas de aldeias portuguesas tiveram quem, a expensas próprias, lhes desse uma escola.

Para além da sobrinha, sabe-se que ajudou muitos e muitos pobres. Na vila, era um contribuinte regular nas grandes despesas do “Asilo de São José”, que abriu na década de 1930 e que pertencia à paróquia. Doava dinheiro, mas também bens para que os idosos que ali eram acolhidos tivessem uma vida menos penosa. Nesse tempo, não havia Estado Social e os pobres, ou tinham a proteção de quem podia e tinha bom coração, ou morriam de fome e de frio. Para além do “Asilo de São José”, também ajudou muito os pobres da sua freguesia de Galegos, tendo mesmo uma conta aberta na mercearia/venda da “Londres”, onde todas as semanas passava para acertar as contas do que os pobres dali levavam. Apoiava os desprotegidos em tudo o que podia, mas nunca os que consumiam vinho…

Também a paróquia de Galegos lhe é devedora, pois foi ele que pagou as obras de construção de um edifício paroquial encostado à igreja, creio que no virar dos anos sessenta para setenta.

Diz quem o conhecer que era um Homem naturalmente bondoso, até no sorriso que distribuía naturalmente, e que muitas vezes colocava as preocupações alheias à frente das suas.

Armando Gonçalo Teixeira Ribeiro faleceu em Braga, no dia 23 de agosto de 1973.

José Abílio Coelho

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

António Belarmino Teixeira Ribeiro (1896-1975) – Agricultor, político, dirigente associativo e colaborador da imprensa local



António Belarmino Teixeira Ribeiro
António Ribeiro, como ficou conhecido na Póvoa de Lanhoso do seu tempo, foi um desses filhos da terra que teve a inteligência e a coragem para ter sido tudo, mas a quem uma assumida frontalidade atirou sempre para o lugar dos “limitados” por vontade alheia.
Contudo, se, por exemplo, acusações de “reviralhismo” o afastaram da presidência da câmara ou de outros lugares de destaque público que podia ter ocupado nos meados do século XX, o mesmo não aconteceu na admiração e estima que mereceu como cidadão e como actor amador, um dos maiores que a Póvoa viu nasceu nos mais de 100 anos de história que o teatro amador conta na terra da Maria da Fonte.
Nascido na Vila da Póvoa de Lanhoso em 23 de Novembro de 1896, filho do advogado-notário Alfredo António Teixeira Ribeiro e de sua mulher D. Elvira Amália Geão Areias, frequentou a escolaridade básica na sua terra natal, tendo posteriormente completado o ensino liceal em Braga[1]. Foi neste tempo, enquanto estudante liceal, primeiro, e depois como jovem à procura de uma oportunidade na vida profissional, que António Ribeiro aprendeu todos os segredos da Arte de Talma. Como actor e como declamador de poesia, foi figura destacada a partir de 1916, tendo nessa altura divido os palcos com outros concidadãos que deixaram o nome gravado a ouro na história do teatro amador, e de entre os quais se destaca Elvira Maria Lopes Bastos*.
Quando contava 20 anos de idade, fez-se, como muitos outros jovens portugueses seus contemporâneos, ao mar, tomando caminho do Brasil. Tendo embarcado no vapor Deseado em Junho de 1917, quando era já um jovem distinto na terra, de tal modo que, na véspera da sua partida para a travessia do Atlântico, um grupo de amigos ofereceu-lhe no Hotel Povoense um jantar de despedida ao qual assistiram “vários admiradores das distintas qualidade do [seu] carácter”, entre os quais Eugénio de Azevedo, secretário de finanças, Adriano Leite, ajudante do oficial de registo civil, António Gonçalves de Magalhães, regente da música desta vila, Casimiro Pinto, solicitador, António de Sousa, João Maria Antunes Fernandes e tipógrafo João Carvalho.
No dia que se seguiu a esta festa, partiu para o Porto onde tomaria o seu lugar no vapor, indo alguns amigos despedir-se dele à estação de caminhos-de-ferro de Braga. Antes, realizou-se um almoço em Braga, no restaurante Aliança, oferecido pelo seu grande amigo, o capitalista “brasileiro” Manuel António Vieira Serzedelo, residente no lugar de Arrifana, que se fez acompanhar dos seus filhos Olinda, Iracema, Eugénia e Valdemar Serzedelo, bem como de outro amigo, Manuel Duarte da Silva[2].
Não sabemos ao certo o tempo que terá permanecido no Rio de Janeiro. O certo é que estava na Póvoa de Lanhoso em 12 de Julho de 1924, data em que casou com Olinda Ida Serzedelo Ribeiro*, filha do já refeido capitalista povoense e seu amigo Manuel António Vieira Serzedelo e de sua mulher D. Bebiana Ida de Castro Serzedelo[3]. O tempo de felicidade do casal foi, porém, muito reduzido, já que a jovem Olinda Ida viria a morrer em 16 de Maio de 1926 (com apenas 24 anos de idade), ao dar à luz, em casa, o seu primeiro filho, Olinda Ida Serzedelo Ribeiro (1901-1926), uma menina que sobreviveu à mãe.
Pai desta criança, António Ribeiro viria a casar em segundas núpcias com D. Maria Rita da Mota Teixeira Ribeiro, com quem teve mais quatro filhos: Fernanda, Manuela, Alfredo e António Sérgio Areias da Mota Ribeiro[4].
Foi vereador da câmara municipal da Póvoa de Lanhoso por mais de uma vez, cargo do qual se afastou sempre por vontade própria e em discordância com as políticas seguidas pelos seus pares. Foi também presidente da Junta de Fontarcada.
Foi um dramaturgo de valor, tendo escrito as peças “Espadelada”, “Dona Rosária” e “Almas do Outro Mundo”, tendo-se destacado também como encenador teatral[5].
Como cidadão interventivo, escreveu ao longo de várias décadas para o semanário Maria da Fonte, tendo-se tornado, com o passar dos anos, um assumido opositor ao então presidente da câmara e provedor da Misericórdia padre José António Dias. Nos inícios da década de 1950 esteve para ser nomeado presidente da câmara, mas o governador civil de Braga, teve recuar nos propósitos de o indicar ao ministro do Interior dadas as acusações de pertencer “ao reviralho” que sobre António Belarmino Teixeira Ribeiro caíram, vindas do grupo mais radical de apoiantes do Estado Novo.
Desde muito novo dedicado às terras que possuía em Fontarcada foi, até ao fim da vida, um sábio e esforçado agricultor, tendo desempenhado ao longo de muitos anos o cargo de presidente do Grémio da Lavoura. Esteve também ligado à indústria e ao comércio através da sociedade “Tintal – Fábrica de Tintas”, do Porto, da qual foi um dos sócios fundadores por escritura lavrada no dia 27 de Janeiro de 1954 e outorgado ainda por Armando Gonçalo Teixeira Ribeiro e Aristides Manuel Teixeira Ribeiro (seus irmãos) e Joaquim Vieira dos Santos, com um capital social de um milhão de escudos, dividido por quatro quotas iguais. Para além dos dois atrás invocados, era irmão de Abílio Ernâni Teixeira Ribeiro e do Prof. Doutor José Joaquim Teixeira Ribeiro (ver verbetes neste dicionário).
Faleceu na sua propriedade do Lugar da Arrifana (Fontarcada, Póvoa de Lanhoso) no dia 20 de Fevereiro de 1975[6].
“Homem probo, bondoso e caritativo, gozando neste meio de geral simpatia, teve uma vida de trabalho profícuo, congregando todos os seus esforços no desenvolvimento da lavoura, a que ele se dedicou de alma-e-coração”, escreveu no seu obituário o jornal Maria da Fonte. No mesmo semanário, António Sousa e Silva escreveu que António Belarmino Teixeira Ribeiro foi ao longo da sua vida um homem do Teatro, sendo um dos maiores vultos do teatro amador povoense, quer como actor, encenador e mesmo dramaturgo. Fez parte dos elencos mais valiosos que a Póvoa conheceu, sendo figura de primeira plano a par de Adolfo João de Figueiredo, Américo Macedo, João Carvalho e Bibi Bastos[7].

José Abílio Coelho



[1] Em 1909 era terceiranista do Liceu de Braga. Cf. Jornal Maria da Fonte, nº 746, de 7 de Novembro de 1909, p. 2
[2] Cf. Jornal Maria da Fonte, nº 1140, de 3 de Junho de 1917, p. 2
[3] Cf. Jornal Maria da Fonte, de 30 de Maio de 1926, p. 1
[4] Cf. Jornal Maria da Fonte, nº 2432, de 1 de Março de 1975, p. 2
[5] Silva, José Bento da, Em Cena Tteatro-Clubp (1904-2004), Póvoa de Lanhoso, CMPL, 2005, p. 190-191.
[6] Cf. Jornal Maria da Fonte, nº 2431, de 22 de Fevereiro de 1975, p. 3.
[7] Silva, António Bernardino de Sousa e, “Um homem do Teatro povoense”, in Jornal Maria da Fonte, nº 2432, de 1 de Março de 1975, p. 1