terça-feira, 20 de março de 2012

Padre Domingos José da Costa Araújo (1881-1957) – Professor e poeta

Domingos José da Costa Araújo é oriundo da secular Casa da Sarola de Baixo, da freguesia de Verim (Póvoa de Lanhoso), onde nasceu a 10 de Outubro de 1851.
Frequentou os seminários de Braga, onde se ordenou sacerdote. Contudo, a sua vocação passava, não pela dedicação a uma paróquia, mas pela dádiva ao ensino, onde granjeou a admiração e a amizade de muitas das figuras culturais de proa do seu tempo, como Guerra Junqueiro ou D. Domingos Gonçalves, bispo da Guarda. “Matemático, poliglota e filólogo eminente, que discutia de igual para igual com as luminárias nacionais da linguística”[1], padre Domingos José da Costa Araújo  foi professor no Porto e em Vila Real, fixando-se posteriormente em Guimarães, onde ensinou durante décadas no Colégio de Nossa Senhora da Conceição, dirigido então pelo também sacerdote povoense José Carlos Simões Veloso de Almeida.
Ao longo da sua vida dedicada ao ensino, construiu uma enorme e importante biblioteca, que, depois de ter concluído a sua carreira como mestre, trouxe para Verim, e serviu não só para com ela entreter os últimos dez anos da sua vida, como para ajudar a preparar para carreiras de sucesso académico significativo conjunto de familiares da parte baixo do concelho da Póvoa de Lanhoso.
Poeta de significativos méritos, deu à estampa centenas de textos em muitos jornais da região, tendo, sob o pseudónimo “Gerezino”, mantido uma rubrica intitulado “No meu cantinho” no jornal Notícias de Guimarães. O semanário local a Póvoa de Lanhoso publicou também muitos dos seus poemas.
Padre Domingos José da Costa Araújo faleceu na mesma casa onde nascera, em Verim, a 15 de Dezembro de 1957.


[1] Oliveira, Jorge Eduardo da Costa, Nota Biográfica [de Alírio do Vale, pseudónimo do Dr. José Narciso da Fonseca Oliveira], in Vale, Alírio, “Dinis Arão”, Póvoa de Lanhoso, Editorial Ave Rara, 2000, pp. 13-30.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Amaro Pereira (n. 1931) – Dirigente associativo, presidente honorário do SC Maria da Fonte

Amaro da Fonseca Pereira nasceu no lugar da Calvos da freguesia de São Gens de Calvos (Póvoa de Lanhoso), a 3 de Dezembro de 1931, filho de José Maria Pereira e de Aurora da Conceição Fonseca.
Quando o rapazinho contava ainda poucos meses de idade, seus pais mudaram-se para a vila da Póvoa de Lanhoso, onde instalaram residência no lugar da Portela. Foi nesse bairro popular, de gente humilde mas trabalhadora, que Amaro Pereira cresceu. Frequentou a escola primária do Conde de Ferreira, sita à avenida da República, onde o professor Fernandes lhe ensinou as primeiras letras. Pelos 9 anos adoeceu de tifo, esteve internado no Hospital António Lopes e perdeu o ano. Quando regressou aos afazeres escolares, fê-lo já na nova escola António Lopes, construída no largo do mesmo nome e nesse mesmo ano estreada, concluindo ali a escolaridade básica.
Nos inícios da década de 1940, com o “mundo” envolvido na II Grande Guerra, Amaro Pereira teve, como todos os meninos do seu tempo, que aprender uma profissão. Seus pais eram pessoas humildes e a depressão causada pelo conflito mundial obrigava a que os jovens procurassem muito cedo aprender um caminho profissional que lhes garantisse o sustento, no imediato e no futuro. O jovem Amaro, a quem quase todos tratavam por “Mário”, ainda entrou de aprendiz na tipografia do semanário “Maria da Fonte”, mas esse não era o percurso desejado. Poucos meses depois, mudou a sua aprendizagem para uma oficina de serralharia, num tempo em que esta era uma arte maior. Tinha jeito para a profissão, dedicação para aprender, ser ferreiro parecia uma actividade talhada à medida para os seus propósitos. Depressa se tornou conhecedor dessa profissão com milénios de existência, e que em tempos recuados fez dos ferreiros dos mais respeitados profissionais existentes à face da terra. Da oficina para casa e de casa para a oficina se fez homem. Depois, foi à tropa, e ainda concorreu para ser funcionário da companhia dos telefones mas, como a colocação tardasse mais que o desejado, Amaro encarou a profissão de ferreiro como aquela que havia de lhe oferecer a possibilidade de ganhar o pão para a boca. E diga-se: estabelecido por sua conta e risco numa pequena oficina no lugar onde passara a juventude, foi um serralheiro com sucesso, senhor do martelo e da bigorna, profissional reconhecido, um artista de mérito. Chamava, ele próprio, a essa sua primeira pequena oficina “a minha chafarrica”, vindo-lhe daí a acunha de Mário “Chafarrica”, como por quase todos se tornou conhecido no seu concelho natal . Para além dos serviços tradicionais, como janelas, portas e grades para a construção civil, entrou muito jovem na fabricação de sachadores e semeadores para os serviços agrícolas. Nesse tempo – décadas de cinquenta e sessenta do século XX – a agricultura experimentava progressos significativos, e entre eles a vontade de se adaptar a novas máquinas; de lado iam ficando aos poucos os velhos artefactos de madeira para, em definitivo, se apropriar dos de ferro, mais duráveis e eficientes. Amaro Pereira, instalou-se numa oficina maior, contratou ajudantes, e começou a fabricar centenas de semeadores e sachadores em cada época agrícola, peças que ele próprio passou a distribuir por toda a região norte de Portugal, de Braga ao Porto, de Viseu a Coimbra.
Com a afirmação profissional e a sua honradez, foi conquistando simpatias. O seu nome passou a constar da lista dos grandes dirigentes associativos que a Póvoa de Lanhoso conheceu. No Sport Clube Maria Fonte, entrou como vogal da direcção em 1969, tendo entre 1971 e 1974, sido vice-presidente do mesmo órgão. Em 1975, voltou a ser vogal de uma comissão administrativa que se seguiu aos tempos mais quentes do pós “revolução”, sendo eleito, em 1975 e pela primeira vez, presidente da direcção do clube. Manteve-se neste cargo, com um pequeno intervalo em que a direcção foi presidida por Moniz Ferreira, até 1990. Foi durante as suas presidências que o clube mais se destacou desportivamente e foi ainda sob a sua administração que o SCMF aumentou significativamente o seu património, nomeadamente com a actual sede social na rua do Comandante Luiz Pinto da Silva. Pela sua dedicação e relevância enquanto dirigente, a assembleia geral fê-lo presidente honorário em 25 de Junho de 1990[1].
Em 1974, na sequência do “25 de Abril”, foi o primeiro presidente da Comissão Administrativa da Junta de Freguesia da Póvoa de Lanhoso. Foi uma passagem efémera, mas respeitada, pela política, onde, apesar do tempo conturbado que se vivia, só deixou amigos e boa impressão
Para além do longo e significativo trajecto como dirigente do SC Maria da Fonte, Amaro Pereira foi ainda vogal da direcção dos Bombeiros Voluntários entre 1975 e 1980, cargo para o qual, a seu pedido, não foi reeleito, dados os pedidos que na altura lhe foram insistentemente feitos para “que pegasse” as rédeas do clube desportivo, que vivia então gerido por uma comissão administrativa.

José Abílio Coelho


[1] Para um melhor conhecimento da vida associativa de Amaro da Fonseca Pereira, bem como para um completo conhecimento do Sport Clube Maria da Fonte, ver a obra de José Bento da Silva intitulada: Sport Clube Maria da Fonte. Uma história com amor, editado em 2001.

domingo, 4 de março de 2012

Gualdino da Silva Lopes (1889-1975) — Comerciante, vereador da câmara, mesário da misericórdia, dirigente associativo

Gualdino Lopes, ao centro, de fato cinza e gravata preta
Gualdino da Silva Lopes nasceu em Guimarães, em 1889. Após ter concluído ali a instrução primária, veio para a vila da Póvoa de Lanhoso, para empregado da casa comercial de Álvaro Ferreira Guimarães; casa que, durante muitas décadas foi uma escola para dezenas de empregados comerciais, que fizerem história no comércio concelhio e não só. Naquele estabelecimento - que durante várias décadas foi o mais importante da Póvoa de Lanhoso, sito na praça Municipal e dedicado à venda de fazendas e acessórios para roupas, chapéus, guarda-chuvas, tabacos, chás e café, livros e materiais de escritório e escolar, para além de ser, desde os finais do século XIX, representante local de vários bancos e companhias seguradoras - fez o jovem Gualdino a sua aprendizagem, passando todas as etapas, de marçano a oficial. As capacidades de trabalho demonstradas pelo jovem foram de tal ordem que Álvaro Ferreira Guimarães escolheu-o, quando ainda contava pouco mais de dezoito anos, como seu substituto nas ausências e outros impedimentos. A seriedade, a competência e a simpatia que irradiava de Gualdino Lopes levaram Ferreira Guimarães, que não teve descendentes, a dar-lhe sociedade no seu comércio, em Abril de 1921. À morte do fundador da casa, em 1944, Gualdino da Silva Lopes tornou-se herdeiro não só da empresa comercial como de vários outros bens do antigo presidente da câmara e administrador do concelho.
Para além de comerciante, Gualdino Lopes foi membro da câmara e dirigente associativo. Em 1925, foi um dos três signatários do requerimento que possibilitou a formação do grupo de futebol Maria da Fonte, tendo vindo, nos finais da década de 1930, a tornar-se presidente da sua direcção. Posteriormente foi presidente do conselho fiscal e da assembleia geral de sócios.
Em 1931, foi um dos fundadores da chamada Liga dos Interesses da Póvoa de Lanhoso. Em 1936, estando a corporação de Bombeiros quase desactivada, integrou a comissão administrativa que procedeu à sua reorganização e elaboração de novos estatutos[1]. Mais tarde, integrou a sua direcção. Da amizade com D. Anita Guimarães Lopes e seu marido Manuel Dílio Silva, resultou a abordagem que possibilitou que aquele casal, que era dono do Theatro Club, doasse esse edifício gratuitamente aos Bombeiros que, a partir dessa altura, deixaram de estar em casa emprestado para terem casa própria[2].
Foi destacada dirigente do Clube Povoense, cujos estatutos ajudou a legalizar na década de 1940. Nas décadas de 1940 e de 1950, foi por várias vezes vereador da câmara municipal e secretário da mesa da Misericórdia e Hospital António Lopes ao longo de vários mandatos, cargos que desempenhou sempre com grande elevação e seriedade.
Até que a vida começou a trocar-lhe as voltas. Utilizemos as palavras de A. Sousa e Silva do semanário “Jornal da Póvoa” de 7 de Maio de 1985. “Figura de corpo pequeno, mas de espírito e alma grandes”, “tinha como lema vale mais um bom nome que uma grande riqueza. E não há duvida que até ao último minuto da sua vida foi fiel a esse princípio. Todos sabem que foi senhor de uma apreciável fortuna, como sabem todos que morreu quase na miséria”. No seu texto subordinado ao tema Figuras da Póvoa, A. Sousa e Silva, que conheceu bem Gualdino Lopes, continua: “Mas é inegável que o seu nome honesto nunca foi manchado. Isto, porque preferiu perder todos os seus tostões, até ao último, pagando os seus compromissos, que valer-se, como tantos o fazem (alguns viajando engravatados em bons mercedes – de habilidades, infelizmente tão possíveis e até fáceis no país em que vivemos. Mas pior que tudo, ou antes revelador da incorrupta personalidade que possuía, Gualdino Lopes, terminou a sua vida de forma que não merecia, porque foi vítima crucificada de muitas gente sem escrúpulos, que aproveitando-se da sua boa fé e da incapacidade que ele próprio reconhecia, de não quere agir judicialmente contra ninguém. No entanto, em muitos casos, nem os motivos, nem as provas lhe faltavam. (…). Tinha também um carácter de bondade impróprio de comerciante pois era incapaz de negar um peça de vestuário a quem quer que dele se abeirasse a pedir fiado, mesmo que soubesse, à partida, que nunca mais veria o dinheiro dessa venda. Possuía um espírito jovial, sempre pronto a contar ou a participar numa alegre anedota. Um dia, em vésperas de Natal, assistimos a uma que nunca esqueceremos e que apesar de ser atrevida, não resistimos a contar. O Chinca levou lá uma encomenda e como estávamos em época natalícia, o bom do Gualdino, depois de mandar pagar o transporte, disse para o Chinca: Espera aí que te vou dar um charuto para fumares na noite de Natal. Foi ao seu escritório, trouxe uma caixa de charutos e deu-lhe dois. O Chinca veio para a rua todo satisfeito com a oferta e contou ao irmão – que na altura andava com ele na distribuição. O irmão do Chinca, foi logo pedir ao Gualdininho um charuto. Só que o Gualdininho estava bem disposto e resolveu pregar uma partida ao homem:
- Olha rapaz, aqui neste casa há horas para tudo. Quando o teu irmão cá veio, estava na hora de dar charutos. Agora está na hora de apanhar no… se queres aproveitar, entra ali para o escritório.
Claro que ir irmão do Chinca reagiu forte e feio, o que fez o bom do Gualdino e quem lá se encontrava rir a bom rir. Mas depois o homem, que saiu para a rua a praguejar, lá levou o seu charuto (…). Mas honra seja feita a Gualdino Lopes, pois, embora tendo morrido pobre, nunca traiu o lema da sua vida, já que perdendo toda a sua fortuna, sempre soube conservar o seu bom nome[3].
Gualdino da Silva Lopes faleceu em 15 de Maio de 1975, solteiro, aos 86 anos de idade. O semanário “Maria da Fonte” de 24 de mesmo mês e ano, escreveu: “Foi um homem honesto e trabalhador e teve certo destaque no nosso meio, mas depois a sua vida complicou-se e passou a viver humildemente”[4]. Morreu quase na miséria, depois de ter sido um homem rico. Apesar de tudo o que foi, apesar de ter tido o seu nome ligado às grandes causas da Póvoa de Lanhoso e do bem que fez a tantas pessoas e instituições, a sua memória caiu no esquecimento. Merecia que quem dele se aproveitou o relembrasse. E merecia que a Póvoa de Lanhoso desse o seu nome a uma das suas ruas. Era uma forma de os mais novos o recordarem e de, como escreveu A. Sousa e Silva, recordarmos todos a sua máxima: Mais vale um bom nome, que muita riqueza. A riqueza, perdeu-a. Mas garantiu o bom nome.

José Abílio Coelho


[1] Arquivo do Governo Civil de Braga, cx. 14, 5.1.1.1, correspondência recebida (1ª repartição), 1935-1936, s/paginação.
[2] A doação através de escritura notarial só foi feita na década de 1980, quando os Bombeiros quiseram vender o edifício à câmara, utilizando o dinheiro da venda como parte do investimento para a construção do novo quartel, sido na avenida da República.
[3] “Jornal da Póvoa”, nº 104 (2ª série), de 7 de Março de 1985.
[4] Cf. semanário “Maria da Fonte”, nº 2444 de 24 de Maio de 1975.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Padre José Joaquim Dias (1909-1985) - Sacerdote Católico


Existem pessoas que pela sua forma de viver e de estar em sociedade deixam, indelevelmente, a sua marca. Uma dessas pessoas é o Reverendo Padre José Joaquim Dias, sacerdote católico, que dedicou o seu múnus sacerdotal, numa entrega e atitude de fidelidade, a Jesus Cristo proclamando, abnegadamente, o seu Evangelho.
Nasceu na freguesia de São Miguel de Oriz, concelho de Vila Verde, no dia 15 de Julho de 1909, filho de António Dias e Joaquina Rosa Ferreira; recebeu o Sacramento do Baptismo, no dia 20 de Julho de 1909, com o nome de José Joaquim, pelo Reitor da paróquia de São Miguel de Oriz, Reverendo Padre Joaquim António Rodrigues Peixoto[1].
Frequentou os Seminários da Arquidiocese de Braga, cuja entrada foi no ano de 1924.
Após o seu percurso académico, com grande êxito, e de discernimento na sua vocação sacerdotal, viria a receber o Sacramento da Ordem, no dia 15 de Agosto de 1934, na Sé Catedral de Braga, pelo então Arcebispo de Braga, Dom António Bento Martins Júnior[2].
Nesse mesmo ano de 1934, foi nomeado pároco das comunidades paroquiais de São Gens de Calvos e Santo André de Frades, no concelho da Póvoa de Lanhoso, no qual tomou conta dos destinos destas comunidades no dia 11 de Novembro de 1934[3].
Foi nestas comunidades que este sacerdote se destacou, como um homem impulsionador e dinâmico. Assumiu estas duas paróquias num tempo sociocultural e político, deveras complicado, onde predominava a fome, a miséria, em que eram pedidos grandes sacrifícios ao povo, já que por si viviam numa extrema pobreza.
Soube com a sua perspicácia, sabedoria, bondade, humildade e simplicidade trazer às suas comunidades o alento, como o desenvolvimento que se podia alcançar nesse período da nossa história, nomeadamente, durante o Estado Novo.
A inquietação espiritual deste neo-sacerdote, passava por organizar a pastoral da catequese, concomitantemente, criou diversos grupos de cariz religioso e espiritual. No plano material, foi um “gigante” entre homens, um grande impulsionador, atento às necessidades do seu povo.
Com ele, foram restauradas as Igrejas de Calvos (sendo esta ampliada, cujas obras iniciaram no ano 1935) e Frades; o restauro de capelas, da residência paroquial de Calvos; a construção de escolas; a construção dos muros dos adros das Igrejas de Calvos e Frades; a construção do cemitério de Frades; a abertura de diversas estradas, em que destacamos a título exemplificativo: a estrada municipal que liga São Gens de Calvos a Frades, tendo acesso à estrada nacional que faz a ligação de Braga para Chaves, como a estrada de São Gens de Calvos à sede de Concelho, rompendo assim com o isolamento do seu amado povo.
A sua última obra entre nós foi abertura da estrada que dá acesso ao cimo do monte de Penafiel, mais conhecido por monte de São Mamede, devido ao culto ao mártir São Mamede que ai se realiza, na freguesia de Frades. Como um apaixonado que era pelo monte de Penafiel ou São Mamede, e notando que daquele local se vislumbrava um cenário paisagístico de inigualável beleza, de onde se abarcam panorâmicas infindas, em que se pode alcançar as águas do Oceano Atlântico, começaram em 29 de Julho de 1964, os trabalhos de abertura da estrada.
Assim, com o seu dinamismo, com a ajuda de toda a população de Frades, que ofereceu o seu trabalho, com o recurso de ajudas monetários de pessoas amigas e de instituições públicas, cumpriu o seu sonho – a estrada.
Desta forma, em 8 de Dezembro de 1992 a freguesia de Frades manifesta a sua gratidão para com o sacerdote, atribuído à via de acesso ao monte de Penafiel ou São Mamede – “Estrada Padre José Joaquim Dias[4], onde ainda hoje podemos encontrar um marco no sopé da estrada com essa designação.
Porém, aquando das alterações toponímicas, ocorridas a partir do ano de 2009, em que houve novas nomenclaturas para os lugares, passado para ruas, avenidas…, faltou sensibilidade ao poder político em manter o nome da estrada que dá acesso ao cimo da montanha de Penafiel ou São Mamede com o nome de Padre José Joaquim Dias, atribuindo-lhe a designação de “Rua de São Mamede”. Estrada, que foi aberta, devido ao empenho de um homem que foi sensível ao bem comum, e merece que se honre a sua memória.
Mas abertura de estradas não se confinou somente às suas duas paróquias. Conseguiu também para a sua terra natal, uma estrada, que ligou a freguesia com a estrada de Vila Verde – Terras de Bouro, pela margem direita do Rio Homem.
Conquanto, com a Centenária Banda de Calvos, foi um pai que cuida de um filho com carinho e amor; organizou a Banda Musical, tendo mesmo em certa altura assumido ele próprio o ensaio dos músicos, em que a dotou de novos instrumentos e de novos fardamentos[5].
Com o clero foi sempre um amigo e conselheiro, vindo a ser anos mais tarde o primeiro entre os seus pares, ocupando o cargo de Arcipreste do Julgado Eclesiástico de Póvoa de Lanhoso e Vieira do Minho.
Ocupou, também, o cargo de Presidente da Junta de Calvos. Como assumiu, durante longos anos, a incumbência de ser Director do jornal “Póvoa de Lanhoso”[6], função que desempenhou a partir do ano de 1962[7] até ao ano de 1985, ano da sua morte.
Nunca recusou qualquer pedido, pois eram muitos aqueles que lhe iam bater à porta, seja para lhe arranjar emprego ou para resolver problemas difíceis de vida. Deslocou-se diversas vezes às mais variadas localidades do país, não em passeio, mas para resolver os problemas daqueles que constantemente o interpelavam.  
Cansado desta árdua tarefa, de 32 anos de pároco, em 1966, pediu a sua transferência aos seus superiores hierárquicos, sendo indigitado para Capelão do Santuário de São Bento da Porta Aberta, no concelho de Terras de Bouro; em que viria substitui-lo nas paróquias o Reverendo Padre José Vaz da Mota.
A sua retirada de São Gens de Calvos e Santo André de Frades, de imediato trouxe a saudade e notou-se a amizade que os paroquianos nutriam por este sacerdote, como também dos seus colegas sacerdotes do Arciprestado da Póvoa de Lanhoso[8].
Além disso, a estima dos seus ex-paroquianos manifestou-se, quando o Padre José Joaquim Dias, celebrou as suas Bodas de Ouro Sacerdotais, no ano de 1984; em que foi alvo de uma homenagem em Calvos[9], sendo descerrada na Igreja Paroquial uma placa evocativa dessa efeméride, que narra: “Homenagem de gratidão das Paróquias de S.Gens - Calvos e Frades, ao Padre José Joaquim Dias, pelos 32 anos que paroquiou estas freguesias, nas bodas de ouro da sua Ordenação Sacerdotal. 12-08-1984”.
Contudo, ainda hoje verificamos nestas duas paróquias, com aqueles que bem conheceram este bom homem, falarem entusiasticamente do “Senhor Arcipreste” com carinho e grande afeição. 
Assim, em 1966 assumiu a capelania do Santuário de São Bento da Porta Aberta, ocupando essas funções com muita dignidade e empenho até ao dia da sua morte, que ocorreu no dia 5 de Janeiro de 1985[10].
Com toda a sua obra e exemplo de vida, diremos, como dizia Almeida Garrett, “começa a imortalidade das famas honradas”.

Sérgio Machado


[1] Cfr. Arquivo Distrital de Braga, Fundos Paroquiais de Vila Verde, paróquia de São Miguel de Oriz, Assento de Baptismo n.º 6, do ano de 1909, livro n.º 909, 1885-1910, fl. 47v.
[2] Vide Jornal “Diário do Minho” de 16 de Agosto de 1934.
[3] Vide Jornal “Póvoa de Lanhoso” de 18 de Novembro de 1934; Acção Católica, n.º 10, 1934, p. 592.
[4] Vide Jornal “Maria da Fonte” de 18 de Dezembro de 1992; e, “Jornal da Póvoa” de 10 de Dezembro de 1992.
[5] Vide José Bento da Silva, Bandas de Música do Concelho da Póvoa de Lanhoso – Subsídios para a sua História, Cadernos Culturais n.º 2, Associação Cultural da Juventude Povoense, Póvoa de Lanhoso, 1992, p. 54 e ss..
[6] Cfr. José Abílio Coelho, Rascunhos da História (Subsídios para a História da Imprensa nas Terras de Lanhoso), Edição do Autor, Póvoa de Lanhoso, 1994, p. 108.
[7] Vide Jornal “Póvoa de Lanhoso” de 07 de Julho de 1962.
[8] Vide Jornal “Póvoa de Lanhoso” de 29 de Outubro de 1966, e de 05 de Novembro de 1966.
[9] Vide Jornal “Póvoa de Lanhoso” de 14 de Setembro de 1984.
[10] Aquando o falecimento do Padre José Joaquim Dias, a imprensa local e regional referiu-se à morte deste sacerdote que deixamos nota desses jornais: “Diário do Minho” de 7 de Janeiro de 1985; “Póvoa de Lanhoso” de 11 de Janeiro de 1985; “Maria da Fonte” de 11 de Janeiro de 1985; “São Bento da Porta Aberta”, n.º 268, Janeiro 1985.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

António Maria Alves de Oliveira (1899-1988) – Médico e subdelegado de saúde da Póvoa de Lanhoso


António Maria Alves de Oliveira nasceu na freguesia de Mosteiro, concelho de Vieira do Minho, no dia 14 de Setembro de 1899, filho de abastados proprietários agrícolas.
Depois de completar a instrução primária na sua terra natal, concluiu os “preparatórios” no Liceu Nacional de Braga, de onde partiu para a Coimbra, em cuja universidade se licenciou em medicina em 29 de Janeiro de 1931[1].
Das margens do Mondego, e concluído o curso, partiu para a Póvoa de Lanhoso onde instalou consultório. Embora perto do seu concelho natal, preferiu sedear-se nas terras de Lanhoso que, na altura, era ainda uma vila em franco crescimento, sobretudo devido ao dinamismo que desde o início do século o “brasileiro” António Lopes lhe imprimira.
Da medicina privada, o Dr. António Alves de Oliveira depressa progrediu para cargos oficiais. Na sessão de 5 de Julho de 1932, meio ano depois de concluir a licenciatura, a mesa da Misericórdia local admitiu-o como clínico efetivo, com o ordenado mensal de 250$00, em substituição do Dr. Custódio António da Silva que, na mesma reunião, foi demitido de clínico daquela casa por divergências com a Santa Casa. Em acta da mesma sessão ficou registado que “há já bastantes meses que o Dr. António Maria Alves de Oliveira (…) vem exercendo com zelo e dedicação, e gratuitamente” serviços no Hospital António Lopes[2].
Fruto da falta de médicos e das divergências políticas entre o poder municipal e alguns dos clínicos que na terra exerciam, como os doutores Custódio António da Silva ou o Dr. Pinto Bastos, a carreira do Dr. António Oliveira tornou-se fulgurante. A 11 de Julho de 1933, foi nomeado, por portaria do ministério do Interior, delegado de saúde interino no mesmo concelho, sendo confirmado como delegado efetivo em 8 de Setembro de 1934. Em 15 de Dezembro de 1933, foi investido, em sessão extraordinária da Comissão Administrativa Municipal, facultativo do 2º Partido Médico Municipal da Póvoa de Lanhoso, sendo empossado no cargo a 11 de Janeiro de 1934 pelo (então) presidente da mesma comissão, José Maria de Sousa Cruz. Em paralelo e durante décadas, exerceu clínica privada na sua residência, uma casa que lhe foi cedida gratuitamente pela Misericórdia no primeiro andar do edifício onde se encontrava instalada a Farmácia do Hospital. Com o passar dos anos, tornou-se um médico categorizado, que conquistou abrangente clientela. Dedicando-se à sua profissão como se de um sacerdócio se tratasse, possuía enorme e bem constituída biblioteca, e muito do seu tempo era gasto com o estudo e atualização profissional, encomendando, especialmente para Paris, a mais atualizada bibliografia médica. Entre o seu espólio encontra-se um livro de apontamentos elaborado pelo próprio punho, com anotação de preparados que o próprio mandava manipular para cada uma das doenças que preendia tratar aos seus doentes.
Foi filiado na União Nacional, sem jamais querer ir além disso, resistindo mesmo a assumir a presidência da comissão política local da União Nacional, o partido que sustentava o Estado Novo no poder, quando, na década de 1940, foi por mais de uma vez abordado pelo então governador civil de Braga. Foi membro da Acção Católica Portuguesa a partir de 5 de Abril de 1961, com o número 2.201.
Pouco tempo depois da Revolução do 25 de Abril, decidiu deixar definitivamente a prática da medicina, ausentando-se para Braga, onde, na Rua Diogo Teive, passou a habitar com a esposa, D. Alzira Ribeiro de Oliveira (n. 22 de Junho de 1912 no Rio de Janeiro), em casa de uma sobrinha
Faleceu em 9 de Novembro de 1988, aos 89 anos de idade.

José Abílio Coelho


[1] Cf. inscrição na Ordem dos Médicos, Secção Regional do Porto, cédula profissional nº 4046-P.970.
[2] Arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Lanhoso (ASCMPL), livro de actas número 1, fl. 36

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Manuel de Oliveira Moreira (1906-2005) — Bombeiro Voluntário; motorista de carro da praça


Nasceu em Nine, concelho de Vila Nova de Famalicão, no dia 19 de Março de 1906, onde cresceu e se fez homem. Veio para a Póvoa de Lanhoso em 1926, pela mão do Padre José Dias, sendo seu motorista (a sua carta de condução de veículos ligeiros e pesados foi obtida em 27 de Fevereiro de 1928) durante alguns anos. Em 1929 casou, na Póvoa de Lanhoso, com Maria Rosa Lopes, união da qual nasceram vários filhos. Após o casamento trabalhou numa oficina de reparação de automóveis (por isso era por muitos conhecidos como “Se Manuel da Garagem”), e, mais tarde, foi “motorista na praça” de automóveis de aluguer na Vila da Póvoa, até se aposentar. Bombeiro desde 1937, ascendeu ao quadro honorário em 24 de Janeiro de 1979.
Em 19 de Março de 1988, o município atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Municipal (Grau Prata) pelos seus serviços à corporação de Bombeiros. Em Outubro de 2003, o Club Rotário da Póvoa de Lanhoso centrou no decano dos bombeiros povoenses uma homenagem aos Soldados da Paz.
Manuel Moreira faleceu na Póvoa de Lanhoso no dia 1 de Dezembro de 2005, poucos meses antes de completar um século de vida.

José Abílio Coelho

domingo, 12 de fevereiro de 2012

José Luis da Silva Júnior (1891-1955) – Advogado, notário, primeiro presidente do SC Maria da Fonte


Silva Júnior: sentado, à direita.
José Luís da Silva Júnior nasceu em Braga a 16 de Fevereiro de 1891. Licenciou-se em direito pela Universidade de Coimbra, tendo, logo após a obtenção do grau, instalado banca de advogado na Póvoa de Lanhoso, vila onde, em 1920 era também notário. Uma função que manteve até Setembro de 1951. Nesta data, mudou-se para Braga, onde passou a exerceu a chefia da secretaria judicial da cidade, até ao seu falecimento em 19 de Agosto de 1955[1].
Foi uma figura de grande prestígio na Póvoa de Lanhoso, onde, para além de notário e advogado, foi presidente — o primeiro presidente — do SC Maria da Fonte, mesário da Santa Casa da Misericórdia, vereador e vice-presidente da Câmara Municipal. Foi amigo pessoal de António Ferreira Lopes. A confiança do “brasileiro” das Casas Novas no saber jurídico deste homem era tal que, e como pode aferir em várias cartas que dirigia aos sobrinhos que o representavam na Póvoa de Lanhoso quando o nenemérito estava em Lisboa, não tomava qualquer decisão nos seus negócios sem consultar o Dr. José Luis.
Casou em Braga com Eugénia Barbosa e Silva, tendo vindo de imediato instalar-se na Póvoa de Lanhoso, numa habitação do Largo de António Lopes. Aí nasceram todos os seus oito filhos, sete rapazes e uma menina. Sua esposa viria a falecer bastante jovem, na sequência de complicações surgidas após o parto do último filho.
Sendo um homem de baixa estatura, e para ser distinguido de outro grande advogado que tinha banca na vila da Póvoa, os povoense alcunharam-no de “doutor pequeno”.
Como se disse, em 1951 decidiu radicar-se em Braga. Ali foi mesário e depois provedor da Santa Casa da Misericórdia daquela cidade[2] até à morte, em Agosto de 1955. Em 1956, a Misericórdia de Braga prestou-lhe uma homenagem, tendo o seu retrato sido descerrado na sede da instituição, numa cerimónia em que usou da palavra o seu antecessor, Dr. Elísio Pimenta[3].

José Abílio Coelho


[1] Terras de Lanhoso, nº244, de 21 de Novembro de 2007.
[2] Maria da Fonte de 20 de Janeiro de 1952.
[3] Maria da Fonte de 16 de Setembro de 1956.